Arquivo de 29 de março de 2008, às 0:00h
Maria das dores de amar
Pintura: Paula Rego

Das Dores de oratórios (João Bosco)
Dimas Lins
Seria um dia festivo. Era pra ser. Porém, o tempo e o modo do verbo indicam que não aconteceu assim. Pequenas rupturas urbanas por vezes carregam em si grandes tragédias pessoais. Sempre me comovo quando os filhos se vão antes dos pais; discípulos, antes dos mestres; jovens, antes dos velhos; e amantes, antes de viverem o amor em toda a sua plenitude.
O amor que vai e não volta torna o peito insuportável. E não há como reconfortar um coração amputado, pois o que sobra é o vazio, o que se sente é a dor e o que se vive é a solidão.
Foi na porta da igreja, num fim de tarde, que Maria das Dores soube da morte de Antônio no dia de seu casamento. Suas mãos tremeram, seu corpo gelou, sua tez morena empalideceu e suas pernas não se sustentaram em pé.
Antônio havia parado num bar, próximo a sua casa, para brindar com alguns amigos, antes de também seguir para a igreja. De repente, na mesa ao lado, um desentendimento, uma confusão, um conflito. O motivo, uma dívida de jogo. Antônio tentou apartar a briga, mas foi baleado na altura do peito e não resistiu. Os amigos ainda tentaram socorrê-lo, mas já era tarde.
A morte trágica e inesperada mudou o rumo natural das coisas. A expectativa da felicidade deu lugar ao sofrimento certo. No velório de Antônio, Das Dores chorou. Ainda vestida de noiva, varou a noite debruçada sobre seu corpo entre lágrimas e desespero. Por vezes, gritava tanto que podia ser ouvida em qualquer parte da cidade. Noutras, sussurrava no ouvido de Antônio: “Me leva!”.
Durante o sepultamento, o silêncio era quebrado pelas rajadas dos gritos loucos da mulher abandonada. Maria das dores, do amor bruscamente interrompido, da mágoa no coração, da profunda tristeza e também da solidão, sussurrava sempre para Antônio: “Me leva!”.
O tempo passou, mas a tristeza não deu lugar à resignação. Diariamente, ela era vista debruçada sobre o jazigo de Antônio até o entardecer.
Só depois de um ano as visitas ao cemitério cessaram. Das Dores nunca mais foi vista desde então. Tornou-se reclusa e sumiu do alcance dos olhos do povo do lugar.
Hoje, sua casa está abandonada e pouco se sabe do rumo que sua vida tomou. Há quem conte que ela nunca tirou o vestido branco que um dia se casaria. Alguns vizinhos dizem que ela mudou de cidade, para tentar recomeçar a vida em outras paragens. Outros falam que ela enlouqueceu e sumiu no mundo. Mas há rumores em toda parte que tratam de sua morte. A verdade é que não sabe o que aconteceu.
Quando passo em frente ao cemitério, difícil é não lembrar dos eventos daquele dia fatal. Ainda posso vê-la metida em seu vestido de noiva e ouvir o som penetrante da sua voz sussurrando ao vento: “Me leva!”. E vou para casa sem esquecer o sol daquela tarde.
5 comentáriosA peleja com o diabo - Final

A peleja do diabo com o dono do céu (Zé Ramalho)
Dimas Lins
II
- Se você é a morte, então cadê a foice?
- O que é isso, companheiro?! - Indignou-se ela ao ser confundida com um membro do partido comunista.
Diante das evidências desfavoráveis, ainda argumentei, tentando negar o óbvio. Sem muita convicção, buscava encontrar detalhes que, de alguma forma, negassem o fim da minha existência humana. Perguntei-lhe, por exemplo, como eu poderia estar morto, se ainda sentia dores no corpo.
Ela me explicou que demorava um tempinho para o espírito se desligar totalmente da matéria. E, à medida que eu ia aceitando os fatos, ela ia me dando mais detalhes. Contou-me que apenas trabalhava para a MORTE, uma empresa terceirizada e especializada na travessia de pessoas do mundo material para o mundo etéreo. Coisa fina, negócio profissional e lucrativo, já que morre gente o tempo todo. Disse que acabara de conseguir o emprego, através de um concurso público celestial, onde concorreu com mais de 20 mil candidatos por vaga. Acrescentou ainda que não tinha motivos para reclamar, já que recebia um bom salário, além de um excelente plano de saúde. Achei legal a MORTE se preocupar com a saúde de seus funcionários.
