Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 5 de maio de 2008, às 19:00h

Ponto final

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Palavras do coração - Bruna Caram (Otávio Toledo/J.C. Costa Neto)

Dimas Lins

- Prefiro riscar a minha vida de uma vez, num fogo só - disse Diana.

E continuou.

- Escolho ser o brilho instantâneo de um fósforo queimando veloz, mas com a intensidade de um vulcão, do que o fogo baixo de um candeeiro, que demora uma eternidade para se apagar, mas não espalha uma luz vigorosa.

Ainda que soassem assim, em suas palavras não havia retórica. Elas continham a decisão de que era preciso viver a vida de outra maneira. Diana rejeitava agora insistir na construção de um casamento convencional, pois considerava que a rotina era como um veneno que se toma a conta-gotas.

Concordei. E não senti em suas palavras nenhum indício do fim de nós dois. Ao contrário, percebi que ela propunha a oportunidade de um recomeço, pois compreendia que não era eu que estava sendo rejeitado, mas a rotina. Diana apenas me oferecia a chance de afrouxar as rédeas da vida ao invés de mantê-las sob mãos firmes.

Ela apenas não queria ser escrava do trabalho nem do dinheiro e tampouco queria compromisso com os ponteiros do relógio. Desejava botar os pés na estrada e viver loucamente a aventura de sua vida.

Ela fez uma pausa e fixou os olhos nalgum ponto acima e à direita, como se buscasse algo.

- Quero viver uma vida bem-aventurada. Quero ser um viajante sem nacionalidade atravessando países sem fronteiras e, mesmo assim, me sentir no quintal da minha própria casa.

Diana gostava da idéia de levar a vida de um fôlego só, como se lesse os períodos longos de um texto de José Saramago. A questão era simples e estava posta: se a vida é curta, que seja intensa então.

Tentei manter a visão aberta e o coração atento, mas senti vertigens. Tive vontade de abrir um livro de Saramago e lê-lo sob outra perspectiva, trazendo-o para o mundo proposto por Diana. Como as circunstâncias não permitiam, percorri imaginariamente os períodos longos de um de seus romances. A intensidade das palavras me deu a impressão de que a vida vivida assim parecia ter apenas começo e meio. Além do mais, a espera ansiosa pelo ponto final me dava a sensação de que talvez o fim me espreitasse, soturno, numa esquina qualquer.

Embora a idéia, a princípio, passasse uma incomensurável sensação de liberdade, não me fascinava. Sou pragmático e imaginei a dureza de batalhar o pão de cada dia, a cada novo dia. Sou homem e, por ancestralidade, provedor. Tenho medo de viver sem provisões e de não prover. E mais. Achei que riscar a vida de uma vez se assemelharia também a tomar um frasco de veneno, mas de um gole só.

Não, decididamente não! Contaria com a necessidade quase visceral de colocar uma vírgula aqui e outra acolá, para dar um tempo de prestar atenção nas coisas. Preciso da vírgula, do ponto e vírgula e de todas as pausas.

Percebi então que não tinha medo do fim irremediável, da vida que cessa. Tinha medo das coisas irrecuperáveis e de não vê-las passar por mim. Tinha medo da ansiedade invevitável em esperar o ponto final.

Ela compreendeu a minha oração, mas achou que não se subordinava à sua e pôs um fim em nós dois.

Nota do autor1:

O Estradar passou por uma atualização forçada na versão do Wordpress, gerenciador de conteúdo do blog. Houve uma modificação substancial na forma de gerenciamento, embora isso não seja perceptível para o leitor.

Infelizmente, uma dessas modificações prejudicou a estética do blog, desalinhando o player do áudio. Neste texto específico, contornei a situação de forma tosca e provisória, mas o problema persiste. Dentro das minhas limitações, tentarei encontrar uma solução definitiva, para que o blog volte a ter uma estética a contento.

Por tudo, agradeço a compreensão de vocês.

Nota do autor2:

Com a intervenção valiosa do amigo e webdesigner Anizio Silva, conseguimos reestabelecer a estética musical do Estradar.

A Anizio, nosso muito obrigado.

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