Uma flor nasceu na rua
Se meu jardim der flor - Boca Livre e MPB4 (Zé Renato/Xico Chaves)
Dimas Lins
Estive sem sono e me pus em pé no breu da noite. Da minha janela, via o tempo atravessar a madrugada sem pressa, enquanto o vento sul levantava as cortinas e espalhava uma brisa benfazeja por todo o quarto. Ainda não havia sol. Embaraçada, a luz difusa do luar dividia com a iluminação pública a guarda da cidade, protegendo-nos da escuridão total.
Mesmo sob a penumbra, tornava-se visível aos meus olhos um mundo que até então eu desconhecia pela ausência de curiosidade. Era um minúsculo ecossistema com algum verde, além de insetos, roedores, batráquios e répteis. Havia insignificantes, mas viçosas fauna e flora ao redor de nossas casas, entranhadas no meio de nossa civilização.
Vi, absorto, o balé da copa das árvores e a dança das folhas de um lado para o outro, sob a regência da aragem. Também ouvia, com imenso entusiasmo, o cacarejar do galo, o canto dos pássaros e o estridular dos grilos. Minha insônia fez de mim um atento espectador de um singelo espetáculo de um mundo por trás do nosso mundo.
Durante a aurora, observei do meu mirante que a luz do dia avançava vagarosamente sobre a superfície e dava ainda mais vida à vida e mais forma e cores às coisas.
Um colibri cruzou veloz a minha janela e partiu em direção às flores para beber o néctar. De seus estames, recolheu o pólen derramando-o sobre uma araucária, que fecundou uma semente, que germinou o chão. Assim, uma flor nasceu na rua.
Não era provável, nem mesmo era possível, mas uma flor rompeu o pavimento, diante dos meus olhos descrentes. Embora não fosse crível, ela estava lá, desafiando o impossível, bem debaixo da minha janela.
Mas não havia dúvida! Sim, eu tinha certeza, uma flor nasceu na rua! Ela surgiu ligeira, enganando o tempo, abrindo espaço no asfalto!
Veio-me à cabeça um poema de Drummond* que, da minha janela, recitei para os ouvidos de ninguém:
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Certamente era uma flor. Inexplicável, misteriosa e fascinante, mas era uma flor. Nasceu de um solo infértil e rompeu o espaço urbano para brotar com delicadeza e simplicidade.
Pensei em gritar da minha janela na esperança que o vento espalhasse para a cidade hiberne o grande acontecimento. Uma flor rasgou o asfalto e me fez acreditar no impossível. Que todos acreditassem também! Mas me senti um tolo ao imaginar-me acordando a vizinhança por causa de uma flor.
Desci então do quarto e ganhei a rua, para oferecer os meus cuidados. De meu jardim, arranquei pedaços de madeira na intenção de fazer um novo cercado. Seguiu os meus passos um cheirinho de pão no forno. Minha barriga roncou desavergonhada e me imaginei comendo pão com manteiga e bebendo um gole de um café quentinho. O cheiro veio numa bandeja trazida por uma senhora de vistosos cabelos brancos, que acompanhava meu afazer. Comi de seu pão e bebi de seu café, depois sorri agradecido e seguimos juntos até a flor.
Quando retomei minha missão, tentei cavar uma fenda no chão, mas não consegui. Fui vencido pelo mesmo solo derrotado pela flor. Um jovem se aproximou e, enfim, arrebentou o pavimento. Um velho trouxe adubo e uma mulher regou a planta. Timidamente, as pessoas apareceram de todos os cantos e, na esquina, um guarda paralisou o trânsito.
A rua arborizada se encheu de graça. Um casal reconciliou-se na praça, um bêbado jurou largar o vício e uma criança traquina prometeu bom comportamento. Um profeta previu novos tempos e um sábio concordou. Um poeta declamou seus versos e a artista musicou. O prefeito decretou feriado e transformou a flor em monumento público.
Ao fim do dia, entre cânticos e louvores, percebi que havia acontecido uma pequena epifania. Voltei para casa com o coração repleto de alegria e percebi que a esperança se alimenta das mínimas coisas e que elas vêm ao mundo todos os dias, como a flor que nasceu na rua.
* A flor e a náusea, Carlos Drummond de Andrade
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Nós que aqui estamos, por vós esperamos




Bucólico, manso… Ainda a ansiedade pela chegada de sua flor, cada vez mais próxima…