Muito além do livro
Acalanto para um punhal - Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)
Dimas Lins
“Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua cama a razão de seu martírio e, ao lado dela, deitava-se o estigma da traição. De volta a sala, sobre a mesa do canto, também adormecia um punhal. Quando enfim o ódio venceu a razão, ele empunhou a arma, dirigiu-se até o quarto, aproximou-se da mulher e olhou-a em silêncio. Ela dormia como um anjo, mas certamente acordaria no inferno. Ele segurou a arma com as duas mãos, elevando-a a um ponto acima de sua cabeça, e, antes de baixá-la a toda velocidade, disse com a voz embargada o mantra que o acompanhava desde que partiu da sala em direção ao cumprimento de sua sentença: acorda, punhal!“
***
Mal terminei de escrever o último parágrafo do meu conto, ouvi um barulho atrás de mim. Era noite e, além do computador ligado, tinha apenas uma pequena luminária acesa no escritório. Propositadamente economizava energia. Afinal, se um escritor não tem vida fácil no Brasil, o que dizer de alguém que publica um ou outro texto na internet?
- Quem está aí? - perguntei, enquanto rodava minha cadeira giratória para que eu pudesse olhar de frente a porta do escritório.
Não me deixei enganar pelo silêncio. Gosto de escrever sobre a morte e coisas do gênero, mas tenho um medo danado de almas penadas. Além do mais, meu instinto deixava claro que havia alguma coisa em meio à escuridão do apartamento.
- Seja quem for, saiba que estou armado! - disse, enquanto empunhava a minha arma, um extrator de grampos.
Nem bem acabei de dizer aquilo, me arrependi. E se da escuridão viesse uma bala em minha direção? Meu extrator de grampos não era comparável a uma pistola. Pus assim o objeto de defesa sobre a mesa e gritei bem alto que não estava mais armado. “Frouxo, frouxo!”, pensei.
Estava nervoso, reconheço. É que não estou acostumado a ter minha casa invadida a altas horas da madrugada ou em qualquer outro momento do dia. Pensei em correr em direção à porta, mas se assim o fizesse, estaria indo ao encontro do perigo que desejava evitar.
Finalmente, do negrume do corredor surgiu um homem segurando um punhal. Meu medo transformou-se em pânico. Dizem que um homem que porta uma arma branca tem mais sangue frio do que alguém armado de revólver. E deve ser mesmo, pois a arma branca requer o contato físico do assassino com sua vítima. Imaginei, depois que recebesse algumas punhaladas, as minhas vísceras saltitando pela mesa do escritório e eu, na seqüência, tentando fazê-las saltarem de volta para o meu abdômen. “Passem já pra cá!”, ordenaria a intestinos e pâncreas.
Pensei em escrever a cena em meu bloco de anotações, como registro de uma nova idéia para um conto - se eu escapasse com vida, é claro! - mas fiquei com medo que o invasor interpretasse meu gesto como uma tentativa de reação, pois já vi num filme de lutas marciais alguém ferir mortalmente o outro com uma caneta Bic.
Fiquei no dilema “escrevo, não escrevo” por alguns segundos até que pedi licença, peguei uma caneta e um bloco de notas e escrevi algumas anotações sob o olhar desconfiado do invasor. Meu lado escritor falou mais alto, embora eu mesmo me achasse bastante estúpido ao arriscar minha vida por uma inspiração. Depois, pus cada coisa de volta em seu lugar e perguntei onde tínhamos parado.
Ah, sim! Paramos assim: eu em pânico e ele com um punhal. Pedi calma ao invasor e disse para ele levar o que quisesse - dinheiro, objetos pessoais e contas de luz - desde que poupasse a minha vida. Se possível, deixasse também o computador, pois sem ele não poderia escrever sobre a invasão ao meu apartamento.
- Não está me reconhecendo, está? - disse o estranho.
Deveria? Provavelmente sim, mas não o reconhecia. Tinha medo de dizer que sim e, sob interrogatório, cair em contradição. Tinha medo de dizer que não e ofendê-lo por eu não ter dado a ele a mesma importância que ele me dera. Como sei que não é bom contrariar alguém armado, não disse nem sim, nem não.
