Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 28 de abril de 2008, às 0:00h

Depois das duas horas

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 A internet talvez seja a melhor coisa da globalização. Num segundo, distâncias deixam de existir e permitem encontros antes impossíveis de acontecer.

E foi a internet e a afinidade com a literatura que trouxe Kalina ao Estradar.

Kalina Paiva é natural do Rio Grande do Norte e professora por opção. Ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, que ela chama de “dar aula de palavras”. Especialista em Educação e mestranda em Literatura Comparada, Kalina também é pesquisadora do GEICA, um núcleo de pesquisa da UFRN. Ela ainda vai além. Colabora com alguns jornais locais, vez por outra, e é autora fixa de Verborrágicos! - um blog literário interessantíssimo que ela assina junto com outros quatro amigos.

Kalina tem 30 anos bem vividos, segunda ela mesma, é casada e tem dois filhos. E nos conta que, no dia em que parar de escrever, é porque os céus de misturaram à terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a faces das águas.

À Kalina, obrigado pela colaboração; e à internet, por permitir este intercâmbio.


Kalina Paiva

Tenho uma dúvida grande até hoje sem respostas: será que eu existi em algum momento? Essa questão é profunda demais. Não estou nem um pouco a fim de pensar, de formular hipóteses, só queria curtir uma dor/prazer diferente de tudo que já vivi e que a vida, pela primeira vez, não pode me oferecer.

Há dois meses, estou sem o toque dele. Naquela noite que completava os tais dois meses, acordei ofegante, depois das duas da manhã, após ouvir um barulho lá fora. Fora de mim… sai. Também, pudera, o dia me massacrou terrivelmente. A vida me massacra terrivelmente poro a poro, palmilhando minhas olheiras quase crateras de uns dias mal dormidos. Desconfio que a pessoa que eu era já não está mais aqui nem voltará.

Perdi a paciência de olhar para o espelho e ouvir dele que o tempo está passando. Não gosto de advertências e esse espelho falante me soa como ameaça. Não tenho outras escolhas: ou sepultarei o espelho ou a mim mesma. Há quem possa contra o relógio? Pior mesmo é agüentar o cúmplice do tempo: esse espelho grotesco.

Peguei um punhado de livros de auto-ajuda e eles têm sempre o mesmo discurso de que é necessário lutar, blá, blá, blá… mas onde estavam as minhas forças, senão escondidas num baú velho e empoeirado? Tentei colocar todas as minhas angústias em escritos que ninguém vai ler porque arremessarei para bem longe essa escrita comum e patética das coisas tão cotidianas, das coisas que eram e são uma cutilada em meu ego feminino. A morte, paulatinamente, parece mais doce e infinitamente agradável.

Dias antes, estava com o corpo em brasas, quando ouvi uma canção antiga que me fazia lembrar um perfume adocicado de forma tão intensa que, ao passar uma leve brisa pela minha nuca, senti calafrios. Era algo pós-mundo. Não dá para explicar ao certo. Mexia com as minhas vísceras ao mesmo tempo em que misturava saudades e diálogos premeditados, ensaiados, que não iam acontecer… Não estava completamente sozinha, pois havia um vinho chileno em minha geladeira tão normal, tão caseira, tão fim de mês… o vinho e uns queijos. E só. O que me falta então? O vinho chileno exala um aroma doce e isso já era o bastante para me fazer rememorar coisas que não escolhi lembrar.

Ah, como lembrei… mas a minha memória tinha que estragar tudo e então senti que os fatos do dia fremiam em meu cérebro: contas, filhos, contas, solidão, corre-corre, contas, cobrança do relógio, sussurro do desejo, trabalho, mais contas e a interdição de todas as coisas que queria fazer. Era muita coisa e nada ao mesmo tempo. Como pode? Não estudei para administrar paradoxos, no entanto acabou sendo o meu ofício.

Talvez, eu esteja passando por um processo de arrefecimento que alguns arriscariam chamar de maturidade. Na verdade, decidi deixar de lado as sentimentalidades como quem abandona um cão no meio do caminho, sem olhar para trás, sem deixar rastros de uma convivência cúmplice, acostumada, cachorra.