Já mais calmo, perguntei então para onde seria levado. Ela contou que eu iria para o umbral, uma zona obscura situada na crosta terrestre, onde as almas sofredoras eram atormentadas por espíritos obsessores.
Ainda tentei protestar. Questionei a presunção da infalibilidade divina e pus em dúvida um julgamento, cujo depoimento do réu sequer foi tomado. Sem ampla defesa, argumentei que a sentença era passível de nulidade. Descobri então que não havia como interpor recursos contra os desígnios de Deus. Como não havia meios de questionar a justiça divina, restava apenas me resignar.
Mas já que estava morto, queria saber as respostas para as grandes questões da humanidade. Afinal, durante toda a história do homem, buscamos a explicação para as grandes questões filosóficas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? E, principalmente, se há alguma esperança para o Santa Cruz. Fiz então a primeira pergunta, aquela que daria sentido a minha vida.
- O meu projeto vai fazer sucesso?
- Pensei que você, como todo mundo, perguntaria primeiro sobre Deus.
- Isso também, mas e o projeto?
Ela hesitou. Tem coisas que os olhos transmitem com mais precisão do que mil palavras. Percebi então que eu havia desperdiçado dez anos da minha vida, pois, com a minha morte, ninguém tomou conhecimento das minhas pesquisas. Não era justo! Aceitei passivamente o fim da minha existência, mas jamais aceitaria o meu fracasso! Sou antes de tudo um capitalista! Além do mais, o meu projeto era tudo o que me restava. Era o que ainda me fazia sentir humano. Definitivamente, não viveria - ou morreria, como queiram - em paz ao perceber que passei pela vida sem ter contribuído, de alguma forma, por menor que ela fosse, para o progresso da humanidade. Nasci e vivi como um joão ninguém, mas não estava preparado para morrer como tal. Não fui à vida a passeio, por isso, queria o meu lugar na história. Queria deixar o meu legado às futuras gerações, para que eu fosse eternizado na memória das novas civilizações. Assinaria o meu nome na história da humanidade ou, ao menos, num livro de registro de patentes. Faria isso, nem que eu tivesse que vender minha alma ao diabo.
Embora eu tivesse dito aquilo da boca pra fora, foi com grande surpresa que o vi surgir na minha frente: chifre na cabeça, tridente na mão e cheiro de enxofre.
- Menino, as notícias voam, hein? - disse, surpreso.
Se Deus sabia e via tudo, o diabo pelo menos tinha um serviço de inteligência de dar inveja aos americanos. Além de tudo, era um bicho bastante prestativo. Precisou, ele estava lá, pronto para oferecer seus serviços.
Mas algo me pareceu incoerente. Afinal, o umbral era um dogma espírita, enquanto o diabo era um dogma católico. Essa inconsistência me encheu de dúvidas. Consultei a emissária da MORTE e ela me explicou que cada religião vê as coisas do seu jeito. No fundo, cada uma delas sabia apenas um pedaço da verdade.
Mesmo assim, pedi identidade ao chifrudo. Era necessário me certificar que estava fazendo negócio com a pessoa certa. Não arriscaria minha alma por um engodo qualquer. Se na terra havia tantos ardis, o que dizer então do inferno? O medonho me olhou irritado e, na falta de um documento probante, fez um truquezinho barato pra provar quem era. Como sou brasileiro e sei que todo dia saem de casa um esperto e um otário que poderão se encontrar em qualquer esquina, não aceitei que uma magia ordinária se transformasse numa prova irrefutável.
O cão danado bufou de raiva. Mesmo assim, se submeteu às minhas exigências. O diabo me fez ver o que não tinha conseguido enxergar na queda do elevador. Vi diante dos meus olhos, toda a minha vida se passar, numa inacreditável fração de segundo. Considerei enfim que o diabo apresentara uma prova definitiva.
- Por que me invocaste? - perguntou o mafarrico.
A bem da verdade, eu não o havia invocado. Estava apenas fazendo conjecturas, quando o diabo apareceu. Por isso, astutamente, fingi desinteresse, para obter melhores condições no negócio.
Quando enfim comecei a contar a minha história, o diabo mostrou classe e educação e me ouviu atentamente, sem fazer interrupções. Pedi a minha vida de volta para fazer do meu projeto um sucesso. Ele assentiu. Em troca, entregaria a minha alma, quando tornasse a morrer. Como eu não era versado nas coisas do além, assinei o contrato sem questionar.