- Não digo nem sim, nem não.
Ele caminhou em minha direção até entrar completamente no raio de ação da luz. Eu quis dar um passo atrás, mas fiquei encurralado pela mesinha do escritório. Tentei discretamente afastar a mesa, mas o peso do computador não deixou que ela se movesse. “Se sair dessa, juro que compro um notebook!”, prometi.
Precavido, tentei evitar olhar para o rosto do invasor. Não queria reconhecê-lo, para não dar motivos à minha morte, mas ele ordenou que eu olhasse em seus olhos. Quem tem uma arma, manda mais.
- Ainda não me reconhece?
Não reconheci. Fiquei alguns segundo tentando buscar sua imagem nos arquivos da minha memória, mas não soube dizer quem era. Poderia ser um colega de trabalho chateado com meu último memorando, ou talvez um flanelinha insatisfeito por ter recebido uns trocados abaixo do preço de tabela, ou ainda um atendente de telemarketing que cansou de conversar apenas com a minha secretária eletrônica.
Percebendo que eu não o reconheceria, se apresentou como o personagem que matara a esposa em seu sono angelical no conto que eu acabara de escrever.
- Não!
- sim.
- Não!
Sim. Procurei semelhanças e finalmente reconheci o punhal. Engraçado, não reconheci o personagem, mas sim o punhal.
- Você é o…
- Nem ao menos você sabe meu nome. Sabe por quê?
- Não.
- Você nunca me deu um nome. É sempre “ele pra cá, ele pra lá”. Nome que é bom, nada!
- É verdade, mas é que…
- Aliás, raramente você dá nomes a seus personagens, já notou?! Estamos cansados de você!
- Como assim “estamos”?!
- Por suas mãos nos tornamos assassinos, suicidas ou depressivos! Que tipo de mente doentia é a sua?!
Não sabia que personagens tinham sentimentos. Quero dizer… Sabia, mas achava que os sentimentos, assim como os personagens, ficavam restritos à estória.
Ele disse mais. Confessou que amava a mulher, mas teve que matá-la, porque eu assim o quis. Depois, olhou-me com um olhar de revolta e gritou que ela não tinha que morrer. Por fim, contou que sua esposa também o amava e a traição foi conseqüência do meu desejo.
Fiquei perturbado. Não sabia de nada disso. Não queria matar ninguém de verdade, nem mesmo ser responsabilizado por qualquer traição. Fazia isso, porque gostava de personagens profundamente melancólicos.
Estava arrependido. Mas arrepender-se não bastava, pois ainda tinha diante de mim um homem, um punhal e uma sentença de morte em meu nome.
Procurei ser gentil e até reconfortei meu personagem. Tratei-o como um pai trata um filho ou um criador, a sua criatura.
Depois de acalmá-lo, ofereci um café e prometi refazer a estória. Reverteria a morte de sua mulher e livraria os dois das cicatrizes da traição. Disse a ele que, diferentemente da vida real, na literatura tudo era possível. Eles agora seriam felizes, como são os casais num comercial de margarina. A trama ficaria sem graça, é verdade, mas o que é uma trama sem sal diante da preservação da vida?
Ele concordou, mas antes de me entregar o punhal, pediu-me que eu lhe desse um nome. Não apenas a ele, mas a sua mulher também. “Está bem, está bem!”, cedi. Ele apertou minha mão e, assim como veio, sumiu na escuridão.
Passei o resto da noite reescrevendo a estória. Não ficou a mesma coisa, mas eu até que gostei do final. Ainda guardei cuidadosamente o punhal numa gaveta, antes de seguir para a cama. Fui dormir pensando nos meus personagens e que, mesmo na ficção, os punhais não foram feitos para acordar.
2 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos




Bravo, Dimas! Muito bom!
Essa é para publicação, de safra especial.
Mas não se deixe intimidar por um personagem, mesmo que esteja portando punhal (o punhal também é criação sua, lembre-se!).
Dimas,
lamento por sua bronquite e desejo melhoras…
bem, quanto ao conto é muito bom, mas… qual o nome do personagem?
um grande abraço,