Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 29 de maio de 2008, às 0:00h

Terceira infância

Conheço Cláudia há tempos. Quinze anos, pelo menos. Sou amigo e compadre de seu irmão. Aliás, já escrevi sobre ele em uma de minhas primeiras crônicas no Estradar. A crônica chama-se Canção da despedida e o amigo e compadre, Arnaldo.

Mas falo de Cláudia. Posso dizer, sem nenhum exagero, que eu a redescobri há pouco mais de um ano. Foi quando tomei conhecimento de seu antigo blog Diário de uma Adoradora, que ela, aliás, abandonou no dia 01 de maio de 2007.

Felizmente, Cláudia sempre foi irrequieta e rapidamente criou o Ninho dA’Ninha, onde ela trata de coisas tão diversas quanto poesia, política, cotidiano e doideira. Muita doideira.

Eu, é claro, vou lá diariamente beber um pouco da sua perspicácia. De seus textos, inclusive, já saíram alguns motes para meus contos e crônicas.

À Cláudia, um beijo carinhoso e um agradecimento pela canja.

Dimas


Ana Cláudia

“Doutor, olha essas bolhinhas que apareceram no meu braço, de ontem para hoje”. Ele olhou, olhou… Mandou que eu sentasse, examinou com olhar de curiosidade. Parecia não estar acreditando em alguma coisa que eu nem suspeitava que fosse. Mandou abrir a boca. “Ahhhhhh”. Como quem teme ser acusado de tarado, irritantemente hesitante, pediu para que eu levantasse “um pouco” a blusa para ele avaliar as bolhas que já começavam a invadir costas e barriga. Tirei logo a blusa toda.

- Um minuto, eu já volto.

Coloquei a blusa de novo e fiquei esperando. Quando o médico voltou, vinha carregando um colega. “Esse é meu colega. Ele é pediatra, você se importa que ele lhe examine?”. “Hein? Ser examinada por um pediatra? Claro que não me importo! Isso vai fazer bem ao meu currículo”, respondi. Aos 37 ser examinada por um pediatra? Hahaha… Eu sempre disse ter alma de criança.

Foi engraçado ver a cara do pediatra examinando as bolhas ante o olhar incrédulo do clínico. O pediatra parecia estar enxergando, em cada uma delas, o Santo Graal. Maravilhado (médico é esquisito!), ele abre um sorriso largo ao clínico e diz que as suspeitas dele estavam certas: a paciente (euzinha) está com catapora.

- Tá coçando?

- Um pouco.

- Começou quando?

- Ontem à tarde comecei a coçar o braço, mas as bolhas só apareceram agora de manhã.

- Catapora. Isso é catapora. Teve febre?

- Não.

- Bota o termômetro nela.

Lá vem o cheio-de-dedos quase tendo um troço porque teria que colocar o termômetro (obviamente) por baixo de minha blusa.

Enquanto passava o tempo do termômetro, expliquei ao pediatra já ter tido catapora na infância, e pelo que eu sabia, catapora só dá uma vez.

- Você está certa, catapora só dá uma vez. Então você está tendo pela primeira vez agora.

- Não senhor, eu já tive na infância. Peraí, minha mãe (que estava na sala de espera) pode confirmar para o senhor.

Ao meu chamado, entrou a família quase inteira no consultório. Todos confirmaram minha catapora na, digamos assim, primeira infância. E mais: meu irmão mais velho já teve catapora três vezes. Fomos ridicularizados pelos médicos. Para eles, das outras vezes foram feitos diagnósticos errados. E aí, como é que eu posso provar que eu tive o que eles dizem que eu não tive, tanto tempo passado? Sou um objeto de estudo da medicina, e os dois plantonistas dispensando esse material. Paciência.

