A peleja com o diabo - Parte I

Canção agalopada (Zé Ramalho)
Dimas Lins
I
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Eu, por exemplo, já me senti assim. Aconteceu no verão de 2005, quando eu… morri. Isso mesmo, o dia da minha morte. Não tenha pressa, se acomode na cadeira que eu vou contar a história. Foi mais ou menos assim.
Naquela manhã, ao contrário do que eu pretendia, levantei tarde da cama. Estava atrasado para a reunião mais importante da minha vida profissional. Do resultado dela, dependeria o meu futuro. É que depois de quase dez anos de trabalho duro, finalmente eu iria apresentar para a diretoria de uma grande multinacional o projeto de uma vida. Tratava-se de um aparelho de barbear sem lâminas. O sistema revolucionário possuía um mecanismo a laser que mapeava o rosto do usuário e aparava perfeitamente todos os pêlos do queixo e da face. Se o meu projeto causasse o impacto desejado, certamente eu mudaria a história da indústria de barbear, além, é claro, de alavancar de forma irreversível a minha carreira. Eu estava pronto para sair do chão e alcançar rapidamente o topo da pirâmide profissional e social. Nele, eu encontraria dinheiro, poder e fama.
No adiantar das horas, troquei-me apressadamente e saí sem o habitual café da manhã. Abri a porta do apartamento e chamei o elevador, enquanto conferia se todo o material necessário estava em minhas mãos. Sem olhar para frente, puxei a porta da cabine, avancei dois passos e senti o chão vacilante. Na verdade, não havia vacilo algum. Aliás, não havia nem mesmo o chão. O elevador descumprira a sua parte no acordo de atender ao chamado dos usuários. Levei alguns segundos para cair do 15º andar até o chão. E, antes que alguém me pergunte, nessas ocasiões é impossível ver toda a sua vida passar diante de si, pois ela sempre é bem mais longa do que os míseros segundos que o levam até o chão. Por isso, o máximo que consegui foi pensar na plaqueta obrigatória na entrada de todos os elevadores da capital recifense. Mesmo assim, sequer cheguei ao fim da frase.
Aviso aos usuários, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste and…
Não sei dizer quanto tempo fiquei desacordado. Mas quando recobrei a consciência, percebi que me encontrava deitado e estava coberto até a cabeça por um lençol branco.
Abrir os olhos vagarosamente, por causa da claridade. Nunca havia visto a luz natural tão intensa como naquele instante. Olhos abertos, vi uma moça parada na minha frente. Sua aparência era de uns vinte e poucos anos. Seus cabelos eram curtos, bem pretos e espetados, e sua maquiagem era escura, principalmente, na altura dos olhos. Ela trajava camiseta, jaqueta, bermuda e sapato baixo. Também usava uma gargantilha que mais se assemelhava a uma coleira de cachorro. E tinha piercings, muitos piercings.
Quando eu tentei me mexer, senti o corpo todo dolorido. Além do mais, havia um odor acre saindo debaixo do lençol. Foi então que me lembrei da queda. Sim, a queda! Respirei aliviado, percebendo que havia dado sorte e escapado com vida. Dali a pouco, descobriria o quanto fui precipitado em meu julgamento.
A moça deu uma gargalhada, talvez zombando da minha desorientação. Perguntei irritado o motivo de sua risada e ela respondeu um “nada não”, embora não conseguisse disfarçar a zombaria. Alguns instantes depois, já recomposta e com um ar um pouco mais solene, me informou que estava na hora de ir. Perguntei para onde e recebi um “para o outro lado” como resposta.
- Que outro lado? - perguntei, ainda desorientado.
Ela riu novamente, o que fez aumentar ainda mais a minha irritação. Impaciente, procurei aquele dispositivo que aciona o chamado para a enfermaria, mas não havia nenhum. Tentei então levantar da cama para buscar ajuda.
Foi aí que aconteceu uma coisa muito estranha. Com o impulso que dei para pôr-me em pé, meu corpo flutuou descontroladamente pelo quarto. Assustado, olhei em volta e percebi outros corpos cobertos da mesma maneira que o meu. Foi só neste ponto que compreendi que eu estava no necrotério de algum hospital.
A ficha finalmente caiu! Tomei um choque! Senti o coração acelerar e, ato contínuo, levei as mãos ao peito, mas não havia nada batendo lá! Nenhum tum-tum-tum! Tomei meu pulso e ele não pulsava. Comecei a me apavorar. Tentei correr, mas, no ar, não tinha controle sobre os meus movimentos. Meu único recurso foi tentar, atabalhoadamente, nadar cachorrinho, para me afastar da garota que, a esta altura, já me dava medo.
Concluí que estava eu agora diante da morte. Senhora e senhores, eu vi a morte de perto e ela estava viva!
Continua
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