Depois do acordo sacramentado por um tabelião celestial juramentado, senti uma tontura e desmaiei. Quando acordei estava na minha cama, na mesma manhã do dia da minha morte. Ainda estava atrasado, por isso, me troquei apressadamente e saí novamente sem tomar o café da manhã. Na saída de casa, evitei o elevador e desci os quinzes andares pela escada. Mais tarde, quando terminei a apresentação do meu projeto à diretoria, fui aplaudido de pé.
Já se passaram quase vinte anos desde então. E, se vocês querem saber, o meu projeto foi um sucesso de proporções mundiais. Mas devo confessar que não pude aproveitar as glórias que eu tanto sonhei. É que, naquele mesmo dia, sofri um acidente no elevador da empresa, quando retornava para casa. No meu caminho tinha um elevador; tinha um elevador no meu caminho. Com a minha morte, o presidente da companhia patenteou o meu invento em seu nome e até hoje é reconhecido no mundo corporativo como um gênio dos negócios.
Sem glórias e morto pela segunda vez, só me restou cumprir a minha parte no acordo. Afinal, quem mandou fazer um pacto com o diabo? Hoje, minha vida é um inferno no inferno, mas não tenho do que me queixar. O lugar até que não é tão ruim quanto parece, embora o calor seja insuportável e a cerveja, quente. Difícil mesmo é agüentar toda aquela inhaca de enxofre.
A boa notícia é que em novembro sairei em condicional, por bom comportamento. Serei transferido para o umbral. Talvez um dia eu recupere a minha alma e possa finalmente entrar no céu. Até lá, vou ficando por aqui e vivendo como o diabo gosta.
Parte I
4 comentáriosA peleja com o diabo - Parte I

Canção agalopada (Zé Ramalho)
Dimas Lins
I
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Eu, por exemplo, já me senti assim. Aconteceu no verão de 2005, quando eu… morri. Isso mesmo, o dia da minha morte. Não tenha pressa, se acomode na cadeira que eu vou contar a história. Foi mais ou menos assim.
Naquela manhã, ao contrário do que eu pretendia, levantei tarde da cama. Estava atrasado para a reunião mais importante da minha vida profissional. Do resultado dela, dependeria o meu futuro. É que depois de quase dez anos de trabalho duro, finalmente eu iria apresentar para a diretoria de uma grande multinacional o projeto de uma vida. Tratava-se de um aparelho de barbear sem lâminas. O sistema revolucionário possuía um mecanismo a laser que mapeava o rosto do usuário e aparava perfeitamente todos os pêlos do queixo e da face. Se o meu projeto causasse o impacto desejado, certamente eu mudaria a história da indústria de barbear, além, é claro, de alavancar de forma irreversível a minha carreira. Eu estava pronto para sair do chão e alcançar rapidamente o topo da pirâmide profissional e social. Nele, eu encontraria dinheiro, poder e fama.
No adiantar das horas, troquei-me apressadamente e saí sem o habitual café da manhã. Abri a porta do apartamento e chamei o elevador, enquanto conferia se todo o material necessário estava em minhas mãos. Sem olhar para frente, puxei a porta da cabine, avancei dois passos e senti o chão vacilante. Na verdade, não havia vacilo algum. Aliás, não havia nem mesmo o chão. O elevador descumprira a sua parte no acordo de atender ao chamado dos usuários. Levei alguns segundos para cair do 15º andar até o chão. E, antes que alguém me pergunte, nessas ocasiões é impossível ver toda a sua vida passar diante de si, pois ela sempre é bem mais longa do que os míseros segundos que o levam até o chão. Por isso, o máximo que consegui foi pensar na plaqueta obrigatória na entrada de todos os elevadores da capital recifense. Mesmo assim, sequer cheguei ao fim da frase.
Aviso aos usuários, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste and…
Não sei dizer quanto tempo fiquei desacordado. Mas quando recobrei a consciência, percebi que me encontrava deitado e estava coberto até a cabeça por um lençol branco.
Abrir os olhos vagarosamente, por causa da claridade. Nunca havia visto a luz natural tão intensa como naquele instante. Olhos abertos, vi uma moça parada na minha frente. Sua aparência era de uns vinte e poucos anos. Seus cabelos eram curtos, bem pretos e espetados, e sua maquiagem era escura, principalmente, na altura dos olhos. Ela trajava camiseta, jaqueta, bermuda e sapato baixo. Também usava uma gargantilha que mais se assemelhava a uma coleira de cachorro. E tinha piercings, muitos piercings.
