A peleja com o diabo - Final

A peleja do diabo com o dono do céu (Zé Ramalho)
Dimas Lins
II
- Se você é a morte, então cadê a foice?
- O que é isso, companheiro?! - Indignou-se ela ao ser confundida com um membro do partido comunista.
Diante das evidências desfavoráveis, ainda argumentei, tentando negar o óbvio. Sem muita convicção, buscava encontrar detalhes que, de alguma forma, negassem o fim da minha existência humana. Perguntei-lhe, por exemplo, como eu poderia estar morto, se ainda sentia dores no corpo.
Ela me explicou que demorava um tempinho para o espírito se desligar totalmente da matéria. E, à medida que eu ia aceitando os fatos, ela ia me dando mais detalhes. Contou-me que apenas trabalhava para a MORTE, uma empresa terceirizada e especializada na travessia de pessoas do mundo material para o mundo etéreo. Coisa fina, negócio profissional e lucrativo, já que morre gente o tempo todo. Disse que acabara de conseguir o emprego, através de um concurso público celestial, onde concorreu com mais de 20 mil candidatos por vaga. Acrescentou ainda que não tinha motivos para reclamar, já que recebia um bom salário, além de um excelente plano de saúde. Achei legal a MORTE se preocupar com a saúde de seus funcionários.
Já mais calmo, perguntei então para onde seria levado. Ela contou que eu iria para o umbral, uma zona obscura situada na crosta terrestre, onde as almas sofredoras eram atormentadas por espíritos obsessores.
Ainda tentei protestar. Questionei a presunção da infalibilidade divina e pus em dúvida um julgamento, cujo depoimento do réu sequer foi tomado. Sem ampla defesa, argumentei que a sentença era passível de nulidade. Descobri então que não havia como interpor recursos contra os desígnios de Deus. Como não havia meios de questionar a justiça divina, restava apenas me resignar.
Mas já que estava morto, queria saber as respostas para as grandes questões da humanidade. Afinal, durante toda a história do homem, buscamos a explicação para as grandes questões filosóficas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? E, principalmente, se há alguma esperança para o Santa Cruz. Fiz então a primeira pergunta, aquela que daria sentido a minha vida.
- O meu projeto vai fazer sucesso?
- Pensei que você, como todo mundo, perguntaria primeiro sobre Deus.
- Isso também, mas e o projeto?
Ela hesitou. Tem coisas que os olhos transmitem com mais precisão do que mil palavras. Percebi então que eu havia desperdiçado dez anos da minha vida, pois, com a minha morte, ninguém tomou conhecimento das minhas pesquisas. Não era justo! Aceitei passivamente o fim da minha existência, mas jamais aceitaria o meu fracasso! Sou antes de tudo um capitalista! Além do mais, o meu projeto era tudo o que me restava. Era o que ainda me fazia sentir humano. Definitivamente, não viveria - ou morreria, como queiram - em paz ao perceber que passei pela vida sem ter contribuído, de alguma forma, por menor que ela fosse, para o progresso da humanidade. Nasci e vivi como um joão ninguém, mas não estava preparado para morrer como tal. Não fui à vida a passeio, por isso, queria o meu lugar na história. Queria deixar o meu legado às futuras gerações, para que eu fosse eternizado na memória das novas civilizações. Assinaria o meu nome na história da humanidade ou, ao menos, num livro de registro de patentes. Faria isso, nem que eu tivesse que vender minha alma ao diabo.
Embora eu tivesse dito aquilo da boca pra fora, foi com grande surpresa que o vi surgir na minha frente: chifre na cabeça, tridente na mão e cheiro de enxofre.
- Menino, as notícias voam, hein? - disse, surpreso.
Se Deus sabia e via tudo, o diabo pelo menos tinha um serviço de inteligência de dar inveja aos americanos. Além de tudo, era um bicho bastante prestativo. Precisou, ele estava lá, pronto para oferecer seus serviços.
Mas algo me pareceu incoerente. Afinal, o umbral era um dogma espírita, enquanto o diabo era um dogma católico. Essa inconsistência me encheu de dúvidas. Consultei a emissária da MORTE e ela me explicou que cada religião vê as coisas do seu jeito. No fundo, cada uma delas sabia apenas um pedaço da verdade.
Mesmo assim, pedi identidade ao chifrudo. Era necessário me certificar que estava fazendo negócio com a pessoa certa. Não arriscaria minha alma por um engodo qualquer. Se na terra havia tantos ardis, o que dizer então do inferno? O medonho me olhou irritado e, na falta de um documento probante, fez um truquezinho barato pra provar quem era. Como sou brasileiro e sei que todo dia saem de casa um esperto e um otário que poderão se encontrar em qualquer esquina, não aceitei que uma magia ordinária se transformasse numa prova irrefutável.
O cão danado bufou de raiva. Mesmo assim, se submeteu às minhas exigências. O diabo me fez ver o que não tinha conseguido enxergar na queda do elevador. Vi diante dos meus olhos, toda a minha vida se passar, numa inacreditável fração de segundo. Considerei enfim que o diabo apresentara uma prova definitiva.
- Por que me invocaste? - perguntou o mafarrico.
A bem da verdade, eu não o havia invocado. Estava apenas fazendo conjecturas, quando o diabo apareceu. Por isso, astutamente, fingi desinteresse, para obter melhores condições no negócio.
Quando enfim comecei a contar a minha história, o diabo mostrou classe e educação e me ouviu atentamente, sem fazer interrupções. Pedi a minha vida de volta para fazer do meu projeto um sucesso. Ele assentiu. Em troca, entregaria a minha alma, quando tornasse a morrer. Como eu não era versado nas coisas do além, assinei o contrato sem questionar.
Depois do acordo sacramentado por um tabelião celestial juramentado, senti uma tontura e desmaiei. Quando acordei estava na minha cama, na mesma manhã do dia da minha morte. Ainda estava atrasado, por isso, me troquei apressadamente e saí novamente sem tomar o café da manhã. Na saída de casa, evitei o elevador e desci os quinzes andares pela escada. Mais tarde, quando terminei a apresentação do meu projeto à diretoria, fui aplaudido de pé.
Já se passaram quase vinte anos desde então. E, se vocês querem saber, o meu projeto foi um sucesso de proporções mundiais. Mas devo confessar que não pude aproveitar as glórias que eu tanto sonhei. É que, naquele mesmo dia, sofri um acidente no elevador da empresa, quando retornava para casa. No meu caminho tinha um elevador; tinha um elevador no meu caminho. Com a minha morte, o presidente da companhia patenteou o meu invento em seu nome e até hoje é reconhecido no mundo corporativo como um gênio dos negócios.
Sem glórias e morto pela segunda vez, só me restou cumprir a minha parte no acordo. Afinal, quem mandou fazer um pacto com o diabo? Hoje, minha vida é um inferno no inferno, mas não tenho do que me queixar. O lugar até que não é tão ruim quanto parece, embora o calor seja insuportável e a cerveja, quente. Difícil mesmo é agüentar toda aquela inhaca de enxofre.
A boa notícia é que em novembro sairei em condicional, por bom comportamento. Serei transferido para o umbral. Talvez um dia eu recupere a minha alma e possa finalmente entrar no céu. Até lá, vou ficando por aqui e vivendo como o diabo gosta.
Parte I
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