É por essas e outras coisas que tenho que escrever: para não enlouquecer. Sobressaltada, escrevi e arremessei, escrevi mais e arremessei mais longe ainda. Pensei nos jornais, nas revistas, nos livros, em todas as formas de comunicação escrita que não me valem de nada, absolutamente nada. As palavras fogem de mim como o diabo da cruz. Nem valeria a pena, pois a dor é inevitável e inclassificável o tamanho do estrago que as palavras provocam, pois tudo se resume a um vazio sem precedente aqui dentro de mim. Para isso não há palavras nem sistema de medidas. Será querer demais fazer algo diferente? Meu Deus, não me condene, nasci católica antes mesmo de ser um indivíduo do sexo feminino, mas sei o que fazer com o livre-arbítrio que me foi ofertado em toda a sua plenitude. Agora, quero dele gozar.

Sinceramente? Pensar sobre a própria existência se assemelha a uma experiência vodu! O que eu poderia fazer além de rir? Ri de tudo, de todos, de mim e da estupidez das palavras. Rio porque não posso rir sempre. Meu riso é vigiado. Se eu permitir que estranhos conheçam meu riso, assinarei minha sentença de interdição perpétua até mesmo do próprio riso, única coisa que nasceu comigo e que sei que me pertencerá nesta vida ou na próxima, se existir próxima vida.

Depois de tanto pensar, deixei tudo para trás, peguei o carro e dirigi nas retas mais curvas da minha vida. Sai disposta a experimentar a velocidade como quem descobre o prazer sexual pela primeira vez. Ávida pelo prazer, assim explorei todos os sentidos do carro. Livre de pudores e sentimentalidades, de perfumes adocicados, do ser que me deixou por escolha e sem motivos, dos ofícios, experimentei voar de braços abertos. Livre de tudo, de todos e do cinto, caindo, caindo, caindo, embalei o mundo às avessas, à minha maneira, naquele penhasco sem fim. Fiquei com muita raiva porque a última coisa que pensei foi naquele odor vinícola que sempre me atraiu, embora eu odeie fragrâncias adocicadas. Enquanto isso, o carro voava, desprovido de órgãos de vôos. Só então senti uma pontada traspassando as minhas costelas, atravessando meus músculos, rasgando a minha pele. A dor foi tão intensa que pensei que estava sendo partida ao meio. E isso só alimentou a minha fúria, conduzindo-me pelos caminhos mais estranhos do prazer, por isso, lasciva e automaticamente, acelerei o carro. O carro não aumentaria a velocidade da queda, é claro, mas é que quando sentimos dor, desejamos tê-la completa e intensa, de uma só vez. Agora, sim, posso dizer o que é viver.

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As horas

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Pela Internet (Gilberto Gil)

Dimas Lins

As horas passam devagar e eu batuco inquieto na mesinha do computador. Minha mulher estranha o barulho e vem ver se algum maracatu, por engano, não entrou em nosso apartamento. Como não havia sinais de carnaval em nenhum dos cantos da casa, sou forçado pelas circunstâncias a dar explicações sobre a minha euforia, já que estou parado em frente ao computador olhando para uma tela vazia.

Explico que minha euforia vem da ansiedade. É que aguardo a estréia do novo Estuário do jornalista, escritor e tricolor Samarone Lima. Digo que a qualquer momento o blog entrará no ar e que eu quero ser o primeiro a ter o prazer de vê-lo surgir em grande estilo. E conto orgulhoso que a ansiedade vem acompanhada de uma grande satisfação, vez que tive alguma participação na mudança de ares do Estuário.

Contente com a notícia, minha esposa resolve então sentar-se ao meu lado para, junto comigo, esperar que o blog dê o ar de sua graça. Embora prefira a solidão na hora da leitura, me aperto na cadeira e aceito de bom grado a sua companhia.

Mas nem bem me acomodo e já sou interrompido pelo toque da campainha, sempre descabida em horas inoportunas. Como minha esposa está grávida, parto com passos largos em direção à porta para ver quem é. E respiro aliviado ao ver a sua irmã chegar, pois sei que as duas certamente se distrairão jogando fora algumas conversas miúdas. Assim, eu, generoso que sou, abrirei mão da sua companhia para ter de volta a solidão da tela do computador.

