Câmara de privação dos sentidos
- on 1 de março de 2008, às 11:19h
- Divina comédia humana

Sossego (Tim Maia)
Dimas Lins
Adaptação da crônica de mesmo nome publicada originalmente no Torcedor Coral
Há dias em que tudo dá errado e só causam aborrecimentos. Quando um dia assim nos atravessa o caminho, nada é mais acolhedor do que a nossa própria casa. Nenhum outro lugar é capaz de nos aquietar em meio à tamanha turbulência emocional. E se o sujeito já estiver na rua, melhor dar meia volta e ficar à deriva, esperando passar a tempestade. Nada que o raiar de um novo dia não resolva.
É bem verdade que, por vezes, essa maré de azar pode se perdurar por mais tempo. Neste estado de espírito, o melhor é isolar-se, não deixar ninguém chegar perto, porque a agressividade irradiada por algum evento negativo pode fazer com que o vivente cometa os atos mais impensáveis. E, se alguém, que não entende as conseqüências deste momento crucial, insistir em se aproximar e puxar assunto, é melhor respirar fundo, contar até três e citar Chico Buarque, antes que o pior aconteça.
Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa.
E qualquer desatenção, faça não!
Pode ser a gota d’água.
Num dia catastrófico, você naturalmente só atrai coisas ruins. Sendo assim, por certo se envolverá em confusões que, em condições normais de temperatura e pressão, jamais aconteceriam. Por exemplo, provavelmente você se meterá numa briga em uma mesa de bar, por causa de um guardanapo ou esfaqueará o garçom 66 vezes, com uma serra de pão, porque a conta apresentou-se com uma cerveja a mais.
Em nosso santuário, podemos ser nós mesmos. Quem lhe conhece na intimidade sabe que a única coisa a fazer é deixá-lo no isolamento e você será o único a ter de suportar-se. Afinal, como ser cordial nestas circunstâncias? Nada contra a cordialidade, mas é praticamente impossível manter a linha quando você está de mal com o mundo e, pelo bem do equilíbrio social, ainda é obrigado a expressar-se com amabilidade. Definitivamente, não! Nada o animará num dia ruim. Então, melhor mesmo é esquecer o mundo. Tanto faz se um furacão devastou a costa americana, se a extrema direita tomou o poder na França ou se Tony Blair deixou de ser o todo-poderoso Primeiro-Ministro da Inglaterra, após 10 anos de mandato. Uma vez fechado hermeticamente em sua câmara de privação dos sentidos, não haverá ninguém capaz de penetrar em seu mundo indevassável. Ou quase ninguém.
Trim… trim… trim…
- Alô?
- É o Sr. Paulo?
- Depende…
- Eu sou do Unibanco, como vai o senhor?
- Eu não vou bem, obrigado.
- O motivo da minha ligação é que o banco está com um produto especial para um número limitado de clientes e o senhor, pelo seu bom relacionamento no mercado, está sendo convidado a abrir uma conta-corrente conosco sem pagar nenhuma taxa de manutenção pelo resto da sua vida.
- Ou a do banco…
- Como?
- Ou a vida do banco. Afinal, ele pode fechar as portas antes mesmo de eu morrer. De qualquer forma, eu não estou interessado e…
- Nosso banco não vai fechar as portas, senhor. Afinal, ele é uma das maiores instituições privadas deste país. Além do mais, o senhor não quer deixar de pagar taxa de manutenção pelo resto de sua vida?
- Minha jovem, o que eu quero mesmo é desligar o telefone. Se você me der licença, eu…
- O senhor ainda terá outras vantagens ao abrir uma conta em nosso banco. Por exemplo, poderá sacar no Banco 24 Horas tantas vezes por dia quanto desejar, sem cobrança de tarifa. Não é uma grande vantagem?
- Minha filha, eu mal tenho dinheiro para sacar uma vez por semana, quanto mais diversas vezes por dia. Além do mais, se isso acontecer, pode ter certeza que é seqüestro relâmpago.
- Senhor, olha, eu…
- Se a senhora já terminou, então passar bem!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?!
- Sr. Paulo?
- Puta que pariu! O que é?!
