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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Diário da motocicleta

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Redescobrir - Elis Regina (Gonzaguinha)

Dimas Lins

Vasculho na memória e encontro vestígios da minha infância. São lembranças de um passado distante que guardam a marca dos dias difíceis e do dinheiro contado. Mas também são, principalmente, registros de tempos felizes.

Sempre que me lembro do Bairro de São José, sinto no peito uma nostalgia que me faz perder um pouco da dureza da alma. E se minha alma tornou-se rija, peço-lhes que compreendam que ela assim o fez movida pelos pequenos golpes diários sofridos durante a minha jornada e que terminaram por forjar o homem que sou hoje, com todos os defeitos e virtudes.

Mas volto aos meus tempos de criança. Lembro das minhas perambulações pelo velho bairro e dos amigos que fiz. Ah, que saudade da escola, dos colegas de turma e de todos os professores que tive! Por onde andarão a minha primeira namorada e os meus primeiros amigos de verdade? E se muitos deles ficaram pelo caminho, certamente jamais se perderam em meu coração.

Nas ruas de São José, brincava de coisas simples. Jogava garrafão, barra-bandeira e futebol. Na minúscula Praça do Pirulito, fazia torneios de bolas-de-gude e ferrinho. E quando o Forte das Cinco Pontas fechou, passei a brincar de polícia e ladrão por lá, quase que diariamente. Infelizmente, o tempo acabou deixando poucos refúgios para a criançada do bairro que, mais à frente, perderia o espaço para o intenso vai-e-vem de pessoas, cada vez mais atraídas pelo comércio varejista.

Em casa, eu tinha quase nenhum brinquedo. E os que tinha geralmente eram herança dos irmãos mais velhos. Por isso, quando estava sozinho, encontrava diversão na base do improviso. No meu universo infantil, caixas de fósforos se transformavam em jogadores de futebol e dominós, em bonecos.

Em algumas ocasiões, eu brincava na casa dos amigos. E confesso aqui que sentia uma ponta de inveja quando via aquela montanha de brinquedos espalhados pelo chão. Tentava aproveitar o máximo, pois sabia que na volta para casa não haveria tantos assim.

Recordo-me bem de um dia em particular. Foi quando caí em tentação. Como o coração sente o que os olhos vêem, aproveitei a distração de um amiguinho para colocar em meu bolso uma pequena motocicleta. Em seu quarto, havia tantos brinquedos que achei que não teria mal algum em levar um deles comigo. Certamente o dono não sentiria falta de um entre tantos.

Cheguei a minha casa ansioso. Rapidamente corri para o meu quarto e coloquei a motocicleta roubada entre a grade da cama e o colchão. Não poderia deixá-la a mostra, afinal, como explicar de onde viera o novo brinquedo?

Por isso, minha alegria não durou um único dia. Cada vez que ia ao quarto e olhava a motocicleta, meu coração disparava. Sabia que tinha feito algo errado. Mas só ali, escondido como um criminoso, entendi o que realmente havia feito. E com o passar das horas, o sentimento de culpa tornou-se insuportável.

Percebi-me um ladrão, um pequeno criminoso. Daquele momento em diante, estaria eu perdido para sempre num mundo sem honra. E desonraria também meu pai e minha mãe, envergonharia meus irmãos, perderia a confiança dos amigos e a fé em mim mesmo. E certamente, ao seguir por caminhos tão perigosos, tornar-me-ia um pária.

- Lá vai o ladrãozinho! - diria um.

- Olha lá o pequeno salafrário! - diria outro.

À noite, tive dificuldades para dormir. Reprovava o meu ato e atormentava o meu juízo. Encontrei-me enfim rodeado por mil assombrações, por causa de uma motocicleta de pouco mais de cinco centímetros.

Na manhã seguinte, achei por bem contar a verdade ao dono do brinquedo roubado. Porém, diante dele e de sua sincera amizade, não tive coragem. Era agora, além de ladrão, um covarde. Na hora da verdade, muitos correm. E eu também corri. Ainda assim, sabia que o brinquedo deveria retornar ao seu verdadeiro dono. Por isso, restou-me apenas esperar o momento oportuno. E um dia, esse momento chegou.

Numa tarde qualquer, recebi um novo convite para brincar em sua casa. Coloquei a motocicleta em meu bolso e fui ter com a verdade. Resgataria enfim a minha dignidade. E, tal qual ocorreu no dia do roubo, aproveitei um momento de distração do meu anfitrião e misturei a motocicleta a outros brinquedos. Ele nem chegou a perceber. Foi como se ela nunca tivesse saído de sua casa. Melhor assim. Aliviado, reencontrei a minha paz.

E hoje, quando olho para trás, percebo a lição valiosa que aprendi naqueles dias. Melhor contentar-se com o que possui a cobiçar o que não lhe pertence. Muito melhor.

E ficou em mim, nos dias de minha infância, a lição marcante de que é mesmo verdade que o crime não compensa.

5 Comentários

  1. André Tricolor Virtual 7 de abril de 2008, às 13:13h

    Que BLZ de texto “Dimas”, realmente a felicidade está no fato de nos contentarmos com o que temos, pois se agirmos de forma arbritária, só vamos atrair para nós a INFELICIDADE!

    Às vezes me recordo do tempo de criança, adolescente, coo era bom as brincadeiras, o futebolzinho no meio da rua … Adorava quando ‘veraneava’ lá em Pitimbú, passávamos um mês inteiro só de lazer, íamos para praia cedinho, voltávamos ao meio dia pro almoço, discansávamos um pouco e retornávamos à praia voltando só às 17h, no finalzinho da tarde com o corpo bronziado, aquela sede … A tarde sempre rolava àquele cochilo, a preocupação era apenas de ‘aproveitar o dia’, paquerar as meninas, sair pra mata pra pegar frutas, sentir o sol bater no rosto, admirar o horizonte, o vento arrepiando os cabelos … Outro momento de extrema alegria era ás noites de lua cheia, que iluminava o mar, andavamos pela beira mar, íamos a praça ver gente … Tudo era tão simples, tranquilo e fica sempre em nossa cabeça o quanto VALE aproveitar cada instante de nossas vidas, pois tudo é passageiro, é transitório, porém em nossa memória fica sempre as RECORDAÇÕES!

    Abraços pra vc meu amigo !!!!

  2. André Tricolor Virtual 7 de abril de 2008, às 13:14h

    *arbitrária

  3. Sirley 7 de abril de 2008, às 13:17h

    que saudades da minha infância… quase todos nos já passamos por situações parecidas, acredito, também tive valiosas lições em realação a isso que escreveste…
    um grande abraço e belo texto.

  4. josias de paula jr. 8 de abril de 2008, às 20:31h

    Experiência comum, contada com emoção. Senti a mesma coisa, num dia em que roubei bombons do fiteiro do colégio… Oxalá sentíssemos todos tal estado de alma.

  5. Ana Cláudia 10 de abril de 2008, às 16:07h

    Meu roubo foi vergonhoso também. E o pior é que foi flagrado. Roubei um saquinho de bolas de aniversário pq minha tia pediu para que eu ajudasse a encher e, antes de cumprir minha missão, minha paciência foi pro brejo. Escondi o último saquinho e fui dormir. Quando acordei, o saquinho não estava mais lá… Minha tia descobriu. Nunca conversamos sobre isso. O bom (tudo tem um lado bom) é que nunca mais minha tia me chamou para ajudar a soprar bolas… hehehe.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos