Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 13 de março de 2008, às 0:00h

Terapia chinesa

dragao-chines.jpg

 Artur Perrusi

Texto Publicado originalmente no Blog dos Perrusi

Pensando no Chifre Metafísico e na Cultura Ocidental, assumo logo: já levei um chifre pelas costas e descobri que sou um sujeito invertido. Calma, calma, pessoal, eu me explico, a estória eu conto como a estória foi:

Houve uma época que desisti da medicina convencional. Culpa dos afetos, pois, praticamente, todos os amigos caíram hipnotizados pela medicina alternativa. Quando o último dos médicos disse-me que o problema das minhas amídalas era de natureza emocional, decidi primeiro me matar, depois, pensando melhor, procurar uma terapia chinesa, achando que, se não era igual, dava no mesmo - talvez, um pouco mais lenta.

Fui crente pensando que iria encontrar um chinês. Que nada! Era uma piauiense com um nome belo feito o balido de uma ovelha: Erygeanny Fidelis Villar. Fizera o curso de turismo, à noite, na UFPB e tivera uma catarse, quando visitou, num sonho, a Grande Muralha da China. No sonho, encontrara Confúcio comendo um MacJúnior, sentado no pivô oeste da Muralha. Era um chamamento, compreendera. Acatou a missão. E estudou terapia chinesa. E virou o que virou.

Escutei com parcimônia a estória. De fato, queria me matar. Estava no caminho certo.

Erygeanny contou ainda que aprendera tudo com um guru chinês de 120 anos de idade. Senti a morte aproximando-se a galope.

- Todos os meus remédios são chineses! - disse galunfante.

- Ah, que bom…

- Sabe essa medicação aqui? Tem 4 mil anos!

- Mas… Já não está vencida, não? - disse, sem querer.

Não queria dizer aquilo. Não era politicamente correto. Devemos respeitar todas as crenças, como dizem minhas amigas antropólogas. Acho que ficou meio magoada, um tanto taciturna. Apontou-me uma maca preta com desenhos de dragão. Deitei-me. Sem aviso, espalhou um bocado de pedras sobre meu corpo. Estavam quentes. Muito quentes. Gemi um ai. Erygeanny relinchou qualquer coisa e, por incrível que pareça, a quentura desapareceu. Olhei as pedras. Eram diferentes: quartzo rosa, esmeralda vermelha, pirita azul, todas bonitas. Quase perguntei se não eram bolas de gude, mas fiquei quieto. Pensei nas minhas amigas antropólogas, e fiquei quieto. Olhou-me fundo nos olhos e disse que minhas pernas eram tortas.

- Mas minhas pernas sempre foram tortas! - disse.

- Não eram tortas quando você entrou…

- Mas…

E começou a bater as pedras nos meus joelhos, recitando o mantra de Adriano, o eritematoso: AUN! Fiquei petrificado de medo. Meus joelhos estavam doendo. Será que ela vai bater essas pedras na minha cabeça? - pensei. Minha cabeça não é torta… Não, aí não, aí me arreto e acabo com essa palhaçada.

Ela parou, enfim, de bater e disse:

- Não estão mais tortas!

- Como?! Estão tortas como sempre foram!

Ela ficou calada. A mesma cara amuada, de mágoa chinesa.

Ela me mandou sentar e começou a esfregar um chifre de boi nas minhas pernas. Causava uma cócega louca. Esfregou com mais força, muita força, a maior força do mundo. E me disse, quase sussurrando:

- O chifre, que não é de boi, faz o ácido lático subir e virar bolhas na pele…

- Qual é a relação entre ácido lático e minhas pernas tortas? Ai, tá queimando! - gritei.
- Olha aí as bolhas…

Claro, minha pele está queimada… pensei. Quero morrer, agora, concluí. Foi então que Erygeanny pegou umas agulhas e começou a furar as bolhas.

- Olha aí, seu medroso, o ácido lático saindo…

- Heh… mas isso não é ácido lático… É verde!

- Deixa de ser mole. Ácido lático mais tensão emocional fica verde!

- O quê?!

Não me escutou mais. Ficou furando as bolhas. Minhas pernas estavam completamente verdes. Comecei a enjoar. Foi aí que ela parou e disse:

- Teu pescoço está muito tenso!

Pegou um chifre menor, de bode, e começou a passá-lo no meu pescoço.

- Esse chifre, que não é de bode, vai tirar tua aura - tá tensa demais…

- Minha aura?

O que sou sem minha aura, pensei. Vou precisar ler muito Benjamim para recuperá-la. Sem aura, achei que encarnaria o demônio a qualquer momento. E encarnei mesmo, pois ela usou, logo em seguida, uma caneta que dava choques. No começo, nada ocorria. De repente, senti que o meu olho esquerdo mudava de lugar a cada aplicação e o meu braço pulava, que nem reflexo de martelinho no joelho. Foi com esse esfregado de chifre e choque no cangote que veio o demo. Comecei a ficar frio e mole. Tive que interromper e deitar na maca para não apagar. Melhorei, levantei, ela veio de novo com a canetinha e o demo voltava. Ficava frio, o lábio ficava branco e eu tinha que deitar.

- Eita aura tensa danada! - disse Erygeanny em chinês.

- O que está acontecendo? - gemi.

- Você está com os fluxos dos meridianos invertidos. O que deveria subir está descendo e o que tinha que descer está subindo. Com a saída da aura, pude notar isso.

Ela me deu uma tapa na cara, outra e mais outra, e o torpor se foi. Deu um largo sorriso e me deu um pó branco.

- Pó de pérolas - disse.

- Parece outra coisa…

- Tome durante uma semana para manter a reversão dos meridianos e reaver sua aura.

Era um tubinho de vidro, com um pozinho branco e uma colher quase microscópica, toda trabalhada. O desenho parecia um dragão. Pensei, imediatamente, na PM. Se me pega sem aura e com um pó branco, tô lascado. Até que explicasse que aquilo era um remédio chinês de mais de mil anos, já teria tomado umas boas lapadas no lombo. Pelo menos, confessaria quem era o fornecedor. Não agüento tortura. Delato, logo.

Pois é…

Chifrado e invertido, é a vida.

Tentei cheirar o pó branco, mas só deu dor de cabeça. Findei jogando tudo fora. Sou aditivo. Se não der barato, jogo no lixo. Depois de tanto tempo, acho que recuperei minha aura. Continua tensa, imagino, e minhas pernas, tortas, com certeza. Atualmente, sou um fanático da alopatia. Soube que ampicilina sódica com manga dá barato. Podem crer.

3 comentários