O encontro
Pintura: Starry Night, de Van Gogh

Quando criei o Torcedor Coral, um blog sobre meu amado clube, o glorioso e destruído Santa Cruz, não tinha grandes pretensões. Desejava apenas publicar, vez por outra, notícias sobre meu time do coração.
Com o tempo, fui aperfeiçoando o estilo e passei criar artigos e textos opinativos. O Torcedor Coral cresceu e atraiu novos colaboradores. Mais livre, passei também a escrever crônicas. Com o tempo, senti vontade de falar sobre outras coisas, além de futebol, pois um blog esportivo limita bastante o raio de ação e criação de quem escreve.
Surgiu assim o Estradar, que teve sua primeira publicação em 19 de agosto de 2007. Aqui, pude experimentar estilos e rabiscar crônicas e contos.
Mas o Estradar trouxe um efeito colateral que me dá muito prazer. Passei a receber, e a procurar também, textos de outros autores para publicá-los neste espaço.
É por isso que hoje publico um texto de Anderson Aguilar. Anderson conheceu o Estradar, depois que publiquei o belíssimo conto de Kalina Paiva, sua amiga.
Aguilar se diz apaixonado pela leitura e por nosso idioma. Por isso, tentou escrever um romance, mas de seus escritos saíram poesias e contos. Anderson se interessa por filosofia e tem Kafka e Augusto dos Anjos entre seus escritores preferidos.
E é um conto filosófico de Anderson que deixo para leitura.
Um grande abraço a todos,
Dimas
Anderson Aguilar
- Adeus!
Foi com essa simples palavra que o homem de cabelos grisalhos se despediu dos poucos amigos, ajeitou a pequena mochila nos ombros, e partiu em direção a uma terra desconhecida.
O homem de semblante duro, olhar sereno, que revelava por trás de algumas rugas que riscavam a face contemplativa, a força de quem acreditava que havia algo mais na vida que a simples rotina do trabalho da maioria dos homens, começou a caminhar lentamente, com os pensamentos ainda um pouco confusos, em direção à colina que deveria marcar o ponto final da busca que empreendera desde muito cedo.
Estava, é verdade, um pouco ansioso. Lembrou-se do velho que encontrara numa taberna em uma distante vila. Na conversa regada a goles da bebida quente, ficou sabendo que a resposta que buscava, poderia ser encontrada no alto daquela distante colina.
Apesar da bebida consumida em goles no balcão de uma taberna, e da aparência de louco do velho, acreditou em suas palavras e partiu.
Após vários dias de caminhada, chegou ao lugar que reconheceu ser a colina de que o velho falara.
Do alto da colina olhou em volta e sentou em uma pedra para esperar aquele que acreditava ter sua resposta. A colina tinha um aspecto mágico, pairava um ar místico.
Enquanto esperava, pensou em toda a jornada que havia feito, nos lugares em que passou, e nas pessoas que conheceu ao longo dos anos. Imagens flutuavam em sua mente como filme, quando sentiu um leve estremecimento no corpo. Virou lentamente o rosto e o viu.
Ele surgiu do nada, silencioso, como se fosse parte daquele ambiente misterioso.
Vestia um manto escuro que lhe cobria todo o corpo, e que terminava no capuz que escondia o rosto quase por completo. A face encoberta dava-lhe um aspecto sinistro que causava arrepios, os olhos de brilho indefinido, tinham uma expressão dura, apesar da estranha serenidade que transmitia.
Na mão esquerda trazia o instrumento que lhe dera fama ao longo dos séculos. Visão que aumentava a sensação de medo, no entanto, era essa a visão que, embora assustadora, confirmava o encontro.
Estava ali, diante dele, sem um movimento sequer. Parecia não respirar, apenas o fitava. Num misto de medo e coragem tentou iniciar a conversa.
- Que queres comigo? - Perguntou.
- Nada.
- Viestes para dar a resposta que procuro?
- Pode ser.
O diálogo começara seco, distante. Ficou confuso.
Teria que estreitar a distancia e criar um canal de comunicação, um laço que possibilitasse a conversa.
- Por que viestes então?
Não houve resposta.
Mudou a pergunta. Teria que fazer o jogo. Não poderia ser superficial.
- Viestes para levar-me?
- Não. Vim para guiá-lo por um caminho que não conheces e não podes andar sozinho.
- Por quê esconde teu rosto?
- Não escondo. Apenas não consegue vê-lo.
- Usas um manto que vela tua face e me dizes que não consigo vê-lo? Não compreendo.
- Não me olhas com os olhos que deveria.