- S… senhor, eu sou consultora do cartão American Express e nós estamos lhe oferecendo, em função do bom relacionamento que o senhor tem com o mercado, um cart…
- Lá vem esse negócio de mercado de novo! E consultora uma ova! Você é atendente ou vendedora, minha filha! Isso é o que você é! E vá vender suas enciclopédias em outra freguesia!
- Mas não é enciclopédia, senhor. É cartão de créd…
- Vá ver se eu estou na esquina!
Praft!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?
- Aqui é do Jornal do Commércio, eu gostaria de falar com o Sr. Paulo.
- Olha, o Sr. Paulo foi embora para Brasília e mandou avisar que não volta nunca mais! Que é pra vocês tirarem o nome dele do cadastro.
- Por gentileza, com quem eu estou falando?
- Eu não sou ninguém e estou aqui por acaso, mas também já estou de partida. Estou indo ali na esquina tentar o suicídio e…


Pôxa vida Dimas, eu adorei este texto. É assim mesmo, morri de rir. E sem querer você me deu uma idéia genial de escrever uma comédia hilária sobre o tema. Eu vivo cheia, é o dia inteiro essa lenga-lenga. eu xingo, desligo o telefone. Mas não adianta. é uma verdadeira praga que assola o país, ou melhor o mundo. Adorei mesmo. Um abraço.
Ótimo ‘Dimas’ (rsrsrsrsrs), esse texto tem tudo haver com um pouco da vida de cada um de nós … Olha, mandei um TEXTO sobre a ‘DIVINA COMÉDIA CORAL’ ,pede pro ‘Anízio’ te encaminhar, é bem legal, vc sabe que não sou escritor nem tão pouco entendo de futebol … Porém entendo um pouco de SOFRIMENTO e isso às vezes acaba despertando em mim a vontade de expor minhas opiniões !!!!
Um grande abraço pra vc !!!!
Muito bom, Dimas!
Quinta-feira passada foi um dia assim, como o que você narra. Cheguei ao trabalho depois do almoço e atendi o telefone de uma dessas “vendedoras de cartão”. Com minha paciência zero, desliguei o telefone antes que ela completasse o texto introdutório. Ela ligou novamente “Desculpe, mas acho que a ligação caiu…”, “Não, querida, a ligação não caiu. Eu é que bati o telefone na sua cara por absoluto desinteresse do que você tenha a me dizer. E agora, de novo”. Deu jeito, a mulher não ligou mais.
Um primeiro telefonema desses você tem mesmo vontade de matar. Mas no terceiro, só pensa em suicídio.
Dimas, boa sacada, excelente tema, excelente texto. Parabéns!
Excelente crônica. Faltou incluir as instituições de caridade, que são capazes de tranformar a pessoa mais caridosa em um monstro sem coração.
Se você contribui com uma, passa a receber telefonemas quase diários de trocentas instituições. Do Asilo para Dirigentes de clubes Esclerosados ao Lar para as Crianças Tricolores Traumatizadas, todos querem um pedacinho do seu salário. A conversa mole, o tom meloso, empostado e, uma boa parte das vezes, falso,são capazes de fazer qualquer um virar o protagonista de “um dia de fúria”.
Quando estou num dia desses, simplesmente desligo o celular, tiro o convencional da tomada e, para evitar contatos pessoais - alguém pode vir investigar se estou em casa- entro em meu quarto, ligo o ar condicionado e fico ouvindo música com fones de ouvido.
Seria necessário arrombar a casa para me incomodar.
Se há outras pessoas em casa, a ordem é só falar comigo se eu sair do quarto voluntariamente. Caso contrário……
Para resolver esse problema, tive que me render a adquirir o serviço de identificação de chamadas (BINA). Depois disso, nunca mais precisei atender ligações de bancos, cartões de créditos, instituições de caridade ou seja lá quem for que queira tirar o meu juízo.
Mesmo assim, é impressionante saber a quantidade de ligações comerciais que eu recebo diariamente.
Um abraço,
Dimas
Meu lar, meu reino!
E adotei uma resolução em casa: Não atendo telefonemas entre 17 e 19 horas. É tele-marketing na certa! Ou então, é a avó da minha esposa… = )