Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 25 de fevereiro de 2008, às 17:46h

Happy hour

happy-hour.jpg

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Banguela (Zeca Baleiro)

 Dimas Lins

Amigos de longas datas, toda sexta-feira se encontravam no mesmo bar para beber a goles pequenos um pouco de conversa fiada. Entre um chope e outro, geralmente falavam de mulheres, futebol, trabalho, família e alguns segredos miúdos. Era daqueles compromissos sagrados, cuja falta só se justificaria por um caso fortuito, como o fim do mundo, por exemplo.

Naquele dia, como em tantos outros, os dois se encontraram no mesmo bar para mais uma happy hour. Desta vez, porém, a hora não parecia tão feliz quanto de costume. Gravata frouxa, chope na mesa, foi Alberto que, estranhando a inquietude do amigo, iniciou a conversa antes mesmo do ritual do brinde.

 - Que cara é essa, Tavinho?

Otávio manteve o silêncio e bebeu de uma tacada só metade do conteúdo amarelo-ouro da tulipa, dando sinais claros de que alguma coisa, de fato, estava fora de ordem.

- Que é que há, camarada? - Tentou Alberto novamente, dessa vez num tom mais companheiro.

- Há quanto tempo a gente é amigo, Beto?

- Há mais de trinta anos.

- Lembra quando a gente era criança e vivia aprontando pelas ruas do bairro e sempre se metia em enrascada?

- Claro que lembro! Tempos bons aqueles!

- Lembra que na maioria das vezes você fazia das suas e eu assumia a culpa, por que seu pai era sempre mais severo do que o meu?

- Você me livrou de cada surra, Tavinho!

- Lembra que fui eu quem te apresentou a tua primeira namorada?

- Ela foi a primeira paixão da minha vida. Mas eu também te apresentei a Fernandinha, que você era louco pra pegar.

- Pois é. E o futebol? Nunca perdemos um jogo, não é?

- Todo jogo estamos lá, firmes e fortes.

Otávio fez uma pausa, tomou mais um gole do chope e continuou.

- Nós sempre fomos amigos, não é?

- Sempre.

- Eu já estive em falta contigo alguma vez?

- Ô Tavinho, que conversa é essa?! É claro que não!

- Então por que você andou comendo a minha mulher?!

Alberto bebeu os últimos goles de cerveja que ainda restavam no fundo do copo e depois, com um ar mais sério, respirou fundo e respondeu, antes que as palavras se perdessem no percurso entre as cordas vocais e a ponta da língua.

- Porque você comeu a minha primeiro!

- Eu?!

- Você.

Foi então a vez de Otávio buscar os últimos goles de sua cerveja e também respirar fundo. Estava desconcertado demais para encarar o amigo, afinal, cantara de galo, embora também tivesse agido como um galinha. Diante das circunstâncias, restou-lhe apenas botar o rabo entre as pernas e, como recurso defensivo, pedir mais dois chopes.

A partir daí, percorreram a noite de ponta a ponta entre cautelas e sobressaltos. Mas aos poucos a tensão dava sinais de esmorecimento na mesma medida que o álcool se misturava à corrente sangüínea. Quando enfim selaram a paz, já não havia um único traço de sobriedade. Antes de pedir a conta, ainda terminaram a beberagem com um brinde que exaltava dois amigos que sabiam compartilhar tudo, inclusive suas mulheres.

Já do lado de fora do bar, entre passos cambaleantes e abraços, renovaram o compromisso de se encontrar na semana seguinte para mais um happy hour, ainda que no fundo soubessem que não se veriam mais. É que naquela noite acabara de ocorrer um daqueles casos fortuitos capazes de justificar a ausência nos encontros semanais: o último gole de uma amizade de trinta anos. Saúde!

5 comentários