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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Nascente

Imagem: Vladstudio

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Para Chegar mais perto de Deus (Zé Ramalho)


Dimas Lins

- Quem me chamou?

Ouvi uma voz ao longe. Era fraca, de pouca intensidade, por isso não sabia dizer de onde ela vinha. Intuí apenas que chamava por mim. Era um chamado carinhoso, acolhedor, mas não me senti inclinada a descobrir a sua direção. Alheada, manobrei minha cápsula espacial a caminho do infinito.

Naveguei solitária. Ouvia ao longe o som de batidas de bombo que me acompanharam e me acalmaram durante toda a jornada. Comecei meu percurso a nove unidades de tempo atrás e viajei a velocidade da luz. Tudo estava escuro, muito escuro, mas a escuridão não me dava arrepios na nuca. Ao contrário, ela me confortava, pois tudo era tão quieto e havia a minha volta uma sensação de aconchego.

Minha pequena nave translúcida assemelhava-se a uma bolha de plástico. Alta tecnologia. Biotecnologia. Um tubo acoplado ao meu traje espacial fornecia todas as substâncias vitais ao meu organismo. É verdade que, ao longo dessas nove unidades de tempo, meu corpo cresceu e a minha espaçonave pareceu-me cada vez menor. Já não tinha a mesma facilidade de antes para me movimentar. Em compensação, me sentia cada vez mais vigorosa e cheia de energia.

Vim não sei bem de onde. Talvez de um planeta distante atingido por um cometa de calda longa. Acho que fui concebida dessa explosão. Provavelmente da arrebentação súbita e ruidosa teve início a expansão do meu universo. Zigotos, gametas, vitelos, quasares, pulsares, supernovas e asteróides. Milhares de células cósmicas e objetos celestes se multiplicando e tornando a vida embrionária.

- Quem me chamou?

Mais uma vez ouvi a voz. Já não parecia tão distante, visto que pude identificar com algum grau de certeza de onde ela saiu. Vinha d’além do meu mundo, mas vinha de perto, muito perto.

De repente, um pontinho de luz piscou ao longe. Depois outro e mais outro. Aos poucos, centenas de milhões de luzes cintilaram ao meu redor. Uma nuvem em espiral colorida se formou a minha frente. Tudo era lindo, como só o universo podia ser! A nuvem ainda estava bem distante de mim, mas parecia ser uma nova galáxia ou um ninho de planetas. Em algum deles haveria vida?

- Quem me chamou?

Ouvi novamente a voz, mas, dessa vez, o som foi mais vigoroso. Nesse exato instante, fui atraída para a nuvem em espiral. A princípio, pensei que fosse a Via Láctea, cujos planetas são feitos de leite. Mas não. Pela atração gravitacional que ela exercia sobre a minha nave, enxerguei com bastante nitidez que se tratava, na realidade, de um buraco negro. A velocidade de escape de seu campo excedia a velocidade da luz da minha cápsula. Tamanha era a força de atração da gravidade naquele momento que tive a nítida sensação de que um gigante me puxava com as mãos.

Tive medo! Tentei dar a volta com minha espaçonave, porém, sabia que não era mais possível retornar. Quando enfim entrei na espiral, avistei uma fenda no espaço-tempo. Minha cápsula se desintegrou e fiquei à deriva usando apenas o meu traje espacial. Havia tanta luminosidade no espaço circundante que pensei que estava sendo tragada por uma imensa estrela brilhante.

Senti um puxão em minha cabeça e achei que seria o fim. Chorei, gritei e esperneei. Não podia enxergar direito, mas notei que havia sido arrancada do meu universo para um mundo ainda maior. Como era possível? Senti então romper-se o tubo orgânico que se prendia ao meu traje na altura do umbigo.

Depois fui suavemente repousada sobre um corpo imenso, que identifiquei, pelas batidas de bombo, como a nave-mãe. De lá, tenho a certeza, vinha a voz que tentou me conduzi enquanto estive em meu universo particular. Senti, pela doçura do toque, que eu estava a salvo.

A partir de agora, começarei uma nova jornada neste universo expandido. Mas sei que, desta vez, não estarei mais sozinha.


Para Maria Luíza, que ao nascer encheu meu coração de mais amor do que ele pode suportar.

Nota do autor:

Quis o destino que esta publicação fosse a de número 100 do Estradar, o que me traz uma satisfação ainda maior.

A todos os que lêem este blog, obrigado pela companhia.

4 Comentários para “Nascente”

  1. Gravatar

    Belíssima viagem intergalactica, um ser mágico toma conta das nossas vidas e arrebata-nos o coração de forma avassaladora, nesse momento perdemos a medida do tempo e espaço e só dada a luz é que realmente tomamos conta daquele sentimento tão mencionado, mas que nesta experiência podemos senti-lo concretamente, darmos um nome, sentirmos sua maciez e cheiro.

    ps. sinto-me honrado em ser o primeiro a comentar este artigo que traduz o amor simbólico em concreto.

  2. Gravatar

    caro Dimas,
    parabéns e muitas felicidades junta as suas mulheres, somos homens de sorte (vc e eu), estamos cercados por mulheres, imagino a imensa emoção de ver sua pequenina nos braços da mãe e te-la em seus braços de pai.
    que ela possa desfrutar junto a vc´s desse amor que quanto mais se divide, mais cresce…

  3. Gravatar

    O centésimo texto não poderia ser melhor. Gol de placa.

    Precisão descritiva e, ao mesmo tempo, fantasia, lirismo tranbordando de felicidade.

    Para ler e ficar de bem com a vida.

  4. Gravatar

    Por favor, tenha consideração com suas leitoras e coloque um aviso ao lado do título deste belíssimo relato: PROIBIDO PARA MULHERES COM OS NERVOS À FLOR DA PELE.
    Era pra fazer chorar? Pois bem, conseguiu. Lindo, lindo, lindo. Lembrei daquele comercial em que dois fetos conversavam em um útero. A questão era: “há vida após o nascimento?”. E como você respondeu bem a esta questão. Parabéns, pela idéia, por Malu, pela sensibilidade e pelo centésimo texto.
    Eu é que agradeço por poder ler teus escritos. É um enorme prazer.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!