Ponto final

Palavras do coração - Bruna Caram (Otávio Toledo/J.C. Costa Neto)
Dimas Lins
- Prefiro riscar a minha vida de uma vez, num fogo só - disse Diana.
E continuou.
- Escolho ser o brilho instantâneo de um fósforo queimando veloz, mas com a intensidade de um vulcão, do que o fogo baixo de um candeeiro, que demora uma eternidade para se apagar, mas não espalha uma luz vigorosa.
Ainda que soassem assim, em suas palavras não havia retórica. Elas continham a decisão de que era preciso viver a vida de outra maneira. Diana rejeitava agora insistir na construção de um casamento convencional, pois considerava que a rotina era como um veneno que se toma a conta-gotas.
Concordei. E não senti em suas palavras nenhum indício do fim de nós dois. Ao contrário, percebi que ela propunha a oportunidade de um recomeço, pois compreendia que não era eu que estava sendo rejeitado, mas a rotina. Diana apenas me oferecia a chance de afrouxar as rédeas da vida ao invés de mantê-las sob mãos firmes.
Ela apenas não queria ser escrava do trabalho nem do dinheiro e tampouco queria compromisso com os ponteiros do relógio. Desejava botar os pés na estrada e viver loucamente a aventura de sua vida.
Ela fez uma pausa e fixou os olhos nalgum ponto acima e à direita, como se buscasse algo.
- Quero viver uma vida bem-aventurada. Quero ser um viajante sem nacionalidade atravessando países sem fronteiras e, mesmo assim, me sentir no quintal da minha própria casa.
Diana gostava da idéia de levar a vida de um fôlego só, como se lesse os períodos longos de um texto de José Saramago. A questão era simples e estava posta: se a vida é curta, que seja intensa então.
Tentei manter a visão aberta e o coração atento, mas senti vertigens. Tive vontade de abrir um livro de Saramago e lê-lo sob outra perspectiva, trazendo-o para o mundo proposto por Diana. Como as circunstâncias não permitiam, percorri imaginariamente os períodos longos de um de seus romances. A intensidade das palavras me deu a impressão de que a vida vivida assim parecia ter apenas começo e meio. Além do mais, a espera ansiosa pelo ponto final me dava a sensação de que talvez o fim me espreitasse, soturno, numa esquina qualquer.
Embora a idéia, a princípio, passasse uma incomensurável sensação de liberdade, não me fascinava. Sou pragmático e imaginei a dureza de batalhar o pão de cada dia, a cada novo dia. Sou homem e, por ancestralidade, provedor. Tenho medo de viver sem provisões e de não prover. E mais. Achei que riscar a vida de uma vez se assemelharia também a tomar um frasco de veneno, mas de um gole só.
Não, decididamente não! Contaria com a necessidade quase visceral de colocar uma vírgula aqui e outra acolá, para dar um tempo de prestar atenção nas coisas. Preciso da vírgula, do ponto e vírgula e de todas as pausas.
Percebi então que não tinha medo do fim irremediável, da vida que cessa. Tinha medo das coisas irrecuperáveis e de não vê-las passar por mim. Tinha medo da ansiedade invevitável em esperar o ponto final.
Ela compreendeu a minha oração, mas achou que não se subordinava à sua e pôs um fim em nós dois.
Nota do autor1:
O Estradar passou por uma atualização forçada na versão do Wordpress, gerenciador de conteúdo do blog. Houve uma modificação substancial na forma de gerenciamento, embora isso não seja perceptível para o leitor.
Infelizmente, uma dessas modificações prejudicou a estética do blog, desalinhando o player do áudio. Neste texto específico, contornei a situação de forma tosca e provisória, mas o problema persiste. Dentro das minhas limitações, tentarei encontrar uma solução definitiva, para que o blog volte a ter uma estética a contento.
Por tudo, agradeço a compreensão de vocês.
Nota do autor2:
Com a intervenção valiosa do amigo e webdesigner Anizio Silva, conseguimos reestabelecer a estética musical do Estradar.
A Anizio, nosso muito obrigado.
3 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Nossa, Dimas, o texto é… posso ficar sem palavras desta vez? Só desta vez… Um abraço.
Dimas,
Da próxima vez que for me separar, ao invés de uma boa conversa com o ex, vou deixar teu texto para que ele leia. Camarada, você escreveu esplendorosamente algo que para mim soa tão pessoal, que me impede de comentar mais neste espaço. Mas prometo comentar por e-mail.
Parabéns, e obrigada.
Cláudia, o interessante é que a inspiração para esta crônica veio de um texto seu no Ninho da’Ninha. Fiz um comentário lá e depois achei que batucando poderia dar em samba.
Kalina, com ou sem palavras, sempre generosa.
Dimas