Depois das duas horas

A internet talvez seja a melhor coisa da globalização. Num segundo, distâncias deixam de existir e permitem encontros antes impossíveis de acontecer.
E foi a internet e a afinidade com a literatura que trouxe Kalina ao Estradar.
Kalina Paiva é natural do Rio Grande do Norte e professora por opção. Ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, que ela chama de “dar aula de palavras”. Especialista em Educação e mestranda em Literatura Comparada, Kalina também é pesquisadora do GEICA, um núcleo de pesquisa da UFRN. Ela ainda vai além. Colabora com alguns jornais locais, vez por outra, e é autora fixa de Verborrágicos! - um blog literário interessantíssimo que ela assina junto com outros quatro amigos.
Kalina tem 30 anos bem vividos, segunda ela mesma, é casada e tem dois filhos. E nos conta que, no dia em que parar de escrever, é porque os céus de misturaram à terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a faces das águas.
À Kalina, obrigado pela colaboração; e à internet, por permitir este intercâmbio.
Kalina Paiva
Tenho uma dúvida grande até hoje sem respostas: será que eu existi em algum momento? Essa questão é profunda demais. Não estou nem um pouco a fim de pensar, de formular hipóteses, só queria curtir uma dor/prazer diferente de tudo que já vivi e que a vida, pela primeira vez, não pode me oferecer.
Há dois meses, estou sem o toque dele. Naquela noite que completava os tais dois meses, acordei ofegante, depois das duas da manhã, após ouvir um barulho lá fora. Fora de mim… sai. Também, pudera, o dia me massacrou terrivelmente. A vida me massacra terrivelmente poro a poro, palmilhando minhas olheiras quase crateras de uns dias mal dormidos. Desconfio que a pessoa que eu era já não está mais aqui nem voltará.
Perdi a paciência de olhar para o espelho e ouvir dele que o tempo está passando. Não gosto de advertências e esse espelho falante me soa como ameaça. Não tenho outras escolhas: ou sepultarei o espelho ou a mim mesma. Há quem possa contra o relógio? Pior mesmo é agüentar o cúmplice do tempo: esse espelho grotesco.
Peguei um punhado de livros de auto-ajuda e eles têm sempre o mesmo discurso de que é necessário lutar, blá, blá, blá… mas onde estavam as minhas forças, senão escondidas num baú velho e empoeirado? Tentei colocar todas as minhas angústias em escritos que ninguém vai ler porque arremessarei para bem longe essa escrita comum e patética das coisas tão cotidianas, das coisas que eram e são uma cutilada em meu ego feminino. A morte, paulatinamente, parece mais doce e infinitamente agradável.
Dias antes, estava com o corpo em brasas, quando ouvi uma canção antiga que me fazia lembrar um perfume adocicado de forma tão intensa que, ao passar uma leve brisa pela minha nuca, senti calafrios. Era algo pós-mundo. Não dá para explicar ao certo. Mexia com as minhas vísceras ao mesmo tempo em que misturava saudades e diálogos premeditados, ensaiados, que não iam acontecer… Não estava completamente sozinha, pois havia um vinho chileno em minha geladeira tão normal, tão caseira, tão fim de mês… o vinho e uns queijos. E só. O que me falta então? O vinho chileno exala um aroma doce e isso já era o bastante para me fazer rememorar coisas que não escolhi lembrar.
Ah, como lembrei… mas a minha memória tinha que estragar tudo e então senti que os fatos do dia fremiam em meu cérebro: contas, filhos, contas, solidão, corre-corre, contas, cobrança do relógio, sussurro do desejo, trabalho, mais contas e a interdição de todas as coisas que queria fazer. Era muita coisa e nada ao mesmo tempo. Como pode? Não estudei para administrar paradoxos, no entanto acabou sendo o meu ofício.
Talvez, eu esteja passando por um processo de arrefecimento que alguns arriscariam chamar de maturidade. Na verdade, decidi deixar de lado as sentimentalidades como quem abandona um cão no meio do caminho, sem olhar para trás, sem deixar rastros de uma convivência cúmplice, acostumada, cachorra.
