Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Onde há fumaça, há fogo!

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Pegando fogo - Gal Costa (José Maria de Abreu/Francisco Mattoso)

Dimas Lins

Encontrei Nero perambulando pelo Mercado da Boa Vista, em Recife. Na realidade, foi ele quem me achou. Talvez tivesse sido atraído pelo cheiro, já que eu degustava um delicioso sarapatel - iguaria sem igual e verdadeiro manjar dos deuses.

O fato é que eu tomava um gole da minha cerveja, quando ele surgiu de repente e perguntou se eu tinha fogo. Sabedor de seus hábitos incendiários, imaginei o perigo que havia por trás de suas palavras. No susto, quase cuspi todo o conteúdo amarelo-ouro em sua cara, mas consegui manter o líquido em baixa fermentação na boca, evitando assim um constrangimento histórico.

Chamei-o pelo nome, para deixar claro que o conhecia, e perguntei se não lhe bastava a bobagem de ter posto fogo em Roma. Ele se fez de louco - como bem fazem os loucos - e agiu com dissimulação.

- Falai claro, pagão! - Disse Nero, enquanto puxava uma cadeira e tomava o copo de cerveja da minha mão.

Cedi minha bebida contrariado.

Honestamente, não sei ao certo o que ele quis dizer ao me chamar de pagão, afinal, eu era o único cristão sentado à nossa mesa. Porém, faço alguma idéia. Meu sexto sentido dizia que Nero planejava me deixar na mão na hora de pagar a conta do bar, pois tive a impressão que, para um imperador romano, ele parecia andar na pindaíba. Mas como quem já foi rei nunca perde a majestade, ele manteve a pose e, sem nenhum pudor, avançou sobre o meu sarapatel ao mesmo tempo em que pedia outra cerveja.

Mas ele dizia para eu falar claro e, de maneira cristalina, contei que sabia de sua paranóia incendiária. E tentei cozinhá-lo em fogo brando, a fim de evitar que as chamas de seus devaneios se espalhassem pelo Recife. Insisti que a cidade já tinha problemas demais e não precisava de outros.

Ele concordou comigo. E foi além. Mostrou conhecimento profundo sobre os problemas da cidade e reclamou, principalmente, da falta de segurança. Contou que, outro dia mesmo, tentaram roubar a sua toga de seda vermelha, enquanto ele estava parado com sua biga em um sinal de trânsito. Não fosse a brava atitude de seus cavalos, que reagiram a patadas, os ladrões seriam exitosos em seus intentos. E não ficou só nisso. Nero também apontou soluções práticas para conter a violência urbana, como a crucificação de todos os bandidos. “É ou não é uma boa maneira de reduzir a criminalidade?!”, perguntou com satisfação.

De questões sociais e políticas, passamos a conversar amenidades. Nero mostrou-se um bom garfo e pediu, às minhas expensas, umas tripinhas fritas e um arrumadinho de carne de sol, o qual qualificou de “obra-prima da culinária contemporânea”. Em seguida, comeu sozinho uma buchada de bode e entornou algumas lapadas de cana. Foi nesse ponto que ele tentou subir à mesa para dançar ula-ula - o imperador romano ainda não conhecia o frevo - e me deu bastante trabalho para conter o seu entusiasmo.

Mas a bebida não trouxe apenas contratempos. Os goles de cachaça serviram também para deixar o imperador mais à vontade, o que me permitiu compreender, ainda que minimamente, a sua mente atormentada.

Percebi que Nero havia sido criado com muito mimo por Agripina, sua mãe. Tanto assim que ele perseguiu implacavelmente os cristãos, porque eles implicavam com a sua peruca e lançavam boatos maldosos sobre a masculinidade imperial. E foi justamente por ter a virilidade contestada, por causa de uma cabeleira postiça, que Nero pôs fogo em dois terços de Roma. Não por acaso, sobraram apenas o seu palácio e uma loja de próteses capilares, cujo principal cliente era o próprio imperador.

Depois disso, com medo de ser assassinado, Nero fugiu para Porto de Galinhas, onde abriu uma pousada. Mas, ironicamente, quis o destino que um incêndio destruísse todo o seu patrimônio, deixando a salvo apenas a peruca. A polícia até hoje suspeita que o fogo tenha sido provocado.

Sensibilizado com sua história, encaminhei o imperador a Freud, um amigo psiquiatra e gozador que possui um consultório em Intermares e atende aos mais loucos pacientes, apenas por diversão.

Depois de pagar a conta e antes de ir embora, ofereci a Nero uma garrafa da melhor cachaça e desejei-lhe boa sorte. Ele agradeceu e permaneceu sentado, se lambuzando com uma generosa mão de vaca.

Somente no dia seguinte, soube do incêndio no Mercado da Boa Vista. Algumas testemunhas afirmam ter visto, poucos minutos antes das chamas se propagarem, um homem fantasiado de romano carregando um coquetel Molotov feito com uma garrafa de cachaça. Temi ser envolvido no crime. Por precaução, nunca mais pus os pés no mercado.

Finalmente, na semana passada, eu recebi uma notificação judicial de um processo movido por Freud contra mim. Ainda não sei ao certo, mas há rumores que seu consultório em Intermares também foi destruído por um incêndio. Dizem que o principal suspeito trajava uma toga de seda vermelha sobre uma túnica branca. Parece que o paciente reagiu de maneira inflamada quando o psiquiatra classificou a peruca como um símbolo de desconstrução da virilidade masculina. Há controvérsias.

Quanto a mim, acredito que, onde há fumaça, há fogo!

3 Comentários

  1. Ana Cláudia 22 de abril de 2008, às 9:47h

    Camarada,

    trago notícias frescas do seu amigo Nero. Após o incêndio em Intermares, ele refugiou-se em Tambaba. Passou três dias e três noites em meditação, sem o cuidado de passar protetor solar. Queimou-se severamente.

    Voltando a Recife ele procurou você, Dimas, para contar que finalmente havia compreendido a história dele, seus traumas, sua viadagem. Percebeu, graças à ajuda do Freud da Paraíba (primo de Zé Ramalho da Paraíba), que não era Madonna - estava mais para Priscila, a Rainha do Deserto. Percebeu também que precisava investir seriamente na sua realização profissional, e pretende montar o primeiro crematório recifense.

    Para completar o seu tratamento fez uma terapia de regressão e descobriu que, em vidas passadas, ele não teve vidas passadas. E anteriormente a todas as suas vidas não passadas, ele havia sido uma mera célula eucariótica - taí, portanto, a explicação de seu trauma e de sua mania de tocar fogo nas coisas dos outros: trata-se de um complexo caso de Complexo de Golgi.

    Com tantas descobertas e tantos planos, está se sentindo cheio de fogo no rabo. Dimas, sem querer você salvou Nero. Evoé!

  2. André Tricolor Virtual 23 de abril de 2008, às 20:29h

    … “Ana”, o “Dimas” realmente salvou “Nero”, inclusive o convidou para passar as festas juninas em Serra Negra! Ele ficará responsável em acender a fogueira !!!! Como tá chovendo muito lá na Paraíba, acredito que o fogo foi logo contido no consultório do nosso amigo “Freud” .

    Abraços !!!!

  3. josias de paula jr. 24 de abril de 2008, às 10:04h

    Depois de bêbado ainda tocar fogo! Imperdoável. E mais, usar a cachaça?! Esse Nero é louco mesmo.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos