Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

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O trem das sete (Raul Seixas)

Dimas Lins

Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.

Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.

Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.

Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte - embora eu ainda não soubesse que se tratava dela - parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.

Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.

Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.

Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.

Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.

Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.

Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.

A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!

Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. “Vá e viva!”, foram suas últimas palavras.

Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.


* Dedicado a Yuri.

6 Comentários

  1. Ana Cláudia 24 de janeiro de 2008, às 8:53h

    Camarada,

    Essa doeu! A crônica está linda, estupenda, mas muito dolorida, Dimas! Mexeu comigo.
    Beijos,
    Cláudia

  2. ducaldo 26 de janeiro de 2008, às 1:07h

    Dimas,

    mais uma crônica sensacional. Bela, apesar da dor intensa que nos transmite.

    Gosto muito dos seus textos mas, não sei se é impressão minha, você se sai melhor ainda quando o tema envolve melancolia, drama, tristeza…. (pode parecer meio mórbido, não sei, mas eu gosto mais deles)

    Eu diria que os versos de Torquato Neto (Geléia Geral), servem direitinho para você:

    “A alegria é a prova dos nove
    E a tristeza é teu porto seguro”

  3. Dimas Lins 26 de janeiro de 2008, às 11:02h

    Cláudia,

    Fiz este pequeno conto por conta da morte da mãe de um amigo, por isso essa sensação dolorida. A morte dói mesmo e ainda me afeta profundamente.

    Ducaldo,

    Cá entre nós, gosto mais de escrever sobre coisas melancólicas e, como diz Cláudia, doloridas. Não sei o que é, mas me sinto mais à vontade. Aliás, coincidências ou não, das crônicas que escrevi e que mais gosto, dois terços são temas que envolvem a melancolia.

    Artur Perrusi já dizia que tenho a alma melancólica. Depois percebi que sou apenas sentimental. Melancólico mesmo é nosso amigo Géo, basta ver no Inscritos em Pedra.

    A todos os amigos que acompanham o blog, peço desculpas pela demora na atualização do Estradar. A questão é que Estou fazendo uma pequena reforma em casa e estou aprisionado no quarto com alguma dificuldade de acesso a computador e internet. Além disso, enquanto grande parte dos brasileiros estão de férias, eu ando trabalhando mais do que o normal, o que reduz significativamente meu tempo disponível.

    Um abraço,

    Dimas Lins

  4. Maria Mattoso 26 de janeiro de 2008, às 17:08h

    Pôxa Dimas essa foi demais. Belíssima. A morte é um assunto que tememos. Não deveríamos. Ela faz parte da vida. Só teme realmente a morte quem não compreende que a vida é um círculo e quando morremos, voltamos ao ponto de partida para novamente empreender uma nova jornada e um dia morrer e assim por diante. é um ciclo sem fim. Nascemos, amamor, choramos, vivemos intensamente (alguns têm medo de viver), envelhecemos e um dia morremos. Felizes os que conseguem cumprir este ciclo. uma grande abraço e parabéns pelo texto. Adorei.

  5. Sirley 29 de janeiro de 2008, às 8:15h

    Dimas,
    retornei as visitas e esssa tua crônica me fez lembrar de várias pessoas queridas que foram visitadas pela Senhora Morte… senti saudade, tristeza e leveza no teu texto… fiquei muito emocionado e chorei!
    Um grande abraço,

  6. josias de paula jr. 31 de janeiro de 2008, às 16:16h

    Velho, belíssima construção da aceitação da morte. Um pouquinho diferente dos demais, senti a tristeza do texto claro (a morte de alguém querido), mas a força enorme de um reconforto. Reconforto maduro, consciente.
    Li esse teu texto mais que os outros e nem iria comentá-lo… Mas já que voltei e li de novo, deixo o testemunho.
    Bonita crônica mesmo!

Nós que aqui estamos, por vós esperamos