É por essas e outras coisas que tenho que escrever: para não enlouquecer. Sobressaltada, escrevi e arremessei, escrevi mais e arremessei mais longe ainda. Pensei nos jornais, nas revistas, nos livros, em todas as formas de comunicação escrita que não me valem de nada, absolutamente nada. As palavras fogem de mim como o diabo da cruz. Nem valeria a pena, pois a dor é inevitável e inclassificável o tamanho do estrago que as palavras provocam, pois tudo se resume a um vazio sem precedente aqui dentro de mim. Para isso não há palavras nem sistema de medidas. Será querer demais fazer algo diferente? Meu Deus, não me condene, nasci católica antes mesmo de ser um indivíduo do sexo feminino, mas sei o que fazer com o livre-arbítrio que me foi ofertado em toda a sua plenitude. Agora, quero dele gozar.
Sinceramente? Pensar sobre a própria existência se assemelha a uma experiência vodu! O que eu poderia fazer além de rir? Ri de tudo, de todos, de mim e da estupidez das palavras. Rio porque não posso rir sempre. Meu riso é vigiado. Se eu permitir que estranhos conheçam meu riso, assinarei minha sentença de interdição perpétua até mesmo do próprio riso, única coisa que nasceu comigo e que sei que me pertencerá nesta vida ou na próxima, se existir próxima vida.
Depois de tanto pensar, deixei tudo para trás, peguei o carro e dirigi nas retas mais curvas da minha vida. Sai disposta a experimentar a velocidade como quem descobre o prazer sexual pela primeira vez. Ávida pelo prazer, assim explorei todos os sentidos do carro. Livre de pudores e sentimentalidades, de perfumes adocicados, do ser que me deixou por escolha e sem motivos, dos ofícios, experimentei voar de braços abertos. Livre de tudo, de todos e do cinto, caindo, caindo, caindo, embalei o mundo às avessas, à minha maneira, naquele penhasco sem fim. Fiquei com muita raiva porque a última coisa que pensei foi naquele odor vinícola que sempre me atraiu, embora eu odeie fragrâncias adocicadas. Enquanto isso, o carro voava, desprovido de órgãos de vôos. Só então senti uma pontada traspassando as minhas costelas, atravessando meus músculos, rasgando a minha pele. A dor foi tão intensa que pensei que estava sendo partida ao meio. E isso só alimentou a minha fúria, conduzindo-me pelos caminhos mais estranhos do prazer, por isso, lasciva e automaticamente, acelerei o carro. O carro não aumentaria a velocidade da queda, é claro, mas é que quando sentimos dor, desejamos tê-la completa e intensa, de uma só vez. Agora, sim, posso dizer o que é viver.
16 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Leitora desde infância, poucas vezes li textos tão reais, tão cheios de sentimentos vivenciais, que provocam uma sensação de que, é fato, existem pessoas capazes de entrar no nosso ser mesmo a distância… Amiga, parabéns pelas suas obras! Fico Feliz que nossos alunos são/serão, intensamente, apaixonados pelas palavras…
Textos que passam emoção pelas palavras são poucos, e é tão bom quando encontro um com o qual me identifico. Não, não tem nada de EMO nesse texto. rs É sentimento, e mesmo que as palavras não o tenham, elas podem transmiti-lo. Obrigada por fazer com que eu me apaixonasse mais ainda pelas palavras. Você é única, Kalina!
Belo texto “Kalina Paiva”, parabéns, e aí vivemos e morremos a cada dia … !!!!
EMBREAGAI-VOS
É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
(Baudelaire)
O vinho, o maior dos zombadores, nos entorpece, nos anuvia o pensamento, nos torna ridículos e sequiosos ébrios; o vinho é doce e faz a vida valer à pena. Não sei qual o efeito do vinho chileno de uma boa safra, não posso dizer que tenho o requinte de um apreciador do fruto da videira, do mijo de Baco, mas posso dizer que o vinho já foi um bom companheiro em noites solitárias e até meu melhor encorajador nas noites de boa companhia, quando a timidez me abandonava sem cerimónia.
Seu texto é de uma belaza tão tocante que me fez sentir vontade de sentir sua dor, de sentir todas as dores do mundo e então saber o que é viver. Minha reflexão sobre a literatura é a de quem sofre as dores dos que são escolhidos para o ofício, para o sacerdócio de serem escritores. Aqueles que, como em agonias de um parto, partem rumo aos seus interiores mais recôndidos e lá nas profundezas de seu ser, encontram a essência humana e trasformam-na em palavras universais, concebendo-na como o torpor do vinho, que nos faz viver e morrer muitas vezes. Embreaguemo-nos, então!