Quando eu tentei me mexer, senti o corpo todo dolorido. Além do mais, havia um odor acre saindo debaixo do lençol. Foi então que me lembrei da queda. Sim, a queda! Respirei aliviado, percebendo que havia dado sorte e escapado com vida. Dali a pouco, descobriria o quanto fui precipitado em meu julgamento.
A moça deu uma gargalhada, talvez zombando da minha desorientação. Perguntei irritado o motivo de sua risada e ela respondeu um “nada não”, embora não conseguisse disfarçar a zombaria. Alguns instantes depois, já recomposta e com um ar um pouco mais solene, me informou que estava na hora de ir. Perguntei para onde e recebi um “para o outro lado” como resposta.
- Que outro lado? - perguntei, ainda desorientado.
Ela riu novamente, o que fez aumentar ainda mais a minha irritação. Impaciente, procurei aquele dispositivo que aciona o chamado para a enfermaria, mas não havia nenhum. Tentei então levantar da cama para buscar ajuda.
Foi aí que aconteceu uma coisa muito estranha. Com o impulso que dei para pôr-me em pé, meu corpo flutuou descontroladamente pelo quarto. Assustado, olhei em volta e percebi outros corpos cobertos da mesma maneira que o meu. Foi só neste ponto que compreendi que eu estava no necrotério de algum hospital.
A ficha finalmente caiu! Tomei um choque! Senti o coração acelerar e, ato contínuo, levei as mãos ao peito, mas não havia nada batendo lá! Nenhum tum-tum-tum! Tomei meu pulso e ele não pulsava. Comecei a me apavorar. Tentei correr, mas, no ar, não tinha controle sobre os meus movimentos. Meu único recurso foi tentar, atabalhoadamente, nadar cachorrinho, para me afastar da garota que, a esta altura, já me dava medo.
Concluí que estava eu agora diante da morte. Senhora e senhores, eu vi a morte de perto e ela estava viva!
Continua
2 comentáriosPaixão de Cristo
Pintura: Vicent Van Gogh

Dimas Lins (Publicado originalmente em 18/11/2007)
Em decorrência da Semana Santa e também pela falta de tempo nos últimos dias, optei por republicar um texto para não deixar passar a Páscoa em branco.
No início da próxima semana, retornaremos com textos inéditos.
Um abraço,
Dimas
Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.
Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.
Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.
Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.
Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.
Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação “Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!” e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.
Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.
Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.
Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.
Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.
A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de “viva!”, “aleluia!” ou “glória a Deus!” vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima “safado!” e “morte ao traidor!”.
A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a via crucis do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.
Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.
1 comentárioQuero voltar para a Matrix!

Nostradamus (Eduardo Dusek)
Dimas Lins
Adaptado do texto original de mesmo nome publicado no Torcedor Coral
Imagine o cenário. O nível de violência na cidade é extramente baixo e a população, mesmo a menos abastada, leva uma vida digna. Você tem um bom emprego e uma confortável situação financeira. Tem também o melhor carro que o seu dinheiro pode comprar e sua namorada é a gatinha mais sexy do pedaço.
Você também não é de se jogar fora. Ao contrário, seu corpo é perfeito e você nem precisa fazer esforço para mantê-lo assim. Você despreza os exercícios físicos, mas sempre continua em forma. E mesmo que tome um barril de chope por dia sua barriga permanecerá inalterada. Você também não lembra da última vez que ficou doente. Aliás, se puxar bem pela memória, você descobrirá que nunca adoeceu.
Você também é um violinista talentoso. Atualmente, pensa em aceitar o convite para se dedicar apenas à música, sua grande paixão. Tornar-se-á spalla de uma renomada orquestra sinfônica e viajará o mundo inteiro se apresentando nos melhores palcos.
Mas, em meio a uma vida maravilhosa, você percebe que tem alguém seguindo seus passos. Passam-se dias até que finalmente um desconhecido chegue a você. Ele lhe diz que o mundo real é muito diferente daquele que você conhece. Diz que você vive numa ilusão. Que a sua felicidade é produzida artificialmente.
