Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

No dia em que eu vim embora

Pintura: Janet Karam

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No dia em que eu vim-me embora - Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)


Dimas Lins

No dia em que eu vim embora,

Não encontrei alegria em nada,

Senti saudade de casa,

Morri de medo aqui fora.

 

No dia em que eu vim embora,

Minha mãe me abraçou,

Meu pai me consolou,

E disse “meu filho, é hora”.

 

No dia em que eu vim embora,

Deixei tanta coisa pra trás,

Parti aflito, sem paz,

Tremi ao me ver mundo afora.

 

No dia em que eu vim embora,

Carregava apenas a esperança,

Saí sem dinheiro ou herança,

Levei só a dor de quem chora.

 

No dia em que eu vim embora,

Ir já não parecia tão certo,

Quase desisti, cheguei perto,

Que eu perguntei a Deus: “e agora?”

 

No dia em que eu vim embora,

Deixei discos, cadernos e livros,

Ficaram também os amigos,

Criança, rapaz e senhora.

 

No dia em que eu vim embora,

Muita gente na estação,

Tanto adeus, tantas mãos,

Tanta tristeza que aflora.

 

No dia em que eu vim embora,

Meu pai disse pra eu ser forte,

Minha mãe desejou boa sorte,

E pediu pr’eu escrever sem demora.

 

No dia em que eu vim embora,

Não prestei atenção na paisagem,

Encolhi e chorei na viagem,

Que nem vi beleza na aurora.

 

No dia em que eu vim embora,

Deixei um pedaço de mim,

Dizer adeus foi como um fim,

Pois às vezes a saudade apavora.

6 Comentários

  1. Gravatar Ana Cláudia 30 de junho de 2008, às 13:52h

    Dimas,
    É impossível ler o poema sem lembrar os acordes da música de Caetano. Combinação perfeita, embora que, para o teu poema, a voz de Gonzagão me soe mais natural que a de Elis.
    Teu poema está musical, está sentido, com a linguagem rural do menino que sai do sertão para enfrentar a vida -pela primeira vez sozinho.
    Eu, que tenho dois pés e a cabeça no sertão, além da alma cigana dos migrantes, fiquei com um nó na goela difícil de desatar. E poema bom é aquele que emociona mesmo.
    Parabéns!

  2. Gravatar Artur 30 de junho de 2008, às 18:28h

    Eita, Géo tem um igual!

  3. Gravatar Artur 30 de junho de 2008, às 18:30h

    Eita, ficou ambíguo. Quis dizer, na verdade: há outro poeta na parada!

  4. Gravatar Dimas Lins 30 de junho de 2008, às 19:34h

    Artur,

    Se Geó tiver um igual, ele está me plagiando. Juro! hahaha

    No mais, não posso me comparar a ele, o cabra é bom mesmo. Fiz pra ver no que dava.

    Cláudia, o poema veio da belíssima música de Caetano. Ouvi a música na sexta e fiquei martelando no sábado. A frase, para quem é nordestino, é mesmo difícil de esquecer.

    Dimas

  5. Gravatar Kalina 4 de julho de 2008, às 19:16h

    Quer dizer que no dia em que eu volto ao mundo virtual, você está indo embora? rs. Falando sério. Após a leitura do poema, fiquei pensando o quanto é difícil sair de si mesmo e se aventurar mundo afora. Nesse sentido, o escritor faz isso ao escrever: sai do quintal de si mesmo. Puxa, lembrei de tanta coisa da minha infância, quando meu pai atravessava o Estado do Rio Grande do Norte de um lado a outro. Eu ia no carro e nem tinha ciência dos livros, amigos e coisas que eu deixava para trás. Acostumada a seguir viagem, eu ia. Mas hoje, não só hoje em termos de data, HOJE após a leitura do seu poema, bateu aquela saudade…
    Amei ser recepcionada por esse poema. Um abraço, Dimas.

  6. Gravatar Dimas Lins 7 de julho de 2008, às 19:18h

    Kalina,

    Bom tê-la novamente conosco no Estradar. E vou esperar, vez por outra, por seus textos, para publicá-los por aqui.

    Abraços,

    Dimas

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