Lindo texto, muito emocionante e cheio de muitas emoções… Mesmo sendo do tipo manteiga derretida, são poucos os textos com que sinto tanta emoção…esse texto fez com que eu parasse e pensasse nessas questões sobra a vida que realmente nos pegam de surpresa, nos deixando perdidos no tempo e no espaço. As palavras têm um poder muito grande em todos os sentidos. Nesse texto, você utilizou um jogo de palavras que meche com nossas emoções de uma forma que nos leva a chorar.
Amei o teu texto. E que esses dias em que parece que não sabemos nada sobre nós mesmos tragam consigo as mais lindas interpretações do que seja a vida!
Que as respostas que tanto buscamos não nos faça sentir tão pequenos diante do grande mistério que é a vida!
È muito difícil nós acharmos textos com palavras que demostram tanta emoção sincera quanto este!
Com Kalina eu abrir a minha cabeça para o mundo da leitura ( literatura ) pois ela me ensinou com o seu exemplo!
Eu adimiro muito a forma com que você lida com as palavras , pois a partir de um texto como esse é que nós observamos que você coloca sentimento em tudo o que faz , que escreve! Isso que enrriquece você , e o seu trabalho maravilhoso!
Eu tenho orgulho de ser sua aluna!
Ainda lembro das nossas aulas de literatura e de como você conduzia os seminários, apesar de toda as dificuldades. Mesmo com uma criança bem pequenina na sala de aula, seu filho, em um carrinho de bebê, você dava um show.
Não estava errada em meus pensamentos em relação a ti. Hoje, mais do que nunca, eu sei disso!
E o meu desejo é que essa força nunca se acabe e que o seu caminho seja próspero e iluminado.
Parabéns Kaliníssima.
Será que estou viva?
Você está viva… nós estamos… porque amamos viver.
Kaliníssima você está de parabéns… em outro vocabulário… “você é uma viagem”! rsrs!
GOstei também do de Dimas… tudo muito lindo e encantador.
Um grande beijo da prima que tem orgulho de ter teu sangue.
És inteligente e admirável.
Valeu, Kalina, gostei de seu ímpeto bem urdido em forma de texto. De algum modo relembrei sua leitura dramática de Raquel Jardim.
Belíssimo texto! Com um profundo erotismo, no sentido maior que ele possui. E também a experiência da vida passando pela dor…. Mutio bom texto.
Parabéns!
Vejo o tema de um conflito existencial abordado de modo objetivo,direto,como se fosse um desabafo.Interessante que o tema é abordado de um plano surrealista, do surrreal para o real.Algumas imagens usadas me chamam a atenção.O espelho,(a consciencia, nosso mais poderoso e inflexível juiz), O vinho,(que nos leva a alcançar a liberdade, como o vôo da águia) foi felicíssima ao usar a figura do vinho, e outras explicitadas em frases.De mãos dadas com a crise,voce valoriza e enaltece a figura feminina.”fora de mim…”"não estudei para …”
talvez a crise tenha tido sua origem no conflito do mundo feminino(emoção, sensibilidade,esperança,etc)com o mundo material,desprovido dessas virtudes.”é por essas e outras coisas que tenho de escrever…” demonstra o plano superior em que se encontra, o livro representa toda a figura feminina,além do conhecimento,e por aí voce vai…
A figura do carro à embriagues do vinho, revelam o uso do livre-arbítrio(citado)e termina na cena da morte, que para mim representa não o fim, a desistencia ou a covardia da fuga diante de obstáculos, representa sim, a conquista plena da Liberdade.
Raramente fico sem palavras mas esta foi uma delas.
Parabens pela forma magnifica como se exprime…
Adorei!
Gostei muito do seu texto porque retrata sentimentos veridicos e situaçoes que sao vuneraveis à qualquer um.
porem,a diferença que observei no texto foi justamente,a sua falcudade de expressar de forma clara e objetiva suas emoçoes.
O que dizer dessa maravilhosa escritora?
Simplesmente é um texto tocante, profundo, com alma própria.
Kallina como sempre você continua arrasando. bjo.
Kalina, sabes que te admiro pelas palavras. Não há necessidade de reafirmar isso. Já bebi algumas coisas. Tua pessoa é-me velha conhecida.
Adorei o texto. Quando sai o livro??
Voce tem muito talento para isso, espero que um dia possa ver seu nome em um livro de sucesso.
Continuo esperando…Vai chegar o dia.