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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 14 de abril de 2008, às 0:00h

Adeus, meu pai, adeus!

Cabeça de homem velho: Cândido Portinari
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Romaria (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Trim! Trim! Trim!

Acordei bastante sonolento e tateei por sobre a mesinha de cabeceira até achar o despertador. Num só golpe, desliguei o alarme e o empurrei para dentro da gaveta do criado-mudo. E como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.

Naquele momento, ignorei solenemente a promessa que fizera na noite anterior. Seria o meu primeiro dia de trabalho após as férias e tinha dito a mim mesmo que tornaria a ser pontual. A minha frouxidão com a disciplina do relógio era fruto de seguidas decepções profissionais. E a minha promessa era fruto de um desejo de voltar a ser o que já fui.

Toc! Toc! Toc!

Deitada e de costas para mim, minha esposa me tocou e disse que alguém batia à porta. No piloto automático, levantei da cama, peguei o relógio e olhei as horas. “Seis da manhã?!”, disse em voz alta, estranhando o horário em que alguém chegava a minha casa. Perguntei se ela esperava alguém, mas a resposta veio sonolenta e negativa. Sem alternativas, molhei o rosto, vesti um roupão e fui atender à porta, enquanto minha esposa voltava a dormir.

Toc! Toc! Toc!

Um pouco mais desperto, me dirigi à sala e, antes de espiar pelo olho mágico, me ajeitei no roupão. Aproximei-me da porta, fechei o olho direito e com o esquerdo tentei ver quem estava do outro lado. Não vi ninguém. Perguntei quem era, mas não obtive resposta. Mas antes que voltasse para o quarto, ouvi um choro baixo vindo do lado de fora. Por um instante, pensei que se tratava do vizinho. Abri então a porta intrigado e tomei um susto ao dar de cara com o meu pai no hall da entrada. Sentado no chão com os braços em torno do joelho e o rosto voltado para baixo, ele chorava um choro aflito.

Preocupado, abaixei-me em seu socorro e perguntei-lhe o que havia acontecido ao mesmo tempo em que observava se ele estava ferido. Meu pai não respondeu, nem parou de chorar. Parecia em choque. Com muito custo, levantei-o do chão e o levei para dentro do apartamento.

Desde a morte da minha mãe, há alguns anos, andávamos afastados um do outro. Foi um rompimento definitivo depois de uma vida inteira conturbada. Quando criança, fui criado por mãos severas, por vezes, até demais. Disciplinador ao seu modo, meu pai me surrava duramente sempre que eu transgredia alguma de suas regras. Às vezes, ele me dava palmadas nas mãos com um tamanco de madeira; noutras, me batia com um cinturão. E era preciso suportar a dor em silêncio, pois ele sempre dizia que homem que é homem não chora.

No início, minha mãe tentava impedi-lo, mas acabava apanhando também. Com o tempo, se trancava no quarto e chorava sozinha, enquanto eu era castigado. Ainda hoje, guardo no corpo e na alma as marcas daqueles dias.

Por toda a minha vida, nunca havia visto meu pai chorar. E agora estava ele, diante de mim, chorando feito uma criança.

Convidei-o a sentar e esperei que ele recuperasse o fôlego. Em seguida, ofereci-lhe um copo d’água, para tentar acalmá-lo, mas ele não quis. Meu pai não dizia coisa com coisa até me olhar nos olhos e me pedir perdão. Percebi então que a sua aflição também era por mim. Era como se, de súbito, ele despertasse e me enxergasse com de fato eu era: seu único filho. E eu era agora tudo o que restava de sua família. Não sei dizer o que o fez mudar. Talvez ele estivesse acertando as contas com o passado em busca de um pouco de paz no presente.

Vi estampado em seu rosto o arrependimento e entendi que as minhas palavras seriam a única coisa capaz de trazer-lhe algum conforto. Senti aquele momento e o abracei com emoção. Depois, enxuguei seu rosto, beijei a sua testa e disse que o amava. Choramos abraçados por alguns instantes até que se esgotassem todas as lágrimas.

Ficamos conversando durante um tempo e não paramos nem mesmo quando o telefone tocou. Preferi deixar que minha esposa atendesse a ligação do nosso quarto. Depois, chamei-o para um café, mas ele recusou. Disse que precisava ir. Acompanhei meu pai até a porta e nos despedimos com um forte abraço.

Quando voltei ao quarto para contar as novidades, encontrei minha esposa com lágrimas nos olhos. Fui em sua direção, segurei sua mão e perguntei o que havia acontecido. Ela acariciou o meu rosto e anunciou a morte do meu pai. Um amigo informou por telefone que ele sofrera uma parada cardíaca, que fora socorrido, mas falecera tão logo chegou ao hospital. Morreu às seis horas da manhã, o mesmo horário em que alguém batia à minha porta.

Contestei a notícia. Disse então que não podia ser e contei que estivera com ele ainda a pouco, em nosso próprio apartamento. Estava claro que se tratava de um engano. Por isso, interfonei para a portaria, mas não havia sinais ou registros de sua passagem pela entrada do prédio. Ainda sem acreditar, liguei para o hospital e uma enfermeira confirmou o óbito. Parti para fazer o reconhecimento do corpo e o fiz, mesmo confuso.

Demorei para aceitar sua morte, pois sabia que estivemos juntos naquela manhã inexplicável.

Hoje, em tempos tão distantes daquele dia, já não tenho mais certeza do que aconteceu. Talvez eu tivesse criado uma fantasia em torno de sua morte para aceitar que já não era mais possível a reconciliação com meu pai em vida. Talvez fosse duro demais vê-lo partir, deixando para trás tantas feridas abertas.

Mesmo assim, me conforta saber que, ainda que tudo tenha se passado na minha imaginação, em meu coração eu fiz as pazes com o meu pai. E torço para que ele, em algum momento de sua vida, ou mesmo de sua morte, também tenha feito as pazes comigo.

E já não guardo mágoas no peito e posso senti-lo com um amor infinito, igual ao amor que todo filho sente por seu pai. Pude enfim perdoá-lo e agora posso deixá-lo ir em paz. Adeus, meu pai, adeus!

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