Qual o quê. Sou pego de surpresa quando minha cunhada, ao saber da novidade, também decide esperar pela estréia. E não bastasse a contrariedade de ter perdido de vez a possibilidade de uma leitura sossegada, ainda sou obrigado a ceder o meu lugar, como bom cavalheiro que sou.

Agora estou em pé e com a visão atrapalhada pelas damas sentadas à minha frente. Mas antes que eu encontre a posição adequada para enxergar melhor a tela do computador, minha esposa, contagiada pelo clima de cinema em casa, me pede carinhosamente para fazer uma pipoca. E nem dá para dizer que não, pois ela aponta para a sua barriguinha e diz que é desejo provocado pela gravidez. Com a chantagem emocional, me dou por vencido e decido satisfazer sua vontade.

Mas nem bem começam a estourar os primeiros grãos de milho, meu vizinho bate a porta atraído pelo cheiro. E eu, achando pouco a situação, ainda dou com a língua nos dentes e entrego de bandeja que a pipoca é por conta da reestréia do blog de Samarone.

Em poucos minutos, meu apartamento está tomado de gente trazida pelo vizinho penetra. E tal é a confusão que até o síndico bate à minha porta para reclamar. Diz que havia chamado a polícia, mas, ao saber o motivo da balbúrdia, decidiu ficar. E a polícia, por sua vez, que entrou sem bater, ficou também, como ficaram todos aqueles que apareceram movidos pela curiosidade. E havia tanta gente que já não era possível permanecer em minha própria casa.

Por isso, tomo a escada do edifício e dou de cara com uma fila de gente subindo para o meu apartamento. Na rua, a cidade parece deserta e não é difícil imaginar aonde foram todos.

Depois de caminhar um pouco, finalmente encontro uma lan house. Não há ninguém por perto, nem mesmo o dono. Escolho um computador e espero pacientemente que o navegador da internet seja carregado. E ele abre. E finalmente surge diante de mim o que eu queria ver. Bonito e elegante, mas com a simplicidade de sempre.


Para Samarone, escritor das coisas mínimas e desnecessárias.

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Onde há fumaça, há fogo!

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Pegando fogo - Gal Costa (José Maria de Abreu/Francisco Mattoso)

Dimas Lins

Encontrei Nero perambulando pelo Mercado da Boa Vista, em Recife. Na realidade, foi ele quem me achou. Talvez tivesse sido atraído pelo cheiro, já que eu degustava um delicioso sarapatel - iguaria sem igual e verdadeiro manjar dos deuses.

O fato é que eu tomava um gole da minha cerveja, quando ele surgiu de repente e perguntou se eu tinha fogo. Sabedor de seus hábitos incendiários, imaginei o perigo que havia por trás de suas palavras. No susto, quase cuspi todo o conteúdo amarelo-ouro em sua cara, mas consegui manter o líquido em baixa fermentação na boca, evitando assim um constrangimento histórico.

Chamei-o pelo nome, para deixar claro que o conhecia, e perguntei se não lhe bastava a bobagem de ter posto fogo em Roma. Ele se fez de louco - como bem fazem os loucos - e agiu com dissimulação.

- Falai claro, pagão! - Disse Nero, enquanto puxava uma cadeira e tomava o copo de cerveja da minha mão.

Cedi minha bebida contrariado.

Honestamente, não sei ao certo o que ele quis dizer ao me chamar de pagão, afinal, eu era o único cristão sentado à nossa mesa. Porém, faço alguma idéia. Meu sexto sentido dizia que Nero planejava me deixar na mão na hora de pagar a conta do bar, pois tive a impressão que, para um imperador romano, ele parecia andar na pindaíba. Mas como quem já foi rei nunca perde a majestade, ele manteve a pose e, sem nenhum pudor, avançou sobre o meu sarapatel ao mesmo tempo em que pedia outra cerveja.

Mas ele dizia para eu falar claro e, de maneira cristalina, contei que sabia de sua paranóia incendiária. E tentei cozinhá-lo em fogo brando, a fim de evitar que as chamas de seus devaneios se espalhassem pelo Recife. Insisti que a cidade já tinha problemas demais e não precisava de outros.

Ele concordou comigo. E foi além. Mostrou conhecimento profundo sobre os problemas da cidade e reclamou, principalmente, da falta de segurança. Contou que, outro dia mesmo, tentaram roubar a sua toga de seda vermelha, enquanto ele estava parado com sua biga em um sinal de trânsito. Não fosse a brava atitude de seus cavalos, que reagiram a patadas, os ladrões seriam exitosos em seus intentos. E não ficou só nisso. Nero também apontou soluções práticas para conter a violência urbana, como a crucificação de todos os bandidos. “É ou não é uma boa maneira de reduzir a criminalidade?!”, perguntou com satisfação.

De questões sociais e políticas, passamos a conversar amenidades. Nero mostrou-se um bom garfo e pediu, às minhas expensas, umas tripinhas fritas e um arrumadinho de carne de sol, o qual qualificou de “obra-prima da culinária contemporânea”. Em seguida, comeu sozinho uma buchada de bode e entornou algumas lapadas de cana. Foi nesse ponto que ele tentou subir à mesa para dançar ula-ula - o imperador romano ainda não conhecia o frevo - e me deu bastante trabalho para conter o seu entusiasmo.

Mas a bebida não trouxe apenas contratempos. Os goles de cachaça serviram também para deixar o imperador mais à vontade, o que me permitiu compreender, ainda que minimamente, a sua mente atormentada.

Percebi que Nero havia sido criado com muito mimo por Agripina, sua mãe. Tanto assim que ele perseguiu implacavelmente os cristãos, porque eles implicavam com a sua peruca e lançavam boatos maldosos sobre a masculinidade imperial. E foi justamente por ter a virilidade contestada, por causa de uma cabeleira postiça, que Nero pôs fogo em dois terços de Roma. Não por acaso, sobraram apenas o seu palácio e uma loja de próteses capilares, cujo principal cliente era o próprio imperador.

Depois disso, com medo de ser assassinado, Nero fugiu para Porto de Galinhas, onde abriu uma pousada. Mas, ironicamente, quis o destino que um incêndio destruísse todo o seu patrimônio, deixando a salvo apenas a peruca. A polícia até hoje suspeita que o fogo tenha sido provocado.

Sensibilizado com sua história, encaminhei o imperador a Freud, um amigo psiquiatra e gozador que possui um consultório em Intermares e atende aos mais loucos pacientes, apenas por diversão.

Depois de pagar a conta e antes de ir embora, ofereci a Nero uma garrafa da melhor cachaça e desejei-lhe boa sorte. Ele agradeceu e permaneceu sentado, se lambuzando com uma generosa mão de vaca.

Somente no dia seguinte, soube do incêndio no Mercado da Boa Vista. Algumas testemunhas afirmam ter visto, poucos minutos antes das chamas se propagarem, um homem fantasiado de romano carregando um coquetel Molotov feito com uma garrafa de cachaça. Temi ser envolvido no crime. Por precaução, nunca mais pus os pés no mercado.

Finalmente, na semana passada, eu recebi uma notificação judicial de um processo movido por Freud contra mim. Ainda não sei ao certo, mas há rumores que seu consultório em Intermares também foi destruído por um incêndio. Dizem que o principal suspeito trajava uma toga de seda vermelha sobre uma túnica branca. Parece que o paciente reagiu de maneira inflamada quando o psiquiatra classificou a peruca como um símbolo de desconstrução da virilidade masculina. Há controvérsias.

Quanto a mim, acredito que, onde há fumaça, há fogo!

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Adeus, meu pai, adeus!

Cabeça de homem velho: Cândido Portinari
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Romaria (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Trim! Trim! Trim!

Acordei bastante sonolento e tateei por sobre a mesinha de cabeceira até achar o despertador. Num só golpe, desliguei o alarme e o empurrei para dentro da gaveta do criado-mudo. E como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.

Naquele momento, ignorei solenemente a promessa que fizera na noite anterior. Seria o meu primeiro dia de trabalho após as férias e tinha dito a mim mesmo que tornaria a ser pontual. A minha frouxidão com a disciplina do relógio era fruto de seguidas decepções profissionais. E a minha promessa era fruto de um desejo de voltar a ser o que já fui.

