Arquivo de 9 de março de 2008, às 0:00h
Vocação

Motivo - Fágner (Cecília Meireles/Fágner)
Dimas Lins
Minha amizade com o poeta vem de pouco tempo e, a bem da verdade, fomos apresentados por seus versos. Sua poesia triste ao mesmo tempo em que arrebata, dilacera. Comparei-o certa vez a Drummond, não pela melancolia que emprega, mas pelo talento. O poeta sorriu embaraçado. Talvez achasse que eu caçoava dele, não sei. O fato é que, por conta de suas poesias, nos tornamos amigos.
Um dia, convidá-lo-ei a minha casa para jantar. Reunirei alguns convivas para jogar fora conversas pequenas e, por isso mesmo, de grande relevância.
Durante os aperitivos, perceberia que o poeta se sentiria pouco à vontade. Atribuiria o desconforto a uma timidez inesperada que por certo seria vencida no adiantar dos minutos.
Passaríamos à mesa de jantar e, entre vinhos e informalidades, perceberia o poeta mais desatado. Um médico sentado ao seu lado diria que certos poetas funcionam melhor depois da ingestão de alguns goles de um bom uísque. Haveria controvérsias, pois acredito que uma boa cachacinha desate mais o nó das cordas vocais e talvez até provocasse um recital.
- Não tenho vocação para a poesia - eu levantaria a questão e depois me poria em silêncio.
- Também não tenho veia literária - endossaria um dos convidados.
- Acho que escrever não tem nada a ver com vocação, mas sim com o exercício da escrita - provocaria o outro.
- Quanta bobagem! Escrever é como jogar futebol: você pode até aprender, se treinar, mas jamais será um craque, se não tiver potencial. Para ser craque tem que ter talento, camarada!
A conversa daria voltas à mesa, mas tanto eu quanto o poeta permaneceríamos em silêncio. Eu talvez esperasse a polêmica aumentar para ter um pouco mais de prazer na discussão; o poeta talvez se calasse pela timidez circunstancial.
- Mas o potencial sem proveito não é nada. O potencial, depois de certo tempo, se não utilizado, deixa de ser potencial e passa a ser frustração - diria o médico.
- Concordo com a questão, mas confesso que fiquei confuso. Enfim, qual é a diferença entre potencial e talento?
- O potencial é o estado latente, inativo; enquanto o talento já atingiu a plenitude de sua forma final. E o que é o talento, se não a vocação? - ensaiaria o doutor.
- E de onde vem a sua vocação? - Perguntaria alguém diretamente ao poeta.
O poeta tentaria se esquivar e desqualificar-se como poeta. Em sua modéstia, acharia que não é dotado dessa qualidade inata, seja em estado latente ou manifesto, portanto, não se consideraria capaz de responder. Retraído, o poeta deixaria a questão no ar e os convidados, em vão, esperando por suas palavras.
Mas talvez eu soubesse a resposta. Acredito que sua vocação venha da necessidade e sua vontade de escrever seja instintiva, portanto, anterior e ainda mais inata que o talento. Creio que sua vocação venha mesmo do apuro, do aperto, da inevitabilidade que ele tem em organizar as palavras em rimas e exprimir sentimentos. Como leitor, sou capaz de jurar que o poeta se mistura às próprias palavras, quando escreve. Digo mais. Desconfio que ele é suscetível, ainda que momentaneamente, a sentir o impacto de seus versos e, silencioso, é capaz de derramar lágrimas comovido de si mesmo. Não é à toa que me impressiona a sua capacidade de emprestar à dor tanta poesia*.
Certa vez, tive vontade de lhe perguntar se não era possível que a tristeza estivesse impregnada na alma de quem carrega nos versos as tintas da melancolia. Mas antes de cometer tal imprudência, encontrei a resposta no Motivo de Cecília Meireles.
Eu canto, porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste, sou poeta
Por tudo isso, eu resolveria intervir na conversa, embora não tivesse a intenção de responder pelo poeta. E ao ler uma de suas poesias, deixaria de lado a discussão sobre vocação para entrar no que ela provoca: admiração.
Após a capital queda
(Josias de Paula Jr.)
Num poço, imerso ao pescoço estou, em bosta;
Longe de paraíso, cristão ou ateu.
Moço que se imolou em seu próprio breu.
Narciso às avessas, cuja imagem detesta.
A relva que me serve de leito é daninha,
A pasta que rumino qual pasto é infesta,
Catervas de bernes habitam-me e atesta,
Que o humano se resta, só me toca à crosta.
Réprobo, culpado de minha própria culpa,
Expio incrédulo pecados supostos.