O estranho então lhe dá a possibilidade de escolher entre continuar vivendo na ilusão ou descobrir realmente em que mundo você vive. Você pensa, mas aparentemente não é o bastante, pois acaba caindo na besteira de tomar a pílula vermelha, aquela que lhe fará acordar e perceber o verdadeiro mundo a sua volta.
Você acorda e descobre que está numa espécie de incubadora e seu sangue serve de alimento para uma escrotice chamada Matrix. Você está entrevado, sua cabeça está raspada e você acaba sendo jogado fora como um produto de baixa qualidade, um refugo. Depois você é finalmente resgatado por aquele sujeito que lhe ofereceu a possibilidade de lhe mostrar a verdade. E você a vê.
Ao contrário do mundo virtual, você está desempregado, não tem carro, é barrigudo e sua namorada só não é mais feia do que você. Aliás, você é dentuço. Tão dentuço que se jogasse futebol estaria sempre em impedimento. Você também nunca foi músico e é incapaz de levar um sambinha numa caixa de fósforos, quem dirá tocar violino com elegância. Para completar, a violência na cidade nunca esteve num nível tão alto e maioria da população é tão miserável quanto você.
Você não gosta do que vê e então pergunta ao infeliz que lhe deu a pílula vermelha, afinal, o que diabos aconteceu com o mundo real.
Ele explica que a vida se deteriorou por toda parte. No Brasil, a corrupção política se associou ao narcotráfico e o país degringolou de vez. A economia americana entrou em colapso e criou um caos financeiro em todo o mundo. Na Oceania, uma onda gigante devastou toda a região. E quando, enfim, do confronto entre árabes e judeus estava para ser dar início à terceira guerra mundial, máquinas inteligentes assumiram o controle do planeta e escravizaram a raça humana.
Você então olha o sujeito da pílula atravessado. Afinal, da noite para o dia você perdeu tudo e está na miséria. Você toma o potinho cheio de pílulas das mãos dele e, à força, faz o sujeito engolir uma a uma até ele ter caganeira. Porém, isso não é o suficiente para aplacar sua raiva. Irritado, você chama o sujeito de filho da puta até cansar, mas você não cansa.
Desesperado, você sai pelas ruas da cidade procurando alguém que possa lhe ajudar e quando o encontra, grita em sua direção:
- Agente Smith, quero voltar para a Matrix!
5 comentáriosTerapia chinesa

Artur Perrusi
Texto Publicado originalmente no Blog dos Perrusi
Pensando no Chifre Metafísico e na Cultura Ocidental, assumo logo: já levei um chifre pelas costas e descobri que sou um sujeito invertido. Calma, calma, pessoal, eu me explico, a estória eu conto como a estória foi:
Houve uma época que desisti da medicina convencional. Culpa dos afetos, pois, praticamente, todos os amigos caíram hipnotizados pela medicina alternativa. Quando o último dos médicos disse-me que o problema das minhas amídalas era de natureza emocional, decidi primeiro me matar, depois, pensando melhor, procurar uma terapia chinesa, achando que, se não era igual, dava no mesmo - talvez, um pouco mais lenta.
Fui crente pensando que iria encontrar um chinês. Que nada! Era uma piauiense com um nome belo feito o balido de uma ovelha: Erygeanny Fidelis Villar. Fizera o curso de turismo, à noite, na UFPB e tivera uma catarse, quando visitou, num sonho, a Grande Muralha da China. No sonho, encontrara Confúcio comendo um MacJúnior, sentado no pivô oeste da Muralha. Era um chamamento, compreendera. Acatou a missão. E estudou terapia chinesa. E virou o que virou.
Escutei com parcimônia a estória. De fato, queria me matar. Estava no caminho certo.
Erygeanny contou ainda que aprendera tudo com um guru chinês de 120 anos de idade. Senti a morte aproximando-se a galope.
- Todos os meus remédios são chineses! - disse galunfante.
- Ah, que bom…
- Sabe essa medicação aqui? Tem 4 mil anos!
- Mas… Já não está vencida, não? - disse, sem querer.
Não queria dizer aquilo. Não era politicamente correto. Devemos respeitar todas as crenças, como dizem minhas amigas antropólogas. Acho que ficou meio magoada, um tanto taciturna. Apontou-me uma maca preta com desenhos de dragão. Deitei-me. Sem aviso, espalhou um bocado de pedras sobre meu corpo. Estavam quentes. Muito quentes. Gemi um ai. Erygeanny relinchou qualquer coisa e, por incrível que pareça, a quentura desapareceu. Olhei as pedras. Eram diferentes: quartzo rosa, esmeralda vermelha, pirita azul, todas bonitas. Quase perguntei se não eram bolas de gude, mas fiquei quieto. Pensei nas minhas amigas antropólogas, e fiquei quieto. Olhou-me fundo nos olhos e disse que minhas pernas eram tortas.
