Casa de avó

Eis que reencontro Mariana Prado, amiga de tempos idos e agora vindos. Dela, tenho boas recordações. Da aluna exemplar, do carinho com todos e da simplicidade sempre presente.
Hoje, adulta, Mariana mantém intactas as mesmas características de outrora, dando a entender que o tempo passou para ela com serenidade.
Em meio à felicidade do reencontro, veio imediatamente à lembrança a menina-poetisa, que escrevia e escrevia e nos brindava com a beleza de seus versos.
Mariana ainda escreve, mesmo que casualmente. Por isso, tomei a liberdade de convidá-la a publicar alguns de seus versos aqui no Estradar. E começo com uma poesia feita ainda na sua adolescência que ressalta bem a simplicidade e beleza de suas palavras.
Mariana, seja bem-vinda!
Dimas Lins
Casa de avó
Mariana Prado
Casa de avó é como santuário:
Não se mexe.
A mesa de canto fica no canto,
Geladeira não se fala em trocar.
Quando a manhã chega
Traz com ela um vento frio
Que invade o quarto pela réstia de luz
Através da janela ainda fechada
E deixa no ar uma sensação
De que o dia vai ser bom, muito bom.
Casa de avó é assim:
Em nada deveria mudar.
Depois que escurece,
Antes o entardecer
Com um tom violeta,
Quanta estrela pra contar.
O zumbido das cigarras
E o silêncio que se faz
Não me traz pensamentos,
Nem bons nem ruins,
Só a plenitude de se sentir seguro.
A hora da novena é sagrada,
Mulheres e homens devotos
Num fervor de crença sem fim.
Eleva o espírito e o corpo descansa, em paz.
A porteira se abre trazendo meus pais
E a alegria transborda pelos olhos,
Que são mais que espelho da alma,
Absorvem e emanam luz.
Então ouço quando dizem - é hora de dormir.
E só consigo pensar
Que amanhã será bom, muito bom.


