Happy hour

Banguela (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Amigos de longas datas, toda sexta-feira se encontravam no mesmo bar para beber a goles pequenos um pouco de conversa fiada. Entre um chope e outro, geralmente falavam de mulheres, futebol, trabalho, família e alguns segredos miúdos. Era daqueles compromissos sagrados, cuja falta só se justificaria por um caso fortuito, como o fim do mundo, por exemplo.
Naquele dia, como em tantos outros, os dois se encontraram no mesmo bar para mais uma happy hour. Desta vez, porém, a hora não parecia tão feliz quanto de costume. Gravata frouxa, chope na mesa, foi Alberto que, estranhando a inquietude do amigo, iniciou a conversa antes mesmo do ritual do brinde.
- Que cara é essa, Tavinho?
Otávio manteve o silêncio e bebeu de uma tacada só metade do conteúdo amarelo-ouro da tulipa, dando sinais claros de que alguma coisa, de fato, estava fora de ordem.
- Que é que há, camarada? - Tentou Alberto novamente, dessa vez num tom mais companheiro.
- Há quanto tempo a gente é amigo, Beto?
- Há mais de trinta anos.
- Lembra quando a gente era criança e vivia aprontando pelas ruas do bairro e sempre se metia em enrascada?
- Claro que lembro! Tempos bons aqueles!
- Lembra que na maioria das vezes você fazia das suas e eu assumia a culpa, por que seu pai era sempre mais severo do que o meu?
- Você me livrou de cada surra, Tavinho!
- Lembra que fui eu quem te apresentou a tua primeira namorada?
- Ela foi a primeira paixão da minha vida. Mas eu também te apresentei a Fernandinha, que você era louco pra pegar.
- Pois é. E o futebol? Nunca perdemos um jogo, não é?
- Todo jogo estamos lá, firmes e fortes.
Otávio fez uma pausa, tomou mais um gole do chope e continuou.
- Nós sempre fomos amigos, não é?
- Sempre.
- Eu já estive em falta contigo alguma vez?
- Ô Tavinho, que conversa é essa?! É claro que não!
- Então por que você andou comendo a minha mulher?!
Alberto bebeu os últimos goles de cerveja que ainda restavam no fundo do copo e depois, com um ar mais sério, respirou fundo e respondeu, antes que as palavras se perdessem no percurso entre as cordas vocais e a ponta da língua.
- Porque você comeu a minha primeiro!
- Eu?!
- Você.
Foi então a vez de Otávio buscar os últimos goles de sua cerveja e também respirar fundo. Estava desconcertado demais para encarar o amigo, afinal, cantara de galo, embora também tivesse agido como um galinha. Diante das circunstâncias, restou-lhe apenas botar o rabo entre as pernas e, como recurso defensivo, pedir mais dois chopes.
A partir daí, percorreram a noite de ponta a ponta entre cautelas e sobressaltos. Mas aos poucos a tensão dava sinais de esmorecimento na mesma medida que o álcool se misturava à corrente sangüínea. Quando enfim selaram a paz, já não havia um único traço de sobriedade. Antes de pedir a conta, ainda terminaram a beberagem com um brinde que exaltava dois amigos que sabiam compartilhar tudo, inclusive suas mulheres.
Já do lado de fora do bar, entre passos cambaleantes e abraços, renovaram o compromisso de se encontrar na semana seguinte para mais um happy hour, ainda que no fundo soubessem que não se veriam mais. É que naquela noite acabara de ocorrer um daqueles casos fortuitos capazes de justificar a ausência nos encontros semanais: o último gole de uma amizade de trinta anos. Saúde!
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