Ficou por um instante mudo e pensativo. Naquele jogo de palavras, percebeu que ganhava tempo.
Em verdade, seu interlocutor lhe dava esse tempo como se fosse proposital, antes de cumprir a sentença já escrita. Precisava continuar.
- Com que olhos devo olhar-te?
- Com os olhos do coração. Os olhos da vida.
- Embora não possa ver tua face, eu te conheço.
- Não. Não conheces. Tu sabes meu nome, mas não sabes o que significa nem o que sou.
- Tu és a Morte. Aquele que anda envolto pelas sombras do inferno e que ceifa a vida. Chegas sorrateiro, sem hora, sem minuto, sem aviso. Cavalgas invisível, acompanhado de tua ferramenta horrenda e fatal. Viajas pelo terrível vento do norte escolhendo tuas vítimas, aparentemente sem nenhum critério, a não ser tua insensibilidade para com a vida. Simplesmente chega e ceifa a vida, interrompendo-a.
- Não. Não a interrompo. Eu a transformo fazendo cumprir a Lei. Tu me conheces como Morte, mas Eu sou a Vida. Embora não compreendas, sou uma de suas faces.
- Tens razão. Não compreendo. Como explicas a vida interrompida de uma criança que parte no primeiro suspiro, antes mesmo de ter chegado? E a morte de um homem que passa toda a vida praticando o bem, enquanto outro, que passa toda a vida sustentado pela maldade permanece vivo e cheia de regalias, rodeado de subalternos e temido? Existe critério nisso?
- O que chamas de vida é interrompido para que o ciclo possa prosseguir.
- O que chamo de vida é Vida. O sorriso de uma criança, a expressão sublime da mulher que acabou de dar a luz. O orgulho do velho ao transmitir a sabedoria adquirida ao longo dos anos aos mais novos. O olhar de profunda expressão do rapaz ao ofertar a delicada flor para a moça.
O canto melodioso do pequeno pássaro pousado no galho da árvore. Isso é que entendo como Vida. E é essa a Vida que interrompes cruelmente.
- O que chamas apaixonado de vida, não poderia existir se eu não perpetuasse o Ciclo Sagrado.
- Entendo que Vida é movimento que objetiva ascender a um nível de espiritualidade mais puro, enquanto que a Morte é o Fim, o momento que interrompe esse movimento. Um castigo imposto. É assim que entendo.
- Entendes a Vida com a visão de um mortal no plano de vida material. Quando fazes isso, cometes um erro. A Vida não se justifica no plano material.
- Como posso ver de outra maneira sendo matéria e vivendo pela matéria? O que respiro, o que como, minhas emoções e sentimentos, minhas ambições, minhas alegrias e tristezas, meus amores e desamores, enfim, tudo que me norteia é matéria. Vim do pó, e para o pó hei de retornar.
Como posso ver de outro modo?
- Teu corpo é matéria, mas não a Vida. Enganas quando pensas viver para a matéria. Teu corpo feito matéria serve apenas para abrigar teu Espírito. Tua função é permitir a evolução, o que deves entender como purificação, ou elevação. O sopro da Vida não veio do pó, apenas o corpo físico veio. O sopro da Vida veio da essência do Criador, e é para ele que tu vives. É ele o sentido da Vida.
- Falaste-me de sentimentos e emoções, da criança, do velho sábio, e da moça. - continuou. Dizei-me:- qual o sentido de tais sentimentos, sendo eles passageiros?
- O amor que juras pela mulher termina, de uma forma ou outra, quando essa mulher não corresponde ao teu sentimento, ou quando conheces outra mais atraente. A alegria da mulher no parto termina quando o filho deixa de ser criança, e até mesmo a pureza dessa criança acaba quando se torna adulto.
- Deixas-me confuso.
- À matéria pertence o que é matéria, e ao Espírito o que é Espírito. Está escrito no livro que foi deixado que o joio não se mistura ao trigo. Entenda que a Vida pertence ao Espírito e não à matéria. Esta tem uma existência limitada, enquanto o Espírito segue seu ciclo até o Criador.
Ouvindo o que lhe era dito, começou a perceber que a resposta que tanto procurava nascera antes do primeiro suspiro. Nascera junto com ele, ainda no ventre.
Percebeu que ao longo da existência material, esse conhecimento é encoberto por aspirações desenvolvidas pelas emoções e por anseios materiais.
Não respondeu. Não era preciso.
- É chegado o momento. É preciso fazer com que o Ciclo prossiga.
Esta frase ecoou em seu cérebro de um modo estranho, como se estivesse em outro plano. Viu cenas desfilarem diante de seus olhos numa rapidez que não podia conceber.
