Perdição
- on 17 de julho de 2008, às 0:00h
- Meus caros amigos
Kalina Paiva
Cólera. Foi assim que tudo começou. Num incerto dia, tive uma raiva intensa do tamanho apego que sentia pela minha imagem. Então, com a cabeça fervilhando, perdi-me dentro de mim e abri mão de amar a minha pessoa. Com essa atitude, enveredei por um caminho sem volta: amei o Próximo, uma das piores, mas necessárias aventuras que decidi viver.
Quando me vi amando, experimentei um pouco do meu veneno, aquela droga do amor que sempre me hipnotizava e me conduzia. Minha intenção era nobre, confesso. Mas, ao me dispor a amar o outro, eu não previ que não conseguiria evitar o sentimento por mim nutrido em outros tempos, já que era a minha única referência. A memória é inexorável…
Assim, sem perceber, instintivamente forjei um amor que trilhava um caminho de volta para mim. De início, pensei que o meu Próximo não estava tão próximo assim. Egoísta que fui, não vi que ele morava há muito tempo em meu calcanhar e, aos poucos, fui tragado pela sua existência. Não sei até que ponto, a essa altura dos fatos, minha inquietação serve de alguma coisa.
Dia após dia, ele se apoderava mais e mais de um espaço que nem era dele, galgando o meu corpo e se aproximando de minha outra extremidade: a minha cabeça. Era tudo tão visível, no entanto meu orgulho não me deixava enxergar que ele estava cansado de ser horizontal, embora soubesse que, com a verticalidade, teria de ser mais resoluto. Subir é sempre sedutor, em face do mundo que se oferece ao olhar para ser desnudado.
Antes de chegar ao topo de mim, o Próximo me perguntou se o mundo era uma caixa. Estranhei a pergunta, porém cai nos braços do riso. As indagações que são feitas por outros sempre parecem estranhas a nós. Ali, não estava mais o Próximo e sim a curiosidade que se movia à espera de minhas respostas lógicas.
Como tive mania de autocontemplação, maravilhado, acompanhei o Próximo e, paulatinamente, não percebi que abria mão de minhas terras. Tendo chegado ao topo, ele habitou os meus olhos e começou a contemplar o mundo a sua volta de outra maneira. Via as terras mais distantes e as possibilidades de explorá-las, em seguida, vislumbrando o prazer que sentiria ao se apoderar delas. Não entendo o porquê de nunca ter reagido. Talvez, eu revivesse um sentimento familiar…
Cada vez mais hipnotizado pelos atos sublimes praticados por esse novo ser, eu não me movia diante da sua tamanha sutileza com a qual conseguia se instalar nos meus aposentos. Chegava a ser apavorante, às vezes. Mesmo assim, engoli o medo e não me abalei. O outro era de um encanto trágico.
Então, chegou o dia em que eu e ele dividimos um só corpo, um só olhar pacificamente. Foi mágico, pois eu nunca havia experimentado algo semelhante. Neste só corpo, andávamos de mãos dadas, explorando, conhecendo o labirinto que era esse novo espaço habitado por dois a um só tempo. O outro me percorria, guiado por mim, encontrando outros narcisos que eu nem sabia que existiam em meu vasto labirinto.
Aquele ser era um poço de curiosidade, pois que procurava conhecer a si mesmo, mas como? O tal “si mesmo” agora não eram dois? Cai na tentação de lançar-lhe essa indagação. Tamanha perplexidade o abateu de tal maneira que, a partir disso, começou a refletir sobre sua condição e sua identidade. Às vezes, eu tinha a mera impressão de que ele se sentia dominado, oprimido. Afinal, o que era o outro além de habitante das minhas terras?
Foi então que, não suportando o peso do amor à minha própria imagem, tomei uma decisão que mudaria as nossas vidas para sempre. Deixei que ele experimentasse tomar posse do lugar, logo apregoando novas diretrizes. Naquele momento, nunca mais reconheci o meu rosto.



Atitudes sem explicações… labirintos…
Surprendo-me cada vez mais com sua intelectualidade, espelho-me, realmente a admiro. A minha vida é um labirinto, escolhas são necessárias, porém muitas vezes dolorosas, isso faz parte da condição humana.
Um grande beijo, de uma criatura que regozija-se em ter seu sangue.
Brígida.
Kalina , é incrível como você consegue nos deixar sem palavras , ao tentarmos interpretar as suas obras de arte.
Esse texto é literalmente uma obra de arte.
Te admiro muito , e cada vez mais tenho orgulho de ser sua aluna - amiga. Pois cada palavra sua , acrescenta algo positivo em minha vida.
Um super beijo no seu coração!
Isabella Lauar.
Kalina,
O amor é realmente um sentimento que nos deixa sem palavras, sem ações e pensamentos.
Acredito que, para amar o próximo, devemos, primeiramente, nos amar, nos querer bem.
Ame-se e ame a todos que acredita merecer.
O amor não tem explicação mas está em todas as partes e não há como fugir desse sentimento tão incerto e, ao mesmo tempo, tão certo.
O conselho que daria a jovens, adultos, crianças e idosos é:
- Ame!
- Ame!
- Ame!
Grande abraço, Jana.
Continue alimentando nosso espírito com suas belas e sábias palavras.
Jana.
Bravo, bravíssimo!
Um texto a meu ver metafísico.
A dúvida que nos maltrata e confunde quando percebemos que somos mais do que a realidade material nos mostra.
Buscamos o Amor, e quando o encontramos,nos perdemos em um labirinto interior, por ter-mos acreditado que o Amor retrata a perfeição acomodada em nossos anseios,e então, de repente descobrimos que para viver o amor,é necessário que o compreendamos primeiro,” deixei que Ele experimentasse tomar posse do lugar…”
O próximo se tornou ” Eu” e descobri que “Eu” sou próximo,e compreendi que para “amar”, preciso, antes de tudo, “amar a mim”.
Confesso Kalina, que alguns pontos do texto são dificeis de entender o significado real, talvez isso seja proposital, por isso preferi tentar compreender a mensagem embutida.Foi essa a visão que tive do texto.
Um conto que exige mais de uma leitura para compreedê-lo.
Muito Bom
um grande abraço do amigo
Anderson