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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 15 de maio de 2008, às 0:00h

Grávida

Imagem: Vladstudio

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Grávida (Marina Lima)


Dimas Lins

- Os olhos são mesmo as janelas da alma! - Disse, enquanto admirava a coloração clara de sua íris.

Ela sorriu, como sempre sorri, quando começo a filosofar em vão.

- Menos que janelas! - Continuei. São rasgos, buracos, frestas que permitem a parte imortal do homem espiar toda essa danação que a gente vive do lado de cá!

Embora apresentasse um sorriso no rosto, minha esposa manteve-se em silêncio. Talvez não ousasse incentivar os devaneios de um filósofo circundante, pois sabia de antemão que eu daria tantas voltas quanto possíveis, sem me concentrar nos aspectos teleológicos da questão.

Eu conhecia bem o significado de seu sorriso, mas prossegui mesmo assim, vez que acho aprazível discutir coisas inúteis.

- E se os olhos são as janelas da alma, o que dizer então do útero, que acolhe o óvulo fecundado e depois o expulsa tão logo se dê como pronta a gestação?!

Ela achou graça e eu, cheio de entusiasmo, arrematei.

- Não resta dúvida! O útero é o elo entre a imortalidade do homem e a danação do mundo!

Minha esposa afrouxou de vez o sorriso e, em seguida, abdicou do silêncio.

- E o que seria a gravidez nisso tudo?

- Seria a alma vestindo a sua roupa, o corpo. Neste caso, o corpo funcionaria como um traje espacial necessário à sobrevivência da alma nesse mundo cão.

Pensei em gritar “Eureca!”, pois vi tudo claro como água, mas me contive.

Podia ser. Mas se eu enxergava a gravidez filosoficamente, ela, como mulher, a olhava com graciosidade e delicadeza. De seu ponto de vista, a gestação é o tempo onde se aprende a amar incondicionalmente.

Achei bonito, mas preferi deixar a metafísica de lado para me abraçar agora à ciência. Concluí o óbvio. Que cada célula do corpo da mulher está envolvida com a gravidez, enquanto o homem se liga ao feto apenas perifericamente. Por isso, a integração entre mãe e filho é tão perfeita. Já o pai… Bem, o pai sofre um pouco mais para conquistar a pessoinha que está para chegar.

Senti, é claro, uma pontinha de inveja. Mas logo esqueci de tudo quando a sua barriguinha mexeu. Ela então pôs minha mão sobre o seu ventre e sorriu, provavelmente pensando no amor incondicional.

Eu ainda fiquei divagando, perdido em filosofias inúteis. Depois voltei a mim e sorri também, porque no fundo o que importa mesmo é que nossa filha venha com saúde e seja feliz. Muito feliz.


Para Lena, com amor.

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