O pediatra se foi, a família foi dispensada, voltei a ficar a sós com o clínico. Ele pediu então para examinar novamente minhas costas, e eu nem esperei ele pedir para levantar um pouco a blusa. Tirei. Olhou, olhou, cutucou e disse que eu poderia colocar a blusa. “E a perna, tem bolhas nas pernas?”. “Hum… pouquinho. Acho que tá começando a estourar agora, quando eu saí de casa não tinha nenhuma”. “Eu poderia…”, “Sim, sim, claro”. E desci a calça até o chão. Hahaha… O médico não sabia se chegava perto ou corria - bom, nem sou tão gostosa assim nem tão horrível assim. Acho que a timidez dele é que causou aquela suadeira.

Pois é, o fato é que estou com catapora. Dessa vez, exigi o exame que comprove a suspeita, para esfregar na cara do próximo pediatra em caso de reincidência. Será que vou chegar aos 50 sendo examinada por pediatra?

PS: acho um desperdício ficar doente quando você não precisa cumprir horário. A única vantagem de ficar doente na “terceira infância” é o atestado médico para justificar a falta ao trabalho. Infantilidade? Oras, estou com catapora, você queria o quê?

Ana Cláudia Nogueira é jornalista e escreve periodicamente no Ninho dA’Ninha, seu blog pessoal.

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Mar adentro

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É doce morrer no mar (Dorival Caymmi)

Dimas Lins

Lançar-me-ei ao mar. Arremessarei meu corpo do penhasco mais alto que houver e, ao cortar o vento, descreverei um pequeno arco até colidir com o oceano.

Ao tocar em suas águas, não pedirei clemência nem lutarei por mim. Ao contrário, provocarei a sua impaciência movendo freneticamente braços e pernas deixando que ondas furiosas me empurrem para baixo.

Submerso, meu corpo franzino permitirá ao mar beber-me em pequenos goles. Não resistirei. Deixar-me-ei sorver lentamente e de suas águas beberei também. Gritarei com furor para que, por minha boca, passe todo o sal. Inundarei meus pulmões e asfixiarei a saudade de um amor tragado pelo oceano.

E se de mim o mar for piedoso e tentar me levar de volta à superfície, agarrar-me-ei aos corais até que o fim aconteça.

Só assim meu corpo flutuará sem vida e eu estarei em paz.

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Trapézio

Josias, meu dileto amigo Geó, já esteve antes no Estradar. Entretanto, nas ocasiões anteriores ele apareceu como inspiração para as crônicas Conversando na mesa do bar e Vocação.

Agora ele volta. Mas volta como de fato é: um poeta de grande sensibilidade e valor. E, talvez por isso, eu economize as minhas palavras, para rapidamente dar vez às suas.

A Geó, o abraço de sempre.

 Dimas

 

Josias de Paula Jr.


Solto no incerto,

salta.

Mãos no vazio,

nada por chão.

Antes do encontro esperado

e redentor,

um salto mortal.

Seria ilusão de vista

o ato do trapezista?

Voa,

ausente de tato.

Perfaz um arco descendente,

cai -

descuidado qual estrela cadente?

Seguem segundos,

surdos.

Frêmitos mudos.

A vida jogada ao acaso,

sustida pelo hábito.

Tocam-se mão e madeira: aplausos.

Segue o show, muda-se o palco.

 

Na platéia, eu, com a alma contida,

Percebi no espetáculo minha vida.

Josias de Paula Jr. é sociólogo e escreve para o Inscritos em Pedra, seu blog pessoal.

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Cisco no olho

 


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Olhozinho - Rita Ribeiro (Zeca Baleiro)


Dimas Lins

Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.

 Renato Russo

Não gosto da solidão. Tenho medo da solidão. Tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado. Tenho medo de não ter quem chore por mim, quando eu der o meu derradeiro suspiro.

Não bastasse a infinita tristeza em meu peito, passei boa parte do fim de semana com um cisco no olho esquerdo. No começo, achei que fosse uma bobagem, um grânulo qualquer. Por isso, não dei a atenção merecida. Mais tarde, a dor intensa e pulsante me obrigaria a mudar a atitude.

Já era madrugada do domingo, quando reconheci que não dava mais para ignorar a sensação de arranhão na córnea. Enfim, levantei da cama e segui para o banheiro disposto a retirar o cisco e acabar com o sofrimento.

