Bocejo

Artur Perrusi
Olhava meus alunos. Muitos bocejavam. O bocejo é o assassino da auto-estima do professor. Gera uma série de associações incontroláveis, ao ponto de atrapalhar o raciocínio. Uma aluna, bem gatinha, para minha infelicidade, bocejava de forma esplêndida, um monumento à oscitação. Era uma série ininterrupta, cheia, plena. Tive vontade de sair correndo e procurar um psicoterapeuta - diante dele, choraria um pouco, é claro, pois ninguém é de ferro, e tentaria melhorar meu amor-próprio.
E se o psicólogo começasse a bocejar? Esse pensamento monstruoso fez-me voltar à realidade. Era inconcebível. Nunca procurarei um terapeuta, decidi.
Tentando entender o fenômeno, fiz um pequeno experimento científico: parava de falar e notava que o bocejo cessava imediatamente. Recomeçava, e tome bocejo! A conclusão foi implacável: os bocejos acontecem toda vez que tento aprofundar alguma discussão ou quando estou, como de costume, viajando na maionese. Meu sucesso depende da superficialidade. Quando falo abobrinhas, sou o rei. Ninguém boceja, todos escutam com atenção. Minhas pesquisas demonstraram que abobrinhas e bocejos são incompatíveis. Pena que não tenha, nos currículos universitários, uma disciplina sobre tolices, o que é um contra-senso, já que conheço muitos colegas que, dada a importância do tema, falam o tempo todo abobrinhas.
Pensava nisso, enquanto olhava um aluno gigantesco de gordo dando bocejos impossíveis. Para testar mais uma vez minha hipótese, falei sobre a teoria da alienação em Marx… Ele dormiu instantaneamente. Serei sincero: acho que sou um mutante. Tenho um poder, embora, aparentemente, um tanto inútil; do contrário, os x-men já teriam me procurado. Já sabia sobre essa minha capacidade, sempre soube. Já notara que Enaide, flor da mais fina pureza, nos seus momentos insones, pede sempre que eu fale de teoria - nanossegundos de Escola de Frankfurt, e “pumba!”, ela dorme profundamente.
Eu sou um remédio vivo e ambulante contra a insônia!
Ficaria rico, se fizesse desse poder um empreendimento capitalista. Imagino-me no Arruda com 50 mil insones, todos com um pequeno travesseiro, dados pela produção do evento. Começaria a falar sobre Derrida e o pós-estruturalismo… Instantaneamente, escutaria roncos e roncos, o estádio inteiro roncando. Outra idéia seria vender moléculas de meu sangue a uma indústria farmacêutica para fazer um coquetel contra a insônia. Ou, ainda, CD’s com minha voz gravada discorrendo sobre a teoria dos campos em Bourdieu. Rico, rico, dinheiro pra dedéu.
Como tenho vocação à miséria, fico aqui dando aulas bocejantes na UFPB. Mas o fato de saber que poderia ser milionário reconfortou minha alma, melhorando meu amor-próprio. É uma coisa que anima: olhar no espelho e saber que poderia ser um milionário. Posso ser um professor universitário, mas não importa: se quisesse seria riquíssimo. Isso não é auto-engano; é poder. O poder de ser miserável, sabendo que tenho o poder de ser rico. Calma, antes que me chamem de abestalhado, digo logo que São Francisco pensava (mais ou menos) dessa forma… É uma questão ética, por assim dizer.
E foi bom pensar sobre minha onipotência, melhorando minha auto-estima, porque meu próximo assunto, na aula, era a teoria weberiana sobre a origem do modo de vida burguês. E tome bocejo!
2 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Uááááááá…
Calma, Arthur, acho que você está exagerando. Certamente foi o (uáááááááá) calor paraibano que fez com que os alunos (uááááááá) bocejassem.
De qualquer forma, vou recomendar seus (uáááááá) textos mais sérios ao meu irmão. Há anos que (uáááááá) ele luta contra a insônia.
E se o Professor Xavier não te procurou ainda não foi por falta de (uáááááá) poder de tua parte. É que eles estão te procurando na Argentina, já que para muitos estadunidenses (uáááááááá), Brasil e Argentina é tudo a mesma coisa. Um dia eles chegam na Paraíba.
E um conforto: eu, por exemplo, quase nunca bocejo com seus textos! hehehe.
(Viu? Sou do tipo que perde o amigo, mas não a piada).
Muito bom “Artur” !!!!
Olhe que só não vale bocejar na hora do AMOR, poxa o cara com dor de cabeça, aflito por causa do Santinha e na horada “madeirada” ainda vem um (uááááááááá). é de “lascar o cano” … (rsrsrsrsrs)
E sinto que não tenho poder nenhum, sou pobre e me sinto pobre mesmo, será que minha vocação a miséria está agussada ????
Tô pensado agora em fazer TERAPIA, me ajuda “Perrusi” (uááááááááá)
Abraços meu amigo e um bjão Ana pra vc e que bom que vc está COLABORANDO lá no TORCEDOR CORAL, parabéns !!!!!
“Dimas” aquele abraço !!!!