Toc! Toc! Toc!

Deitada e de costas para mim, minha esposa me tocou e disse que alguém batia à porta. No piloto automático, levantei da cama, peguei o relógio e olhei as horas. “Seis da manhã?!”, disse em voz alta, estranhando o horário em que alguém chegava a minha casa. Perguntei se ela esperava alguém, mas a resposta veio sonolenta e negativa. Sem alternativas, molhei o rosto, vesti um roupão e fui atender à porta, enquanto minha esposa voltava a dormir.

Toc! Toc! Toc!

Um pouco mais desperto, me dirigi à sala e, antes de espiar pelo olho mágico, me ajeitei no roupão. Aproximei-me da porta, fechei o olho direito e com o esquerdo tentei ver quem estava do outro lado. Não vi ninguém. Perguntei quem era, mas não obtive resposta. Mas antes que voltasse para o quarto, ouvi um choro baixo vindo do lado de fora. Por um instante, pensei que se tratava do vizinho. Abri então a porta intrigado e tomei um susto ao dar de cara com o meu pai no hall da entrada. Sentado no chão com os braços em torno do joelho e o rosto voltado para baixo, ele chorava um choro aflito.

Preocupado, abaixei-me em seu socorro e perguntei-lhe o que havia acontecido ao mesmo tempo em que observava se ele estava ferido. Meu pai não respondeu, nem parou de chorar. Parecia em choque. Com muito custo, levantei-o do chão e o levei para dentro do apartamento.

Desde a morte da minha mãe, há alguns anos, andávamos afastados um do outro. Foi um rompimento definitivo depois de uma vida inteira conturbada. Quando criança, fui criado por mãos severas, por vezes, até demais. Disciplinador ao seu modo, meu pai me surrava duramente sempre que eu transgredia alguma de suas regras. Às vezes, ele me dava palmadas nas mãos com um tamanco de madeira; noutras, me batia com um cinturão. E era preciso suportar a dor em silêncio, pois ele sempre dizia que homem que é homem não chora.

No início, minha mãe tentava impedi-lo, mas acabava apanhando também. Com o tempo, se trancava no quarto e chorava sozinha, enquanto eu era castigado. Ainda hoje, guardo no corpo e na alma as marcas daqueles dias.

Por toda a minha vida, nunca havia visto meu pai chorar. E agora estava ele, diante de mim, chorando feito uma criança.

Convidei-o a sentar e esperei que ele recuperasse o fôlego. Em seguida, ofereci-lhe um copo d’água, para tentar acalmá-lo, mas ele não quis. Meu pai não dizia coisa com coisa até me olhar nos olhos e me pedir perdão. Percebi então que a sua aflição também era por mim. Era como se, de súbito, ele despertasse e me enxergasse com de fato eu era: seu único filho. E eu era agora tudo o que restava de sua família. Não sei dizer o que o fez mudar. Talvez ele estivesse acertando as contas com o passado em busca de um pouco de paz no presente.

Vi estampado em seu rosto o arrependimento e entendi que as minhas palavras seriam a única coisa capaz de trazer-lhe algum conforto. Senti aquele momento e o abracei com emoção. Depois, enxuguei seu rosto, beijei a sua testa e disse que o amava. Choramos abraçados por alguns instantes até que se esgotassem todas as lágrimas.

Ficamos conversando durante um tempo e não paramos nem mesmo quando o telefone tocou. Preferi deixar que minha esposa atendesse a ligação do nosso quarto. Depois, chamei-o para um café, mas ele recusou. Disse que precisava ir. Acompanhei meu pai até a porta e nos despedimos com um forte abraço.

Quando voltei ao quarto para contar as novidades, encontrei minha esposa com lágrimas nos olhos. Fui em sua direção, segurei sua mão e perguntei o que havia acontecido. Ela acariciou o meu rosto e anunciou a morte do meu pai. Um amigo informou por telefone que ele sofrera uma parada cardíaca, que fora socorrido, mas falecera tão logo chegou ao hospital. Morreu às seis horas da manhã, o mesmo horário em que alguém batia à minha porta.

Contestei a notícia. Disse então que não podia ser e contei que estivera com ele ainda a pouco, em nosso próprio apartamento. Estava claro que se tratava de um engano. Por isso, interfonei para a portaria, mas não havia sinais ou registros de sua passagem pela entrada do prédio. Ainda sem acreditar, liguei para o hospital e uma enfermeira confirmou o óbito. Parti para fazer o reconhecimento do corpo e o fiz, mesmo confuso.

Demorei para aceitar sua morte, pois sabia que estivemos juntos naquela manhã inexplicável.

Hoje, em tempos tão distantes daquele dia, já não tenho mais certeza do que aconteceu. Talvez eu tivesse criado uma fantasia em torno de sua morte para aceitar que já não era mais possível a reconciliação com meu pai em vida. Talvez fosse duro demais vê-lo partir, deixando para trás tantas feridas abertas.

Mesmo assim, me conforta saber que, ainda que tudo tenha se passado na minha imaginação, em meu coração eu fiz as pazes com o meu pai. E torço para que ele, em algum momento de sua vida, ou mesmo de sua morte, também tenha feito as pazes comigo.

E já não guardo mágoas no peito e posso senti-lo com um amor infinito, igual ao amor que todo filho sente por seu pai. Pude enfim perdoá-lo e agora posso deixá-lo ir em paz. Adeus, meu pai, adeus!

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Casa de avó

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Eis que reencontro Mariana Prado, amiga de tempos idos e agora vindos. Dela, tenho boas recordações. Da aluna exemplar, do carinho com todos e da simplicidade sempre presente.

Hoje, adulta, Mariana mantém intactas as mesmas características de outrora, dando a entender que o tempo passou para ela com serenidade.

Em meio à felicidade do reencontro, veio imediatamente à lembrança a menina-poetisa, que escrevia e escrevia e nos brindava com a beleza de seus versos.

Mariana ainda escreve, mesmo que casualmente. Por isso, tomei a liberdade de convidá-la a publicar alguns de seus versos aqui no Estradar. E começo com uma poesia feita ainda na sua adolescência que ressalta bem a simplicidade e beleza de suas palavras.

Mariana, seja bem-vinda!

Dimas Lins


Casa de avó

Mariana Prado

Casa de avó é como santuário:
Não se mexe.
A mesa de canto fica no canto,
Geladeira não se fala em trocar.

Quando a manhã chega
Traz com ela um vento frio
Que invade o quarto pela réstia de luz
Através da janela ainda fechada
E deixa no ar uma sensação
De que o dia vai ser bom, muito bom.

Casa de avó é assim:
Em nada deveria mudar.

Depois que escurece,
Antes o entardecer
Com um tom violeta,
Quanta estrela pra contar.
O zumbido das cigarras
E o silêncio que se faz
Não me traz pensamentos,
Nem bons nem ruins,
Só a plenitude de se sentir seguro.

A hora da novena é sagrada,
Mulheres e homens devotos
Num fervor de crença sem fim.
Eleva o espírito e o corpo descansa, em paz.

A porteira se abre trazendo meus pais
E a alegria transborda pelos olhos,
Que são mais que espelho da alma,
Absorvem e emanam luz.

Então ouço quando dizem - é hora de dormir.
E só consigo pensar
Que amanhã será bom, muito bom.

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Diário da motocicleta

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Redescobrir - Elis Regina (Gonzaguinha)

Dimas Lins

Vasculho na memória e encontro vestígios da minha infância. São lembranças de um passado distante que guardam a marca dos dias difíceis e do dinheiro contado. Mas também são, principalmente, registros de tempos felizes.

Sempre que me lembro do Bairro de São José, sinto no peito uma nostalgia que me faz perder um pouco da dureza da alma. E se minha alma tornou-se rija, peço-lhes que compreendam que ela assim o fez movida pelos pequenos golpes diários sofridos durante a minha jornada e que terminaram por forjar o homem que sou hoje, com todos os defeitos e virtudes.