- Mas minhas pernas sempre foram tortas! - disse.
- Não eram tortas quando você entrou…
- Mas…
E começou a bater as pedras nos meus joelhos, recitando o mantra de Adriano, o eritematoso: AUN! Fiquei petrificado de medo. Meus joelhos estavam doendo. Será que ela vai bater essas pedras na minha cabeça? - pensei. Minha cabeça não é torta… Não, aí não, aí me arreto e acabo com essa palhaçada.
Ela parou, enfim, de bater e disse:
- Não estão mais tortas!
- Como?! Estão tortas como sempre foram!
Ela ficou calada. A mesma cara amuada, de mágoa chinesa.
Ela me mandou sentar e começou a esfregar um chifre de boi nas minhas pernas. Causava uma cócega louca. Esfregou com mais força, muita força, a maior força do mundo. E me disse, quase sussurrando:
- O chifre, que não é de boi, faz o ácido lático subir e virar bolhas na pele…
- Qual é a relação entre ácido lático e minhas pernas tortas? Ai, tá queimando! - gritei.
- Olha aí as bolhas…
Claro, minha pele está queimada… pensei. Quero morrer, agora, concluí. Foi então que Erygeanny pegou umas agulhas e começou a furar as bolhas.
- Olha aí, seu medroso, o ácido lático saindo…
- Heh… mas isso não é ácido lático… É verde!
- Deixa de ser mole. Ácido lático mais tensão emocional fica verde!
- O quê?!
Não me escutou mais. Ficou furando as bolhas. Minhas pernas estavam completamente verdes. Comecei a enjoar. Foi aí que ela parou e disse:
- Teu pescoço está muito tenso!
Pegou um chifre menor, de bode, e começou a passá-lo no meu pescoço.
- Esse chifre, que não é de bode, vai tirar tua aura - tá tensa demais…
- Minha aura?
O que sou sem minha aura, pensei. Vou precisar ler muito Benjamim para recuperá-la. Sem aura, achei que encarnaria o demônio a qualquer momento. E encarnei mesmo, pois ela usou, logo em seguida, uma caneta que dava choques. No começo, nada ocorria. De repente, senti que o meu olho esquerdo mudava de lugar a cada aplicação e o meu braço pulava, que nem reflexo de martelinho no joelho. Foi com esse esfregado de chifre e choque no cangote que veio o demo. Comecei a ficar frio e mole. Tive que interromper e deitar na maca para não apagar. Melhorei, levantei, ela veio de novo com a canetinha e o demo voltava. Ficava frio, o lábio ficava branco e eu tinha que deitar.
- Eita aura tensa danada! - disse Erygeanny em chinês.
- O que está acontecendo? - gemi.
- Você está com os fluxos dos meridianos invertidos. O que deveria subir está descendo e o que tinha que descer está subindo. Com a saída da aura, pude notar isso.
Ela me deu uma tapa na cara, outra e mais outra, e o torpor se foi. Deu um largo sorriso e me deu um pó branco.
- Pó de pérolas - disse.
- Parece outra coisa…
- Tome durante uma semana para manter a reversão dos meridianos e reaver sua aura.
Era um tubinho de vidro, com um pozinho branco e uma colher quase microscópica, toda trabalhada. O desenho parecia um dragão. Pensei, imediatamente, na PM. Se me pega sem aura e com um pó branco, tô lascado. Até que explicasse que aquilo era um remédio chinês de mais de mil anos, já teria tomado umas boas lapadas no lombo. Pelo menos, confessaria quem era o fornecedor. Não agüento tortura. Delato, logo.
Pois é…
Chifrado e invertido, é a vida.
Tentei cheirar o pó branco, mas só deu dor de cabeça. Findei jogando tudo fora. Sou aditivo. Se não der barato, jogo no lixo. Depois de tanto tempo, acho que recuperei minha aura. Continua tensa, imagino, e minhas pernas, tortas, com certeza. Atualmente, sou um fanático da alopatia. Soube que ampicilina sódica com manga dá barato. Podem crer.
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