Como primeiro recurso, abri um vão entre a pálpebra e o globo ocular, para deixar escapar o corpúsculo infiltrado em meu olho. Não adiantou. Em seguida, gotejei soro fisiológico sobre a superfície irritada, mas isso também não funcionou. Já cansado, resolvi mergulhar o olho em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado, mas o cisco persistiu.

O sol já visitava a minha varanda, quando joguei todas as fichas numa última tentativa. Ocorreu-me que, se eu chorasse, o fragmento invasor talvez pudesse ser expelido pelas lágrimas. Bastava me concentrar em algo muito triste que a secreção límpida, incolor e salgada faria o resto. Pensaria em minha solidão, que sequer me permitia ter alguém por perto para soprar o meu olho num momento assim.

O choro veio fácil. Difícil mesmo foi conter as lágrimas depois. Contudo, o cisco permaneceu onde estava. Pior. A dor aumentou e a sensação incômoda passou também para o olho direito. Não sabia que um cisco poderia se espalhar de um olho para o outro, como uma doença contagiosa. Talvez esse tenha sido o primeiro caso na história da medicina.

Não quis mais arriscar. Dei-me, enfim, por vencido e resolvi seguir para alguma emergência oftalmológica.

Quando cheguei ao hospital, não havia mais ninguém, além dos funcionários. “Uma vez sozinho, sempre sozinho”, pensei. Ainda assim, não sei por qual motivo, tive que aguardar.

Já no consultório, a doutora mal me olhou nos olhos, o que achei um contra-senso, dada a sua especialidade médica. Ela parecia com sono e devia estar aborrecida por ter sido acordada no fim do seu plantão. Egoísta, pensei que minha dor vinha em primeiro lugar. Recusei, em seguida, julgar a mim mesmo como alguém que só pensa em si. “Já tenho sentimentos de culpa demais!”, sentenciei. Pois é. Não bastasse a solidão, ainda sofro com sentimentos de culpa. Por isso, nem bem se passaram alguns segundos e eu já havia reprovado meu pensamento, contraindo assim uma nova culpa, um novo tormento. Sou assim mesmo, sinto culpa até onde não há culpa para sentir.

Afetivamente carente e carregando um novo peso na minha mente conturbada, procurei diminuir a habitual distância entre médico e paciente. Busquei seu nome no crachá e tentei ser simpático, apesar dos olhos inchados.

- Leila! Bonito nome.

Ela sorriu apenas por educação e voltou às suas anotações. Por certo, estava mais preocupada em executar os procedimentos médicos de rotina, voltar para a cama e aguardar o fim de seu plantão. Talvez, em casa, tivesse um filho e um marido a sua espera. Por que haveria de perder seu tempo comigo? Eu, ao contrário, tinha apenas a solidão como companheira e me socializava não apenas por educação, mas por necessidade do espírito. Senti pena de mim mesmo por mendigar afeição numa emergência hospitalar.

Ela me conduziu à cadeira oftalmológica e pediu que eu encostasse o queixo no aparelho posicionado à minha frente. A doutora observou meus olhos e pareceu surpresa com o que viu. Perguntei se havia muitos grânulos e ela balançou a cabeça negativamente. Certamente havia algo em meus olhos, ela só pareceu espantada demais para dizer o que era.

Tive medo das possibilidades. A convivência com a solidão me deixou com pânico de doença, pois, como disse antes, tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado.

Olhos mais abertos pela superação do sono, a doutora tornou a observar meus globos oculares. Alguns minutos depois, ela levantou e me abraçou emocionada. Não disse uma palavra. Apenas me abraçou.

Chorei. Choramos. Perderia a vista, certamente. Quem sabe um câncer comeria meus olhos e depois se espalharia por todo o meu corpo. Apesar do medo, me senti reconfortado pela humanidade pouco usual de uma médica de plantão.

Enchi o peito de coragem e perguntei finalmente se ficaria cego. Ela disse que não. Morreria, talvez? Tive outra resposta negativa. Fiquei sem compreender.

