Quero voltar para a Matrix!

Nostradamus (Eduardo Dusek)
Dimas Lins
Adaptado do texto original de mesmo nome publicado no Torcedor Coral
Imagine o cenário. O nível de violência na cidade é extramente baixo e a população, mesmo a menos abastada, leva uma vida digna. Você tem um bom emprego e uma confortável situação financeira. Tem também o melhor carro que o seu dinheiro pode comprar e sua namorada é a gatinha mais sexy do pedaço.
Você também não é de se jogar fora. Ao contrário, seu corpo é perfeito e você nem precisa fazer esforço para mantê-lo assim. Você despreza os exercícios físicos, mas sempre continua em forma. E mesmo que tome um barril de chope por dia sua barriga permanecerá inalterada. Você também não lembra da última vez que ficou doente. Aliás, se puxar bem pela memória, você descobrirá que nunca adoeceu.
Você também é um violinista talentoso. Atualmente, pensa em aceitar o convite para se dedicar apenas à música, sua grande paixão. Tornar-se-á spalla de uma renomada orquestra sinfônica e viajará o mundo inteiro se apresentando nos melhores palcos.
Mas, em meio a uma vida maravilhosa, você percebe que tem alguém seguindo seus passos. Passam-se dias até que finalmente um desconhecido chegue a você. Ele lhe diz que o mundo real é muito diferente daquele que você conhece. Diz que você vive numa ilusão. Que a sua felicidade é produzida artificialmente.
O estranho então lhe dá a possibilidade de escolher entre continuar vivendo na ilusão ou descobrir realmente em que mundo você vive. Você pensa, mas aparentemente não é o bastante, pois acaba caindo na besteira de tomar a pílula vermelha, aquela que lhe fará acordar e perceber o verdadeiro mundo a sua volta.
Você acorda e descobre que está numa espécie de incubadora e seu sangue serve de alimento para uma escrotice chamada Matrix. Você está entrevado, sua cabeça está raspada e você acaba sendo jogado fora como um produto de baixa qualidade, um refugo. Depois você é finalmente resgatado por aquele sujeito que lhe ofereceu a possibilidade de lhe mostrar a verdade. E você a vê.
Ao contrário do mundo virtual, você está desempregado, não tem carro, é barrigudo e sua namorada só não é mais feia do que você. Aliás, você é dentuço. Tão dentuço que se jogasse futebol estaria sempre em impedimento. Você também nunca foi músico e é incapaz de levar um sambinha numa caixa de fósforos, quem dirá tocar violino com elegância. Para completar, a violência na cidade nunca esteve num nível tão alto e maioria da população é tão miserável quanto você.
Você não gosta do que vê e então pergunta ao infeliz que lhe deu a pílula vermelha, afinal, o que diabos aconteceu com o mundo real.
Ele explica que a vida se deteriorou por toda parte. No Brasil, a corrupção política se associou ao narcotráfico e o país degringolou de vez. A economia americana entrou em colapso e criou um caos financeiro em todo o mundo. Na Oceania, uma onda gigante devastou toda a região. E quando, enfim, do confronto entre árabes e judeus estava para ser dar início à terceira guerra mundial, máquinas inteligentes assumiram o controle do planeta e escravizaram a raça humana.
Você então olha o sujeito da pílula atravessado. Afinal, da noite para o dia você perdeu tudo e está na miséria. Você toma o potinho cheio de pílulas das mãos dele e, à força, faz o sujeito engolir uma a uma até ele ter caganeira. Porém, isso não é o suficiente para aplacar sua raiva. Irritado, você chama o sujeito de filho da puta até cansar, mas você não cansa.
Desesperado, você sai pelas ruas da cidade procurando alguém que possa lhe ajudar e quando o encontra, grita em sua direção:
- Agente Smith, quero voltar para a Matrix!
5 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Dimas,
Apesar do cenário sombrio e não tão improvável assim - a associação de uma fatia endinheirada da nossa sociedade com o narcotráfico já foi desmascarada, o FED anuncia recessão pelas bandas do norte e tsunami sempre pode acontecer de novo - a primeira reação após ler o texto é o riso. A vida do cara é tragicômica.
“Aliás, você é dentuço. Tão dentuço que se jogasse futebol estaria sempre em impedimento.” (eh!eh!eh!eh!).
Faltou acrescentar que, para azar dele e nosso, jogaria no Santa Cruz. Que fase, meu Deus, que fase!
Quanto ao homem das pílulas, eu seria mais radical. Ele as engoliria todinhas pela saída de serviço.
(rsrsrsrsr0
Dimas, e olhe que na ‘guerra’ tem gente ainda procurando “Rambo”, que agora tá barrigudo, com os olhos caídos de tanto ‘apanhar’ em “Rock, o lutador” …
O que podemos pensar do mundo virtual e o real. Entre a possibilidade de ‘fugir’ da realidade e não viver a ‘vida verdadeira’ ??? O ‘Caçador de Pipas’ conseguia pensar tão bem e com tanta doçura, mas ainda assim morava em um territoria de guerra e abandono … Lá em Vitória de Santo Antão no jogo do Santinha com o ‘vera’ a maioria no ‘Carneirão’ eram humildes,desses barrigudos aí que vc falou, e conseguíamos ver alegria em seus olhos assistindo ao decadente clube das multidões! O importante em nossa vida desgraçada é sempre poder olhar as coisas ao nosso redor com bons olhos, é saber que o amanhã poderá ser melhor, é saber que o sol nasce para todos, mesmo que ele ilumine a terra, mais não ilumine o coração das pessoas para que as mesmas lutem pelo seu progresso!
abraços meu amigo !!!!
… O cara dentuço não pode jogar bola, além de sempre se encontrar em empedimento, corre o risco de ‘furar a bola’ !!!!
Adorei a parte do dentuço!
Humor renovado, sinal de férias… Bom tê-lo de volta, Dimas! Seja bem-vindo!
O jogo do filme Matrix é que a recusa em ver a realidade não precisa de algo exterior ao mundo, ou seja, não precisamos de uma Matrix para não querer enxergar o real. E sem querer enxergá-lo, fugindo da dor, mais e mais permanecemos nela.