Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Maria das dores de amar

Pintura: Paula Rego
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Das Dores de oratórios (João Bosco)

Dimas Lins

Seria um dia festivo. Era pra ser. Porém, o tempo e o modo do verbo indicam que não aconteceu assim. Pequenas rupturas urbanas por vezes carregam em si grandes tragédias pessoais. Sempre me comovo quando os filhos se vão antes dos pais; discípulos, antes dos mestres; jovens, antes dos velhos; e amantes, antes de viverem o amor em toda a sua plenitude.

O amor que vai e não volta torna o peito insuportável. E não há como reconfortar um coração amputado, pois o que sobra é o vazio, o que se sente é a dor e o que se vive é a solidão.

Foi na porta da igreja, num fim de tarde, que Maria das Dores soube da morte de Antônio no dia de seu casamento. Suas mãos tremeram, seu corpo gelou, sua tez morena empalideceu e suas pernas não se sustentaram em pé.

Antônio havia parado num bar, próximo a sua casa, para brindar com alguns amigos, antes de também seguir para a igreja. De repente, na mesa ao lado, um desentendimento, uma confusão, um conflito. O motivo, uma dívida de jogo. Antônio tentou apartar a briga, mas foi baleado na altura do peito e não resistiu. Os amigos ainda tentaram socorrê-lo, mas já era tarde.

A morte trágica e inesperada mudou o rumo natural das coisas. A expectativa da felicidade deu lugar ao sofrimento certo. No velório de Antônio, Das Dores chorou. Ainda vestida de noiva, varou a noite debruçada sobre seu corpo entre lágrimas e desespero. Por vezes, gritava tanto que podia ser ouvida em qualquer parte da cidade. Noutras, sussurrava no ouvido de Antônio: “Me leva!”.

Durante o sepultamento, o silêncio era quebrado pelas rajadas dos gritos loucos da mulher abandonada. Maria das dores, do amor bruscamente interrompido, da mágoa no coração, da profunda tristeza e também da solidão, sussurrava sempre para Antônio: “Me leva!”.

O tempo passou, mas a tristeza não deu lugar à resignação. Diariamente, ela era vista debruçada sobre o jazigo de Antônio até o entardecer.

Só depois de um ano as visitas ao cemitério cessaram. Das Dores nunca mais foi vista desde então. Tornou-se reclusa e sumiu do alcance dos olhos do povo do lugar.

Hoje, sua casa está abandonada e pouco se sabe do rumo que sua vida tomou. Há quem conte que ela nunca tirou o vestido branco que um dia se casaria. Alguns vizinhos dizem que ela mudou de cidade, para tentar recomeçar a vida em outras paragens. Outros falam que ela enlouqueceu e sumiu no mundo. Mas há rumores em toda parte que tratam de sua morte. A verdade é que não sabe o que aconteceu.

Quando passo em frente ao cemitério, difícil é não lembrar dos eventos daquele dia fatal. Ainda posso vê-la metida em seu vestido de noiva e ouvir o som penetrante da sua voz sussurrando ao vento: “Me leva!”. E vou para casa sem esquecer o sol daquela tarde.

5 Comentários

  1. josias de paula jr. 2 de abril de 2008, às 10:36h

    Beleza de título! E mais uma grande crônica!

  2. Sirley 2 de abril de 2008, às 15:09h

    como na maioria das vezes a simplicidade se une a suavidade e se revela em beleza.
    Dos blog que leio os teus contos e crônicas, como as crônicas de Sama são de uma beleza incomparável, pela simplicidade. Mais uma vez parabéns!

  3. Dimas Lins 2 de abril de 2008, às 16:11h

    Sirley,

    Obrigado pelas palavras de incentivo. E aproveito para dizer-lhe que sempre leio o seu blog.

    Um abraço,

    Dimas

  4. André Tricolor Virtual 3 de abril de 2008, às 20:19h

    “Dimas”, será que dona das dores entrou na ‘tumba’ do ‘quase’ marido falecido para dormirem juntos por toda eternidade ????

    Parabéns meu querido por mais uma um belo texto !!!!

  5. Kalina 21 de abril de 2008, às 23:25h

    Lord Byron está festejando embaixo daquela lájea fria certamente ao saber que o Mal-do-Século se perpetua… E a propósito… a gramática errou feio, o desespero é feminino. Só pode!

Nós que aqui estamos, por vós esperamos