Eu, robô
Máquina II (Belchior)
Dimas Lins
Na falta de tempo, na absoluta falta de tempo, resta-me apenas cuidar da menina que ainda não chegou. Corro agora de um lado para o outro, para garantir que ela tenha toda a atenção que eu possa dar, quando nascer.
Se não vim aqui por uns dias, foi por ela. E se não rabisquei alguma coisa - algo que tornou de mim um homem tão perdidamente apaixonado - é porque não pude. E embora o coração padeça - pelas crônicas e contos não materializados - e deixe as minhas mãos um tanto trêmulas, pela saudade do toque do teclado, nada havia o que eu pudesse fazer. Entre um tiquinho e outro de tempo que tenho livre das obrigações, o corpo não agüenta. E quer cama, e cai no sono, e apaga.
E mergulhado no cansaço, desorganizo minhas noites para aproveitar melhor o dia. Mas, às vezes, de quando em quando, espio pela janela e olho a estrada em frente da minha casa.
- Tem alguém aí?
Quando vejo uma alma viva, mesmo virtual, boto a cara no mundo e puxo uma conversa preguiçosa, até que o sono me alcance. E ele alcança. Se ter um filho é mesmo padecer no paraíso, acho que eu já estou por conta. Mas não reclamo. Aliás, reclamo, mas só pela falta de tempo.
Mas não é apenas pela garotinha que vem lá que ando tão ocupado. Além do trabalho, de onde tiro o meu sustento, e das palavras que, vez por outra, escorregam da minha mão para atravessar essa estrada, me sinto atraído por esse mundinho danado feito de megabytes, css, plugins e php, que é capaz de ligar Recife, o centro do meu universo, a qualquer parte do planeta. E, de Pernambuco, sigo escrevendo para o mundo, ainda que ninguém leia, e fazendo páginas na internet, somando minhas palavras a tantas outras.
Também resolvi aprender a tocar violão. Por um sonho adolescente e por minha filha, é claro. Já aprendi a tocar - maneira de dizer, pois dói até nos meus ouvidos - duas músicas: Cai, cai balão e Atirei o pau no gato. No ritmo que estou, provavelmente daqui a dez anos, ainda estarei executando as mesmas canções.
- Cai, cai balão de novo, papai?!
- Mas minha filha, é com tanto carinho! Ouve só mais um pouquinho, vai?
- Está bem! Mas só desta vez, viu?!
Talvez eu queira - não sei bem - aproveitar cada dia de sua infância, que já já começa, para reviver um pouco da minha.
Tudo está quase pronto e eu espero descansar um pouco, antes que ela chegue. Mas até lá, me sentirei uma máquina, pois não posso parar, enquanto faltar a mínima coisa.
Eu, robô.
Passa cansaço, passa, que não posso dar conta de tudo com você na minha cola!
4 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos




Que bom, Dimas, que teu tempo esteja preenchido por essa espera tão gostosa - e carregada de ansiedade. Falta tão pouco para você não ter tempo algum para nada que não seja curtir essa paixão em forma de gente… E, claro, curtir as trocas de fraldas, os choros, a vontade de dormir.
Bom ter notícias de como anda a tua expectativa. Bom demais saber que você está curtindo muito tudo isso.
Beijão!
Dimas, aprenda logo “Papai tricolor”, que é uma lindeza e fácil de tocar.
Do amigo Sama.
Esse lance de espera tao gostosa é realmente muito curioso. A pessoa espera feliz e ansiosa pelo momento em que nao terá mais tempo pra nada! No seu caso, Dimas, além de trocar as fraldas, caquinhas, choros, noites mal-dormidas e aprender a tocar violao, vc terá a mais difícil missao de um pai responsável, que nao tenho dúvidas que vc será, nestes tempos inglórios.
Fazer a garota se tornar tricolor!
boa sorte meu chapa e um conselho. Quando vc nao aguentar mais nao dormir uma noite inteirinha, meio lexotan embaixo da língua da cria e terás a melhor noite de sono de sua vida! hehe!!!
Amigos,
Não tenho dúvidas que será bom, mas Bosquímano toca num ponto que ninguém diz publicamente: a gente espera ansioso pelo momento em que não terá mais tempo pra nada!
Mas entre uma troca de fralda e outra, vou estar por aqui. É que esse negócio de escrever vicia. E como todos vocês escrevem também, sabem bem do que falo.
Mas a missão inglória é fazer a garota tornar-se tricolor nesses tempos bicudos. Mas seguirei os passos do meu irmão mais novo que já tem dois e estão bem encaminhados.
Abraços,
Dimas