Olinda, minha mulher
Foto: Evane Manço

Olinda (sonho de valsa) - (Alceu Valença)
Dimas Lins
Foi com o angustiante sentimento de perceber que o carnaval estava no fim, que senti a frustração de não ser o mesmo folião de outrora. O festivo pernambucano que se enfiava em Olinda nos quatro dias de folia atrás dos blocos e troças agora era apenas um observador da beleza do frevo, do maracatu, do cabloclinho, do cavalo-marinho e de tantas outras manifestações culturais do mais tradicional e contagiante carnaval do planeta. Ainda amo o frevo com a mesma febre de outros tempos, apenas ando contido na forma de demonstrar esse amor.
Fácil nessas horas é lembrar com saudade do tempo em que o carnaval desfilava na minha porta me convidando para entrar na brincadeira. Tempos saudosos do bairro de São José, o lugar que me ensinou a amar as coisas do Recife e a deixar o coração bater com mais vagar, apenas para entrar no compasso dos tambores silenciosos na segunda-feira de carnaval.
O amor por Olinda surgiu um pouco depois, quando me mudei para lá. São José já não era mais o mesmo e minha família, como tantas outras, deixava o velho bairro no cordão da saideira para ver a vida se enfeitar em outras paragens.
Em Olinda também me senti no meu lugar, recebido de braços abertos que fui pela Marim dos Caetés. Foi nesta época, ainda na adolescência, que conheci e fiz amizade com Chico antes dele se tornar Science, o líder do movimento Manguebeat e de uma das cenas mais importantes da música brasileira. Não raro, virávamos a madrugada ao redor de um violão e de muita farra. Chico naquela época já compunha, mas sua linha musical era mais voltada para o rock. Que boa mudança, meu camarada!
Mas minha saudade maior vem mesmo do carnaval e dos tempos em que eu subia e descia as ladeiras de Olinda atrás da folia. Sinto falta dos bonecos gigantes e da criatividade dos foliões na originalidade das fantasias, escrachadas como elas só. Das brincadeiras de milhões de anônimos, do riso solto nas ruas, dos beijos loucos sob a luz da lua, da animação coletiva e da certeza de não se entregar ao cansaço até que a última troça desfilasse pelas ladeiras da cidade.
Na quarta-feira de cinzas, aqui e agora, sentado em frente ao computador, me pareceu sem sentido não ter subido e descido as ladeiras de Olinda neste carnaval. Quase bati no meu rosto querendo acordar aquele folião de anos atrás que sacudia braços e pernas achando pouco quatro dias de folia. Assim, de pronto, se fosse permitido, eu retrocederia até a sexta-feira para reencontrar Vassourinhas, Pitombeira, Elefante, Siri na Lata, Ceroulas e tantas outras troças para dizer a Olinda que eu também quero cantar a ti esta canção e exaltar os teus coqueirais, o teu sol e o teu mar.
Olinda é minha mãe, minha mulher e minha filha e amor assim não se abandona deliberadamente. Ano que vem, quem sabe, estarei em tuas ladeiras, correndo atrás das troças, como nos velhos tempos. E se assim for, no final de cada dia de carnaval, sentarei no Alto da Sé, comerei uma tapioca, olharei teu mar e cantarei uma canção de amor, para vibrar meu coração. E prometo que todo ano volto pra te ver.
4 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Dimas,
Tive o mesmo choque que você, só que o meu aconteceu ainda na madrugada do sábado. É o quarto ano em que eu desdenhava do Carnaval, até que a curiosidade me fez brincar de controle remoto e descobrir a transmissão da Band, que neste ano cobriu apenas o carnaval de Salvador e de Recife/Olinda. Vi a abertura do carnaval recifense e tive que respirar fundo para não chorar de emoção, com Naná e os 500 batuqueiros. Depois acompanhei Elza Soares com os batuqueiros (a música escolhida foi um fiasco, mas tudo bem), os passistas, os maracatus, os caboclinhos…
Ao mesmo tempo em que tive mais uma vez orgulho de ser pernambucana, me deu também essa vontade de meter a mão na minha cara para acordar a foliã adormecida. Inútil, penso agora. Acho que a foliã entrou em coma alcóolico carnavalesco e agora sobrevive assim, com ajuda de aparelhos (TV) somente.
Prometi a mim mesma que no próximo ano estarei em Recife e Olinda para curtir o carnaval. E já na quarta-feira de cinzas concluí que promessa de carnaval não deve ser levada lá muito a sério…
Valeu “Dimas”,
Muito boas as matérias que vc fez nesse Carnaval … Olhe que brinquei apenas um dia em Olinda e de fato é de tirar o fôlego !!!!
abraços !!!!
Olinda e Recife foram, são e sempre serão magistrais no carnalval… adorei!!! Nunca fui um folião de acompanhar troças e me meter no furdunço no meio da multidão, mas sempre me arrepio com o efervecência que Pernambuco e os prenambucanos ficam no carnaval… estive na abertura do carnaval no bairro do Recife Antigo (marco zero) e fiquei muito emocionado, só não consigo mais me emocionar com Nána e seus 500 batuqueiros, mas tudo bem… é carnaval!
CARNAVAL EM 12 DE MARÇO
CONVITE: VENHAM COMEMORAR COM GETULIO CAVALCANTI O TITULO DE CIDADÃO DE OLINDA, DIA 12 DE MARÇO, AS 19HS, NA CÂMARA MUNICIPAL DE OLINDA, PROPOSTA DO VEREADOR MARCELO SOARES.
NÃO FALTEM, DIA DO ANIVERSÁRIO DE OLINDA, DIA DE FESTA, DIA DE GETULIO , O MENESTREL DO FREVO PERNAMBUCANO, CIDADÃO DE OLINDA…..