Um manto de névoa com um colorido turvo, porém suave, cobriu sua visão, e não teve certeza de onde estava. As lembranças dos últimos momentos começaram a dissipar em sua mente.
Suspirou profundamente e não reconheceu onde estava. Também não viu mais seu interlocutor.
12 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Linda a história.
Parabéns Anderson você arrasa.
Gostei muito do texto.
Aborda a vida e morte de forma poética e misteriosa.
Adorei!!!!, muito bom!!!!
Acho que vc deveria publicar outros!!!!
Parabens, espero outros!!!
Linguagem simples e objetiva, mas sem ser simplória.
Gostei do texto.
Gostei…simples….facíl….e principalmente dentro do que acredito….e penso que devido a sua escrita simples,singular…deveria atingir mais pessoas….para que muitos tivessem acesso deste grande e simples mistério que é matéria x espirito.O mundo necessita com urgência de transformação…e acho que somente quando entendermos um pouco sobre este mistério poderemos ter um mundo melhor…meus comentários até o momento estão voltados para o tema…mas somente alguém com alma de poeta pode ter este alcançe…escrever livremente…solto….simples…de um assunto que ainda é um grande mistério…e quando não para muitos um horror…porque o medo tem várias formas e uma delas é a ignorância.Já o Anderson faz uma abordagem livre do medo…o que a torna bela.Espero ler mais dos seus contos.
Um abraço….Rosana
Olá Anderson, venho aqui parabenizá-lo pelo belíssimo artigo. Amei.
Mega bj
Tiooooooooo aheeeeeeeee arrebentou, tá vendo qdo persistimos nos nossos sonhos, um dia eles viram realidade. Parabenssss !!!!!!!. PatBjusssssssss
Anderson,
GRANDE AMIGO.
Não precisei separar o amigo do escritor, do poeta, do observador da vida, da natureza e do amor. Seu texto vem consolidar a grandeza do seu trabalho, da abnegação, e com certeza, do sucesso inevitável. Parabéns!! Mais uma obra gostosa, clara, reveladora e que, servirá de reflexão para todos os leitores. Certamente vão adorar lê-lo e relê-lo, assim como eu que já reli.
Um grande abraço,
Ademir Ribeiro
Rio, 10 de junho de 2008.
Ps: Parabéns pelo aniversário tb….muitos anos e poemas na vida…
Simplesmente envolvente, você certamente tem o dom das palavras. Sempre gostei muito do que escreve, lembro-me de quando trabalhávamos juntos, você sempre trazia algumas frases em papéis de rascunho para que eu lesse, e como sempre, você se revela um encantador…Parabéns mais uma vez, Seu livro será publicado e fará muito sucesso e eu estarei lá, na primeira fila, aguardando seu autógrafo com muito orgulho por ter um amigo como você. beijos da sua eterna amiga JJ.
Demais!Não sei muito o q dizer,á não ser que amei.
O conto é de uma pureza,um entendimento inesplicável…
Que você continue cada dia mais nos dando á honra e o prazer de continuar acompanhando esses contos divinos.
Um abração…
Anderson:
Simplesmente M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O !!!
Continue sempre nos tocando com palavras.
Beijos, Flávia
A descrição daquele homem no início da sua narrativa deixou o texto tão sereno. Acho até paradoxal ter sentido serenidade diante de um enredo que fala sobre o último momento da vida de um homem. Depois, a morte apareceu tão… sinistra e misteriosa. Mesmo assim, a serenidade no texto não foi abalada. Agora, eu sempre imagino a morte com traços e comportamento femininos. (Sabe-se lá o porquê, né? rs). O diálogo do velho com a morte parece conosco em plena vida: nós indagamos, perscrutamos em reflexões. Parece tão longo esse diálogo. Mas não, é ilusão. No fundo, no fundo, quando menos esperamos, eis os pensamentos todos correndo em nosso cérebro, no momento do chamado para a perpetuação do ciclo da vida. Esse tema da morte me é familiar e estranho ao mesmo tempo. Tenho estudado sobre ele, mas continuo assim, pensando no propósito da vida se, ao final, há sempre a morte nos esperando e (essa parte, em seu texto, eu realmente achei aterrorizante) sem rosto. Ela possui uma identidade que não nos é dado o direito de conhecer porque nós não temos olhos capazes para isso. Bem filosófico! Esse texto, exatamente por tratar da morte de uma forma sutilmente desoladora, me faz pensar nas interdições, nas servidões, nas nossas posturas como seres humanos. Fiquei feliz por você estar aqui, partilhando conosco sua escrita tão reflexiva e fecunda. Super beijo, Anderson.