Ázigo cercado por récua sem rosto
Carrego enfermo patíbulos eternos.
Pairo, sem rota, como poeira revolta.
Anaclítico levado pelos infernos,
Sou órfão que purga castigos paternos.
E a roupa que envergo me aquece e sepulta.
Sem um sítio de meu
Vago a encontrar botas,
Onde Judas as perdeu.
Até o fim da noite, alguém tornaria a perguntar ao poeta de onde vinha a sua vocação. O poeta enfim responderia que ela vem da sua certeza em saber que amanhã estará mudo. Mais nada.
Para Josias, cujos versos estão Inscritos em Pedra.
*Frase tomada por empréstimo da talentosa Ana Cláudia Nogueira, que costuma nos dar alguns prazeres literários no blog Ninho da’Ninha.
3 comentáriosPrimeira morte

Artur Perrusi
(crônica publicada originalmente no Blog dos Perrusi)
Bateram forte na porta. Acordei sobressaltado. Eram três da matina. Horário cruel e premonitório; afinal, num hospital psiquiátrico, depois da meia-noite, tudo pode acontecer, toda desgraça é possível.
- O que seria? - Pensei.
Um enfarte? Um edema agudo do pulmão? Um parto? Um internamento complicado? Morria de medo de parto. Sempre tive dificuldade em excluir, de forma conveniente, o feto, a placenta e as membranas fetais do aparelho reprodutor materno, principalmente fora de uma maternidade. O último parto fora quase na rua, no alpendre do hospital.
- Se for isso, tô lascado. Ruminei, preocupado.
Abri a porta, lentamente. A enfermeira estava apreensiva.
- É parto?
- Não é nascimento, doutor, acho que é morte.
- Morte?!
- É Maria das Dores, doutor.
Não conhecia essa paciente. Será uma parada cardíaca? Era bom na massagem; assim, podia salvá-la, pelo menos temporariamente. Faria como sempre fizera: massagem e ressuscitação; machucaria um pouco, é verdade, mas era inevitável; ressuscitá-la-ia e a levaria de ambulância; eu dirigindo, é claro, pois não há motorista, e médico faz tudo num asilo; deixá-la-ia na emergência e voltaria correndo, esperando que nada de assombroso, durante minha ausência, tivesse ocorrido no hospital. Era isso: simples e factível.
Corri ao pavilhão feminino, onde estava a moribunda. Várias pacientes cercavam o corpo de Maria das Dores. Estava sentada numa cadeira larga de palha. Era gordíssima, gigantescamente gorda. Na hora do enfarte, tomava banho, sentada na cadeira. Fazia isso, comumente, já que não agüentava mais o peso. Estava nua, com os braços pendentes, os olhos vidrados e a boca meio aberta - jeito de morta, mortinha da silva. Do chuveiro, caia um pingo d’água no seu olho esquerdo. Foi minha primeira preocupação: fechar completamente o chuveiro. Aquele pingo incomodava-me profundamente. Era o tempo tanatológico, um tiquetaque sinistro.
Passei algum tempo, juntamente com a enfermeira, tentando tirar a paciente da cadeira para deitá-la no chão. Não foi fácil. O piso era escorregadio, com muito lodo. Tivemos que derrubar a paciente da cadeira para, depois, empurrá-la até um lugar adequado. Pedi, em vão, que as pacientes se afastassem do lugar. Ficaram só um pouco mais longe. Pedi silêncio, com rispidez, e fui parcialmente atendido.
Meu Deus, como faria uma massagem cardíaca naquele corpanzil? Não fiz propriamente uma massagem: eu bati, esmurrei com toda a força o tórax da paciente. Não houve reação alguma. Ansioso, juntei as duas mãos, dobrando meu “punho”, e novamente tentei. Eram pancadas secas e ritmadas. Eu já transpirava muito. O calor era infernal. Os pingos de suor caiam por todos os lados, e notei um despencando milimetricamente no olho direito da paciente. Aquilo era assustador. Queria implorar por uma toalha.
Parei tudo, já que os atos e as manobras não adiantavam, mas não queria assumir meu fracasso. No fundo, sabia que estava morta, porém não me conformava. O medo de que faltasse um sopro derradeiro nalguma brasa restante impelia-me a continuar naquele trabalho de Sísifo.
De repente, aproxima-se uma paciente. Era Jacilene, minha paciente, há pouco internada e completamente doida. Evitei seu olhar, mas escutei sua voz:
- Ela tá viva, doutor!
- Viva?!
- O que era para haver, se houvesse, mas que não houve. Tire a morte, doutor.