De fato, tudo começou a ficar claro, quando ela começou a retirar os grânulos dos meus olhos. Em verdade, não eram ciscos, mas fragmentos da minha própria vida que estavam presos em minhas retinas. Cada pedaço retirado fazia surgir imagens da minha infância, adolescência e vida adulta.

Ri com algumas coisas e me entristeci com tantas outras. Reconheci a mim mesmo no menino inseguro, no rapazinho sem jeito com as mulheres e no homem solitário e infeliz. Vi meu casamento e minha separação se espalharem pelo consultório. Vi mais. Vi a última conversa que tive com a minha filha. A nossa briga, as palavras duras que dissemos um para o outro e a sua saída de casa. Dez anos de silêncio e solidão se passaram desde então.

A doutora passou as mãos pelos meus cabelos, como uma velha amiga, e me aconselhou a ligar para a minha filha. Enxuguei as lágrimas e peguei o telefone. Para mim, chegava o tempo do perdão.

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Grávida

Imagem: Vladstudio

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Grávida (Marina Lima)


Dimas Lins

- Os olhos são mesmo as janelas da alma! - Disse, enquanto admirava a coloração clara de sua íris.

Ela sorriu, como sempre sorri, quando começo a filosofar em vão.

- Menos que janelas! - Continuei. São rasgos, buracos, frestas que permitem a parte imortal do homem espiar toda essa danação que a gente vive do lado de cá!

Embora apresentasse um sorriso no rosto, minha esposa manteve-se em silêncio. Talvez não ousasse incentivar os devaneios de um filósofo circundante, pois sabia de antemão que eu daria tantas voltas quanto possíveis, sem me concentrar nos aspectos teleológicos da questão.

Eu conhecia bem o significado de seu sorriso, mas prossegui mesmo assim, vez que acho aprazível discutir coisas inúteis.

- E se os olhos são as janelas da alma, o que dizer então do útero, que acolhe o óvulo fecundado e depois o expulsa tão logo se dê como pronta a gestação?!

Ela achou graça e eu, cheio de entusiasmo, arrematei.

- Não resta dúvida! O útero é o elo entre a imortalidade do homem e a danação do mundo!

Minha esposa afrouxou de vez o sorriso e, em seguida, abdicou do silêncio.

- E o que seria a gravidez nisso tudo?

- Seria a alma vestindo a sua roupa, o corpo. Neste caso, o corpo funcionaria como um traje espacial necessário à sobrevivência da alma nesse mundo cão.

Pensei em gritar “Eureca!”, pois vi tudo claro como água, mas me contive.

Podia ser. Mas se eu enxergava a gravidez filosoficamente, ela, como mulher, a olhava com graciosidade e delicadeza. De seu ponto de vista, a gestação é o tempo onde se aprende a amar incondicionalmente.

Achei bonito, mas preferi deixar a metafísica de lado para me abraçar agora à ciência. Concluí o óbvio. Que cada célula do corpo da mulher está envolvida com a gravidez, enquanto o homem se liga ao feto apenas perifericamente. Por isso, a integração entre mãe e filho é tão perfeita. Já o pai… Bem, o pai sofre um pouco mais para conquistar a pessoinha que está para chegar.

Senti, é claro, uma pontinha de inveja. Mas logo esqueci de tudo quando a sua barriguinha mexeu. Ela então pôs minha mão sobre o seu ventre e sorriu, provavelmente pensando no amor incondicional.

Eu ainda fiquei divagando, perdido em filosofias inúteis. Depois voltei a mim e sorri também, porque no fundo o que importa mesmo é que nossa filha venha com saúde e seja feliz. Muito feliz.


Para Lena, com amor.

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Fragmentos da história da pintura

Ainda sem tempo, deixo um novo vídeo. A vida de trabalhador é dura e vou levando do jeito que dá. Estou com um texto quase pronto, mas ainda não tive como terminá-lo.

Por enquanto vamos assim.

Dimas

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