Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 24 de abril de 2008, às 18:15h

As horas

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Pela Internet (Gilberto Gil)

Dimas Lins

As horas passam devagar e eu batuco inquieto na mesinha do computador. Minha mulher estranha o barulho e vem ver se algum maracatu, por engano, não entrou em nosso apartamento. Como não havia sinais de carnaval em nenhum dos cantos da casa, sou forçado pelas circunstâncias a dar explicações sobre a minha euforia, já que estou parado em frente ao computador olhando para uma tela vazia.

Explico que minha euforia vem da ansiedade. É que aguardo a estréia do novo Estuário do jornalista, escritor e tricolor Samarone Lima. Digo que a qualquer momento o blog entrará no ar e que eu quero ser o primeiro a ter o prazer de vê-lo surgir em grande estilo. E conto orgulhoso que a ansiedade vem acompanhada de uma grande satisfação, vez que tive alguma participação na mudança de ares do Estuário.

Contente com a notícia, minha esposa resolve então sentar-se ao meu lado para, junto comigo, esperar que o blog dê o ar de sua graça. Embora prefira a solidão na hora da leitura, me aperto na cadeira e aceito de bom grado a sua companhia.

Mas nem bem me acomodo e já sou interrompido pelo toque da campainha, sempre descabida em horas inoportunas. Como minha esposa está grávida, parto com passos largos em direção à porta para ver quem é. E respiro aliviado ao ver a sua irmã chegar, pois sei que as duas certamente se distrairão jogando fora algumas conversas miúdas. Assim, eu, generoso que sou, abrirei mão da sua companhia para ter de volta a solidão da tela do computador.

Qual o quê. Sou pego de surpresa quando minha cunhada, ao saber da novidade, também decide esperar pela estréia. E não bastasse a contrariedade de ter perdido de vez a possibilidade de uma leitura sossegada, ainda sou obrigado a ceder o meu lugar, como bom cavalheiro que sou.

Agora estou em pé e com a visão atrapalhada pelas damas sentadas à minha frente. Mas antes que eu encontre a posição adequada para enxergar melhor a tela do computador, minha esposa, contagiada pelo clima de cinema em casa, me pede carinhosamente para fazer uma pipoca. E nem dá para dizer que não, pois ela aponta para a sua barriguinha e diz que é desejo provocado pela gravidez. Com a chantagem emocional, me dou por vencido e decido satisfazer sua vontade.

Mas nem bem começam a estourar os primeiros grãos de milho, meu vizinho bate a porta atraído pelo cheiro. E eu, achando pouco a situação, ainda dou com a língua nos dentes e entrego de bandeja que a pipoca é por conta da reestréia do blog de Samarone.

Em poucos minutos, meu apartamento está tomado de gente trazida pelo vizinho penetra. E tal é a confusão que até o síndico bate à minha porta para reclamar. Diz que havia chamado a polícia, mas, ao saber o motivo da balbúrdia, decidiu ficar. E a polícia, por sua vez, que entrou sem bater, ficou também, como ficaram todos aqueles que apareceram movidos pela curiosidade. E havia tanta gente que já não era possível permanecer em minha própria casa.

Por isso, tomo a escada do edifício e dou de cara com uma fila de gente subindo para o meu apartamento. Na rua, a cidade parece deserta e não é difícil imaginar aonde foram todos.

Depois de caminhar um pouco, finalmente encontro uma lan house. Não há ninguém por perto, nem mesmo o dono. Escolho um computador e espero pacientemente que o navegador da internet seja carregado. E ele abre. E finalmente surge diante de mim o que eu queria ver. Bonito e elegante, mas com a simplicidade de sempre.


Para Samarone, escritor das coisas mínimas e desnecessárias.

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