Mas volto aos meus tempos de criança. Lembro das minhas perambulações pelo velho bairro e dos amigos que fiz. Ah, que saudade da escola, dos colegas de turma e de todos os professores que tive! Por onde andarão a minha primeira namorada e os meus primeiros amigos de verdade? E se muitos deles ficaram pelo caminho, certamente jamais se perderam em meu coração.

Nas ruas de São José, brincava de coisas simples. Jogava garrafão, barra-bandeira e futebol. Na minúscula Praça do Pirulito, fazia torneios de bolas-de-gude e ferrinho. E quando o Forte das Cinco Pontas fechou, passei a brincar de polícia e ladrão por lá, quase que diariamente. Infelizmente, o tempo acabou deixando poucos refúgios para a criançada do bairro que, mais à frente, perderia o espaço para o intenso vai-e-vem de pessoas, cada vez mais atraídas pelo comércio varejista.

Em casa, eu tinha quase nenhum brinquedo. E os que tinha geralmente eram herança dos irmãos mais velhos. Por isso, quando estava sozinho, encontrava diversão na base do improviso. No meu universo infantil, caixas de fósforos se transformavam em jogadores de futebol e dominós, em bonecos.

Em algumas ocasiões, eu brincava na casa dos amigos. E confesso aqui que sentia uma ponta de inveja quando via aquela montanha de brinquedos espalhados pelo chão. Tentava aproveitar o máximo, pois sabia que na volta para casa não haveria tantos assim.

Recordo-me bem de um dia em particular. Foi quando caí em tentação. Como o coração sente o que os olhos vêem, aproveitei a distração de um amiguinho para colocar em meu bolso uma pequena motocicleta. Em seu quarto, havia tantos brinquedos que achei que não teria mal algum em levar um deles comigo. Certamente o dono não sentiria falta de um entre tantos.

Cheguei a minha casa ansioso. Rapidamente corri para o meu quarto e coloquei a motocicleta roubada entre a grade da cama e o colchão. Não poderia deixá-la a mostra, afinal, como explicar de onde viera o novo brinquedo?

Por isso, minha alegria não durou um único dia. Cada vez que ia ao quarto e olhava a motocicleta, meu coração disparava. Sabia que tinha feito algo errado. Mas só ali, escondido como um criminoso, entendi o que realmente havia feito. E com o passar das horas, o sentimento de culpa tornou-se insuportável.

Percebi-me um ladrão, um pequeno criminoso. Daquele momento em diante, estaria eu perdido para sempre num mundo sem honra. E desonraria também meu pai e minha mãe, envergonharia meus irmãos, perderia a confiança dos amigos e a fé em mim mesmo. E certamente, ao seguir por caminhos tão perigosos, tornar-me-ia um pária.

- Lá vai o ladrãozinho! - diria um.

- Olha lá o pequeno salafrário! - diria outro.

À noite, tive dificuldades para dormir. Reprovava o meu ato e atormentava o meu juízo. Encontrei-me enfim rodeado por mil assombrações, por causa de uma motocicleta de pouco mais de cinco centímetros.

Na manhã seguinte, achei por bem contar a verdade ao dono do brinquedo roubado. Porém, diante dele e de sua sincera amizade, não tive coragem. Era agora, além de ladrão, um covarde. Na hora da verdade, muitos correm. E eu também corri. Ainda assim, sabia que o brinquedo deveria retornar ao seu verdadeiro dono. Por isso, restou-me apenas esperar o momento oportuno. E um dia, esse momento chegou.

Numa tarde qualquer, recebi um novo convite para brincar em sua casa. Coloquei a motocicleta em meu bolso e fui ter com a verdade. Resgataria enfim a minha dignidade. E, tal qual ocorreu no dia do roubo, aproveitei um momento de distração do meu anfitrião e misturei a motocicleta a outros brinquedos. Ele nem chegou a perceber. Foi como se ela nunca tivesse saído de sua casa. Melhor assim. Aliviado, reencontrei a minha paz.

E hoje, quando olho para trás, percebo a lição valiosa que aprendi naqueles dias. Melhor contentar-se com o que possui a cobiçar o que não lhe pertence. Muito melhor.

E ficou em mim, nos dias de minha infância, a lição marcante de que é mesmo verdade que o crime não compensa.

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