Só me faltava essa: uma louca cheia de veredas. Olhei para a enfermeira, querendo alguma cumplicidade. Recebi um risinho fácil. Olhei a imensidão no chão. Não agüentei a ansiedade e retomei a massagem. Esmurrei, esmurrei, até não agüentar mais. Parei.
- Não é possível…
- Tá viva, doutor! Ela tem ainda muito etcétera para viver.
Olhei para cima, e lá estava Jacilene, com seus olhos doidos de muita certeza. Seus olhos… Havia uma segurança absoluta ali no seu olhar. Ela me encarava de forma imperativa. Afrontei-a e me perdi, mergulhando numa dúvida atroz. Retomei novamente a massagem. Minutos depois, parei tudo. Estava completamente extenuado. Olhei desesperado para Jacilene. Dessa vez, não disse nada, fez apenas um leve movimento na cabeça e continuou com aquele olhar absoluto. Já retomava a massagem quando uma mão firme no meu ombro interrompeu meu movimento. Era a enfermeira.
- Pare, doutor, não adianta mais.
- É?…
- É, sim, e faz tempo.
Entre o olhar louco, puro de certeza, e o cartesiano, cheio de saber-poder, qual deveria escolher? Era médico, por isso escolhi o segundo. Assim, mandei a enfermeira chamar alguns ajudantes para colocar a paciente na pedra. Já estava de saída da enfermaria quando não resisti e olhei Jacilene. Ela deu um sorriso triste e seu olhar jogou-me numa culpa cavalar. Seus olhos estavam incandescentes. Quase voltava e aplicava mais massagens. Fiz pior: passei a madrugada inteira indo na pedra para tirar a pressão de Maria das Dores - tudo zero, claro. Eu ia e voltava. Já amanhecendo, quando passava na frente das enfermeiras, brincavam com minha dúvida:
- Ela já tá roxa, dotô! - E todas caíam na risada.
Sim, na verdade, sempre esteve, e fazia tempo.
Passei alguns dias ruminando o acontecimento. Queria encontrar algum sentido naquilo tudo. Minha busca era prosaica; afinal, encontraria novamente Jacilene e não estava preparado para enfrentar seu olhar. Antes do encontro, tinha que me convencer de alguma coisa, podendo enfim encarar seus olhos.
O dia chegou, e eu estava ainda repleto de incertezas. Tinha medo de não ter feito o suficiente. Movia-me nesses futuros que já se foram - será que matei a possibilidade? O encontro foi tenso. Jacilene me agrediu. Com toda a força, meteu a mão na minha cara. Estava agitadíssima. Não consegui sequer fitar seus olhos. Gritava pela sua mãe. Não entendi nada. Não consegui contato algum. Simplesmente, ela não parava de gritar. Não teve consulta.
Tempos depois, volto ao pavilhão para uma nova consulta e descubro que Jacilene não se encontrava mais no hospital. Não sabia de nada e fiquei perplexo com a notícia. Segundo a enfermeira, Jacilene estava, agora, no Rio de Janeiro e internada numa clínica. Nunca mais a vi.
Mas não fora tal notícia que me abalara de jeito. Fora outra, muito esquisita: no mesmo instante da morte de Maria das Dores, morria a mãe de Jacilene, após uma longa enfermidade.
Compreendia agora a sua ira. Sei que ela jamais me perdoou. A partir da morte de sua mãe, única âncora na realidade, entrou em colapso e deu um adeus definitivo ao tempo. Simbolicamente, naquela ressuscitação, o que estava em jogo era outra vida - a sua vida. E, de fato, eu não dei conta do recado. Fui distraído em relação a algo que era de suma importância naquele momento. Talvez, algumas massagens a mais salvassem nossa relação, além de toda culpabilização e aquém de toda projeção. Como sempre, desisti rápido demais. Era possível recuar e transformar o delírio em necessidade. Eu poderia ter feito isso.
Depois desse evento, perdi a oportunidade de encontrar a sabedoria; por isso, jamais pude achar um acordo entre minhas escolhas e minha vontade. Naquela época, tive a nítida impressão de que a sabedoria era uma mistura de felicidade e tristeza. Ser feliz e triste ao mesmo tempo, eis a questão.
Foram minhas primeiras mortes.
2 comentáriosCâmara de privação dos sentidos

Sossego (Tim Maia)
Dimas Lins
Adaptação da crônica de mesmo nome publicada originalmente no Torcedor Coral
Há dias em que tudo dá errado e só causam aborrecimentos. Quando um dia assim nos atravessa o caminho, nada é mais acolhedor do que a nossa própria casa. Nenhum outro lugar é capaz de nos aquietar em meio à tamanha turbulência emocional. E se o sujeito já estiver na rua, melhor dar meia volta e ficar à deriva, esperando passar a tempestade. Nada que o raiar de um novo dia não resolva.
