Cisco no olho

Olhozinho - Rita Ribeiro (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.
Renato Russo
Não gosto da solidão. Tenho medo da solidão. Tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado. Tenho medo de não ter quem chore por mim, quando eu der o meu derradeiro suspiro.
Não bastasse a infinita tristeza em meu peito, passei boa parte do fim de semana com um cisco no olho esquerdo. No começo, achei que fosse uma bobagem, um grânulo qualquer. Por isso, não dei a atenção merecida. Mais tarde, a dor intensa e pulsante me obrigaria a mudar a atitude.
Já era madrugada do domingo, quando reconheci que não dava mais para ignorar a sensação de arranhão na córnea. Enfim, levantei da cama e segui para o banheiro disposto a retirar o cisco e acabar com o sofrimento.
Como primeiro recurso, abri um vão entre a pálpebra e o globo ocular, para deixar escapar o corpúsculo infiltrado em meu olho. Não adiantou. Em seguida, gotejei soro fisiológico sobre a superfície irritada, mas isso também não funcionou. Já cansado, resolvi mergulhar o olho em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado, mas o cisco persistiu.
O sol já visitava a minha varanda, quando joguei todas as fichas numa última tentativa. Ocorreu-me que, se eu chorasse, o fragmento invasor talvez pudesse ser expelido pelas lágrimas. Bastava me concentrar em algo muito triste que a secreção límpida, incolor e salgada faria o resto. Pensaria em minha solidão, que sequer me permitia ter alguém por perto para soprar o meu olho num momento assim.
O choro veio fácil. Difícil mesmo foi conter as lágrimas depois. Contudo, o cisco permaneceu onde estava. Pior. A dor aumentou e a sensação incômoda passou também para o olho direito. Não sabia que um cisco poderia se espalhar de um olho para o outro, como uma doença contagiosa. Talvez esse tenha sido o primeiro caso na história da medicina.
Não quis mais arriscar. Dei-me, enfim, por vencido e resolvi seguir para alguma emergência oftalmológica.
Quando cheguei ao hospital, não havia mais ninguém, além dos funcionários. “Uma vez sozinho, sempre sozinho”, pensei. Ainda assim, não sei por qual motivo, tive que aguardar.
Já no consultório, a doutora mal me olhou nos olhos, o que achei um contra-senso, dada a sua especialidade médica. Ela parecia com sono e devia estar aborrecida por ter sido acordada no fim do seu plantão. Egoísta, pensei que minha dor vinha em primeiro lugar. Recusei, em seguida, julgar a mim mesmo como alguém que só pensa em si. “Já tenho sentimentos de culpa demais!”, sentenciei. Pois é. Não bastasse a solidão, ainda sofro com sentimentos de culpa. Por isso, nem bem se passaram alguns segundos e eu já havia reprovado meu pensamento, contraindo assim uma nova culpa, um novo tormento. Sou assim mesmo, sinto culpa até onde não há culpa para sentir.
Afetivamente carente e carregando um novo peso na minha mente conturbada, procurei diminuir a habitual distância entre médico e paciente. Busquei seu nome no crachá e tentei ser simpático, apesar dos olhos inchados.
- Leila! Bonito nome.
Ela sorriu apenas por educação e voltou às suas anotações. Por certo, estava mais preocupada em executar os procedimentos médicos de rotina, voltar para a cama e aguardar o fim de seu plantão. Talvez, em casa, tivesse um filho e um marido a sua espera. Por que haveria de perder seu tempo comigo? Eu, ao contrário, tinha apenas a solidão como companheira e me socializava não apenas por educação, mas por necessidade do espírito. Senti pena de mim mesmo por mendigar afeição numa emergência hospitalar.
Ela me conduziu à cadeira oftalmológica e pediu que eu encostasse o queixo no aparelho posicionado à minha frente. A doutora observou meus olhos e pareceu surpresa com o que viu. Perguntei se havia muitos grânulos e ela balançou a cabeça negativamente. Certamente havia algo em meus olhos, ela só pareceu espantada demais para dizer o que era.
Tive medo das possibilidades. A convivência com a solidão me deixou com pânico de doença, pois, como disse antes, tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado.
Olhos mais abertos pela superação do sono, a doutora tornou a observar meus globos oculares. Alguns minutos depois, ela levantou e me abraçou emocionada. Não disse uma palavra. Apenas me abraçou.
Chorei. Choramos. Perderia a vista, certamente. Quem sabe um câncer comeria meus olhos e depois se espalharia por todo o meu corpo. Apesar do medo, me senti reconfortado pela humanidade pouco usual de uma médica de plantão.
Enchi o peito de coragem e perguntei finalmente se ficaria cego. Ela disse que não. Morreria, talvez? Tive outra resposta negativa. Fiquei sem compreender.
De fato, tudo começou a ficar claro, quando ela começou a retirar os grânulos dos meus olhos. Em verdade, não eram ciscos, mas fragmentos da minha própria vida que estavam presos em minhas retinas. Cada pedaço retirado fazia surgir imagens da minha infância, adolescência e vida adulta.
Ri com algumas coisas e me entristeci com tantas outras. Reconheci a mim mesmo no menino inseguro, no rapazinho sem jeito com as mulheres e no homem solitário e infeliz. Vi meu casamento e minha separação se espalharem pelo consultório. Vi mais. Vi a última conversa que tive com a minha filha. A nossa briga, as palavras duras que dissemos um para o outro e a sua saída de casa. Dez anos de silêncio e solidão se passaram desde então.
A doutora passou as mãos pelos meus cabelos, como uma velha amiga, e me aconselhou a ligar para a minha filha. Enxuguei as lágrimas e peguei o telefone. Para mim, chegava o tempo do perdão.
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