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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 7 de abril de 2008, às 0:00h

Diário da motocicleta

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Redescobrir - Elis Regina (Gonzaguinha)

Dimas Lins

Vasculho na memória e encontro vestígios da minha infância. São lembranças de um passado distante que guardam a marca dos dias difíceis e do dinheiro contado. Mas também são, principalmente, registros de tempos felizes.

Sempre que me lembro do Bairro de São José, sinto no peito uma nostalgia que me faz perder um pouco da dureza da alma. E se minha alma tornou-se rija, peço-lhes que compreendam que ela assim o fez movida pelos pequenos golpes diários sofridos durante a minha jornada e que terminaram por forjar o homem que sou hoje, com todos os defeitos e virtudes.

Mas volto aos meus tempos de criança. Lembro das minhas perambulações pelo velho bairro e dos amigos que fiz. Ah, que saudade da escola, dos colegas de turma e de todos os professores que tive! Por onde andarão a minha primeira namorada e os meus primeiros amigos de verdade? E se muitos deles ficaram pelo caminho, certamente jamais se perderam em meu coração.

Nas ruas de São José, brincava de coisas simples. Jogava garrafão, barra-bandeira e futebol. Na minúscula Praça do Pirulito, fazia torneios de bolas-de-gude e ferrinho. E quando o Forte das Cinco Pontas fechou, passei a brincar de polícia e ladrão por lá, quase que diariamente. Infelizmente, o tempo acabou deixando poucos refúgios para a criançada do bairro que, mais à frente, perderia o espaço para o intenso vai-e-vem de pessoas, cada vez mais atraídas pelo comércio varejista.

Em casa, eu tinha quase nenhum brinquedo. E os que tinha geralmente eram herança dos irmãos mais velhos. Por isso, quando estava sozinho, encontrava diversão na base do improviso. No meu universo infantil, caixas de fósforos se transformavam em jogadores de futebol e dominós, em bonecos.

Em algumas ocasiões, eu brincava na casa dos amigos. E confesso aqui que sentia uma ponta de inveja quando via aquela montanha de brinquedos espalhados pelo chão. Tentava aproveitar o máximo, pois sabia que na volta para casa não haveria tantos assim.

Recordo-me bem de um dia em particular. Foi quando caí em tentação. Como o coração sente o que os olhos vêem, aproveitei a distração de um amiguinho para colocar em meu bolso uma pequena motocicleta. Em seu quarto, havia tantos brinquedos que achei que não teria mal algum em levar um deles comigo. Certamente o dono não sentiria falta de um entre tantos.

Cheguei a minha casa ansioso. Rapidamente corri para o meu quarto e coloquei a motocicleta roubada entre a grade da cama e o colchão. Não poderia deixá-la a mostra, afinal, como explicar de onde viera o novo brinquedo?

Por isso, minha alegria não durou um único dia. Cada vez que ia ao quarto e olhava a motocicleta, meu coração disparava. Sabia que tinha feito algo errado. Mas só ali, escondido como um criminoso, entendi o que realmente havia feito. E com o passar das horas, o sentimento de culpa tornou-se insuportável.

Percebi-me um ladrão, um pequeno criminoso. Daquele momento em diante, estaria eu perdido para sempre num mundo sem honra. E desonraria também meu pai e minha mãe, envergonharia meus irmãos, perderia a confiança dos amigos e a fé em mim mesmo. E certamente, ao seguir por caminhos tão perigosos, tornar-me-ia um pária.

- Lá vai o ladrãozinho! - diria um.

- Olha lá o pequeno salafrário! - diria outro.

À noite, tive dificuldades para dormir. Reprovava o meu ato e atormentava o meu juízo. Encontrei-me enfim rodeado por mil assombrações, por causa de uma motocicleta de pouco mais de cinco centímetros.

Na manhã seguinte, achei por bem contar a verdade ao dono do brinquedo roubado. Porém, diante dele e de sua sincera amizade, não tive coragem. Era agora, além de ladrão, um covarde. Na hora da verdade, muitos correm. E eu também corri. Ainda assim, sabia que o brinquedo deveria retornar ao seu verdadeiro dono. Por isso, restou-me apenas esperar o momento oportuno. E um dia, esse momento chegou.

Numa tarde qualquer, recebi um novo convite para brincar em sua casa. Coloquei a motocicleta em meu bolso e fui ter com a verdade. Resgataria enfim a minha dignidade. E, tal qual ocorreu no dia do roubo, aproveitei um momento de distração do meu anfitrião e misturei a motocicleta a outros brinquedos. Ele nem chegou a perceber. Foi como se ela nunca tivesse saído de sua casa. Melhor assim. Aliviado, reencontrei a minha paz.

E hoje, quando olho para trás, percebo a lição valiosa que aprendi naqueles dias. Melhor contentar-se com o que possui a cobiçar o que não lhe pertence. Muito melhor.

E ficou em mim, nos dias de minha infância, a lição marcante de que é mesmo verdade que o crime não compensa.

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