É bem verdade que, por vezes, essa maré de azar pode se perdurar por mais tempo. Neste estado de espírito, o melhor é isolar-se, não deixar ninguém chegar perto, porque a agressividade irradiada por algum evento negativo pode fazer com que o vivente cometa os atos mais impensáveis. E, se alguém, que não entende as conseqüências deste momento crucial, insistir em se aproximar e puxar assunto, é melhor respirar fundo, contar até três e citar Chico Buarque, antes que o pior aconteça.
Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa.
E qualquer desatenção, faça não!
Pode ser a gota d’água.
Num dia catastrófico, você naturalmente só atrai coisas ruins. Sendo assim, por certo se envolverá em confusões que, em condições normais de temperatura e pressão, jamais aconteceriam. Por exemplo, provavelmente você se meterá numa briga em uma mesa de bar, por causa de um guardanapo ou esfaqueará o garçom 66 vezes, com uma serra de pão, porque a conta apresentou-se com uma cerveja a mais.
Em nosso santuário, podemos ser nós mesmos. Quem lhe conhece na intimidade sabe que a única coisa a fazer é deixá-lo no isolamento e você será o único a ter de suportar-se. Afinal, como ser cordial nestas circunstâncias? Nada contra a cordialidade, mas é praticamente impossível manter a linha quando você está de mal com o mundo e, pelo bem do equilíbrio social, ainda é obrigado a expressar-se com amabilidade. Definitivamente, não! Nada o animará num dia ruim. Então, melhor mesmo é esquecer o mundo. Tanto faz se um furacão devastou a costa americana, se a extrema direita tomou o poder na França ou se Tony Blair deixou de ser o todo-poderoso Primeiro-Ministro da Inglaterra, após 10 anos de mandato. Uma vez fechado hermeticamente em sua câmara de privação dos sentidos, não haverá ninguém capaz de penetrar em seu mundo indevassável. Ou quase ninguém.
Trim… trim… trim…
- Alô?
- É o Sr. Paulo?
- Depende…
- Eu sou do Unibanco, como vai o senhor?
- Eu não vou bem, obrigado.
- O motivo da minha ligação é que o banco está com um produto especial para um número limitado de clientes e o senhor, pelo seu bom relacionamento no mercado, está sendo convidado a abrir uma conta-corrente conosco sem pagar nenhuma taxa de manutenção pelo resto da sua vida.
- Ou a do banco…
- Como?
- Ou a vida do banco. Afinal, ele pode fechar as portas antes mesmo de eu morrer. De qualquer forma, eu não estou interessado e…
- Nosso banco não vai fechar as portas, senhor. Afinal, ele é uma das maiores instituições privadas deste país. Além do mais, o senhor não quer deixar de pagar taxa de manutenção pelo resto de sua vida?
- Minha jovem, o que eu quero mesmo é desligar o telefone. Se você me der licença, eu…
- O senhor ainda terá outras vantagens ao abrir uma conta em nosso banco. Por exemplo, poderá sacar no Banco 24 Horas tantas vezes por dia quanto desejar, sem cobrança de tarifa. Não é uma grande vantagem?
- Minha filha, eu mal tenho dinheiro para sacar uma vez por semana, quanto mais diversas vezes por dia. Além do mais, se isso acontecer, pode ter certeza que é seqüestro relâmpago.
- Senhor, olha, eu…
- Se a senhora já terminou, então passar bem!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?!
- Sr. Paulo?
- Puta que pariu! O que é?!
- S… senhor, eu sou consultora do cartão American Express e nós estamos lhe oferecendo, em função do bom relacionamento que o senhor tem com o mercado, um cart…
- Lá vem esse negócio de mercado de novo! E consultora uma ova! Você é atendente ou vendedora, minha filha! Isso é o que você é! E vá vender suas enciclopédias em outra freguesia!
- Mas não é enciclopédia, senhor. É cartão de créd…
- Vá ver se eu estou na esquina!
Praft!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?
- Aqui é do Jornal do Commércio, eu gostaria de falar com o Sr. Paulo.
- Olha, o Sr. Paulo foi embora para Brasília e mandou avisar que não volta nunca mais! Que é pra vocês tirarem o nome dele do cadastro.
- Por gentileza, com quem eu estou falando?
- Eu não sou ninguém e estou aqui por acaso, mas também já estou de partida. Estou indo ali na esquina tentar o suicídio e…
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