Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Grávida

Imagem: Vladstudio

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Grávida (Marina Lima)


Dimas Lins

- Os olhos são mesmo as janelas da alma! - Disse, enquanto admirava a coloração clara de sua íris.

Ela sorriu, como sempre sorri, quando começo a filosofar em vão.

- Menos que janelas! - Continuei. São rasgos, buracos, frestas que permitem a parte imortal do homem espiar toda essa danação que a gente vive do lado de cá!

Embora apresentasse um sorriso no rosto, minha esposa manteve-se em silêncio. Talvez não ousasse incentivar os devaneios de um filósofo circundante, pois sabia de antemão que eu daria tantas voltas quanto possíveis, sem me concentrar nos aspectos teleológicos da questão.

Eu conhecia bem o significado de seu sorriso, mas prossegui mesmo assim, vez que acho aprazível discutir coisas inúteis.

- E se os olhos são as janelas da alma, o que dizer então do útero, que acolhe o óvulo fecundado e depois o expulsa tão logo se dê como pronta a gestação?!

Ela achou graça e eu, cheio de entusiasmo, arrematei.

- Não resta dúvida! O útero é o elo entre a imortalidade do homem e a danação do mundo!

Minha esposa afrouxou de vez o sorriso e, em seguida, abdicou do silêncio.

- E o que seria a gravidez nisso tudo?

- Seria a alma vestindo a sua roupa, o corpo. Neste caso, o corpo funcionaria como um traje espacial necessário à sobrevivência da alma nesse mundo cão.

Pensei em gritar “Eureca!”, pois vi tudo claro como água, mas me contive.

Podia ser. Mas se eu enxergava a gravidez filosoficamente, ela, como mulher, a olhava com graciosidade e delicadeza. De seu ponto de vista, a gestação é o tempo onde se aprende a amar incondicionalmente.

Achei bonito, mas preferi deixar a metafísica de lado para me abraçar agora à ciência. Concluí o óbvio. Que cada célula do corpo da mulher está envolvida com a gravidez, enquanto o homem se liga ao feto apenas perifericamente. Por isso, a integração entre mãe e filho é tão perfeita. Já o pai… Bem, o pai sofre um pouco mais para conquistar a pessoinha que está para chegar.

Senti, é claro, uma pontinha de inveja. Mas logo esqueci de tudo quando a sua barriguinha mexeu. Ela então pôs minha mão sobre o seu ventre e sorriu, provavelmente pensando no amor incondicional.

Eu ainda fiquei divagando, perdido em filosofias inúteis. Depois voltei a mim e sorri também, porque no fundo o que importa mesmo é que nossa filha venha com saúde e seja feliz. Muito feliz.


Para Lena, com amor.

3 Comentários

  1. Ana cláudia 15 de maio de 2008, às 11:23h

    Bonito, Dimas… Consigo enxergar exatamente a cena que você descreve, sua cara de viajandão e a cara de Lena de “o que é que ele tá pensando agora, meu Deus!”. Mas vocês continuam filosofando muito ou já arrumaram o quarto de Luiza?

  2. Dimas Lins 15 de maio de 2008, às 11:40h

    Cláudia,

    O único momento que deixo de filosofar é quando vejo os gastos para preparar a chegada de Maria Luíza. Acho que padecer no paraíso começa por aí.

    O quarto ainda não está pronto, mas já estamos chegando lá. Falta uma ou outra coisinha. Haja fôlego e bolso!

    Dimas

  3. André Tricolor Virtual 15 de maio de 2008, às 20:09h

    “Dimas”,

    A sua preocupação com os gastos são normais, imagine eu desempregado a espera de meu bebezinho! E ela chegou, com muita saúde, consegui com uma amiga uma vaga no Tricentenário em Olinda, antes disso ia a todas as consultas com minha esposa no pré-natal, íamos aos poucos montando o enxoval de nossa criança, e apesar de já velho não me via preparado para ser pai, e nem me preocupava com o amor incondicional, e ela chegou, com muita saúde, se tranformou no amor de minha vida. acredito que tenha sido a melhor coisa que fiz nessa vida, aprendi a dá banho nela, a trocar as fraldas, colocar nos braços para ninar, era de uma atenção extraordinária, fazia questão de ouvir ser coraçalzinho a cada instante, fazia vigília na hora de seu soninho, não deixava sequer um mosquitinho chegar por perto, e logo concluí que ser PAI é um aprendizado constante, é uma troca mútua de sentimentos, de carinho, de respeito, é pensar em seu futuro para não atrapalhar o da sua criança. é querer que seu bebezinho quando maior tenha orgulho de vc … Na maternidade, ao ver aquela coisa miudinha, caramba, fui uma emoção grandiosa, quando cheguei me assustei, era tão pequenina, que a primeira vista nem consegui enxergar, pensei: levaram minha filhinha?! Que nada, ela estava dormindo no ventre da mãe. Outro momento marcante é perceber que seu bebezinho logo nos primeiros dias de vida já reconhece seu cheiro, e quando chora, o contato com o seu corpo já traz conforto. Faço de tudo pela minha filha, procuro crescer junto com ela, pois me descobri como gente após sua chegada em minha vida!

    Felicidades pra vc e sua família !!!

Nós que aqui estamos, por vós esperamos