Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Clave de sol

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As andorinhas - Secos e Molhados (João Ricardo/Cassiano Ricardo)

Dimas Lins

Em meio a uma chuva intensa, uma andorinha atravessa os mares agitados em busca de um pouso seguro, um púlpito para seu canto, uma clave de sol.

O seu corpo franzino, de apenas quatorze centímetros, está cansado. Sua plumagem - de cor canela-avermelhada na garganta e pigmentação fuliginosa no dorso e no peito - perdeu o aspecto vistoso. De seu bico curto, largo e chato grinfa em sustenido o desespero. A anatomia das asas pontiagudas e dos pés pequenos encontra agora dificuldade em vencer a tempestade. A jovem ave se perdeu da revoada em seu primeiro percurso de longo alcance e agora está só.

A noite é densa e o vôo, cego. De nuvens plúmbeas despejam-se descargas elétricas entremeadas por um clarão intenso de curta duração, ritmadas por ribombos de canhão. Nesta difícil jornada, o céu e o mar se fundem numa tormenta que atormenta. Embora não haja harmonia neste encontro de águas da chuva e do oceano, a combinação do ritmo da trovoada com a melodia do grinfar do pássaro encerra em si um sentido musical. Tudo soa como uma orquestra que se prepara para tocar os últimos acordes para um balé fatal no firmamento, onde a encenação da morte do cisne certamente se confundiria com uma real fatalidade, a morte da ave migratória.

no céu, a andorinha luta por si, mas a tempestade não tem . Na noite em que olhos argutos não conseguem enxergar, nem sentidos aguçados podem apontar a direção, a vida começa a escapar.

Vencido pelo temporal, o pássaro cambaleia na abóbada celeste e perde altitude, como se tropeçasse nos fios tensos de uma pauta imaginária, organizando involuntariamente a sua queda como notas musicais em escala decrescente.

Em si, recai o silêncio,
Em , sons de um lamento,
Em Sol, a solidão.
Em , fatalidade.
Em Mi, míngua a vontade,
Em , a rendição.
Em , a dor, o impacto, o mar: o fim é a escuridão.

3 Comentários

  1. luciana 19 de fevereiro de 2008, às 10:36h

    Dimas, fico verdadeiramente lisonjeada com suas palavras.
    Obrigada pela sua visita gratificante e pelas belas palavras de estímulo e entusiasmo.
    Espero continuar contando com sua visita e suas opiniões sempre bem-vindas.
    esse texto é maravilhoso. Parabéns!
    beijos

  2. Leonardo Jr. 25 de fevereiro de 2008, às 10:46h

    Dimas,

    Já és um Poeta. Agora, acompanhado de um violão, encontrarás rítimo, melodia e acordes que complementem sentimentos e momentos.

    Parabéns!

  3. josias de paula 25 de fevereiro de 2008, às 16:41h

    Esse texto está belíssimo. Inclusive pelo motivo que serve de título: uma ave perdida, sem repouso (que é o silêncio e o princípio da música), sem poder, enfim, executar sua música vital. Possui até um pauta, mas essa sem uma clave não é nada…
    Valeu!

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