Opções:

Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Primavera entre os dentes

Imagem: Vladstudio
 

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Primavera nos dentes - Secos e Molhados (João Ricardo/João Apolinário)


Dimas Lins

Estava atrasado. A pontualidade nunca esteve entre as minhas prioridades e procuro ser ainda menos pontual, quando o meu compromisso é com o dentista.

Tenho medo de ir ao dentista. Não. Tenho verdadeiro pavor de ir ao dentista! Tanto assim que chego atrasado às consultas na esperança de não poder ser mais atendido. Porém, sempre sou, não importa o que eu faça. Meu odontologista conhece bem as minhas artimanhas e não se deixa vencer. Além do mais, ele é um gozador. Adora se divertir às minhas custas. À custa do meu medo. Enfim, esse sou eu. Um homem jovem, mas com alguma experiência de vida, morrendo de medo de um consultório dentário.

O medo natural e compreensível tornou-se pânico ainda criança. Numa dada ocasião, a angústia de esperar foi tão intensa que, ao entrar na sala do doutor, me ajoelhei chorando aos seus pés e implorei que me poupasse do sofrimento. Minha mãe, envergonhada, prometeu que em casa eu pagaria “o novo e o velho”. Seu modo de falar indicava que eu levaria uma surra daquelas, não apenas pelo que acabara de fazer, mas por tudo o que eu tinha feito de errado em toda a minha vida e, por alguma razão, ainda não havia pago a dívida. Porém, a recordação mais intrigante que tenho daquele dia veio da expressão que vi no rosto do dentista. Diante da minha humilhação, ele parecia sorrir gentilmente, mas só eu sabia que, disfarçado em seu sorriso, havia um ar prazeroso, de satisfação e regozijo. Seu olhar me intimidou tanto que foi daí, desse breve momento, que do medo criou-se o pânico.

De volta a minha consulta, confirmei contrariado junto à secretária que ainda seria atendido. Desapontado por não ter sido suficientemente relapso, escolhi uma revista - como se naquele local eu pudesse me concentrar na leitura - tomei um calmante e me sentei. O calmante era necessário, porque, na ante-sala, sempre fico alerta. A ansiedade irracional me faz relembrar de cada experiência perversa vivida na cadeira de um dentista e essas lembranças me deixam perturbado. Assim, todos os meus sentidos ficam mais aguçados. Neste estado de hipnose, minha mente aflora e é povoada pela soma de todos os meus medos.

Do lado de fora, meus ouvidos captavam um zunido tenebroso. A broca apavorante soava como a trilha sonora de um filme de Hitchcock. Boa parte do medo que sinto vem deste instrumento de aparência rudimentar: uma haste com uma ponta metálica aguda e perfurante. Um estudo publicado na revista científica Nature revelou que pesquisadores dataram, através de exame do carbono 14, a existência da broca há mais de nove mil anos. Por suposto, a anestesia deve ter sido criada muito tempo depois. Assim, para passar o tempo, calculei exponencialmente o sofrimento dos nossos antepassados e imaginei todo aquele sangue jorrando sem parar de suas bocas.

O ar do condicionador da ante-sala gelou meu corpo. Naquele inverno glacial, eu batia o queixo ao mesmo tempo em que meu coração acelerava. Tremia de frio, tremia de medo. Minha atenção se voltava exclusivamente para o outro lado da porta. O lado de lá. Àquela altura, já não via nem ouvia mais ninguém ao meu redor. Pessoas, coisas e móveis desapareceram diante dos meus olhos. Tudo sumiu. A parede que separava a ante-sala da câmera de tortura dissolveu-se à minha frente. Restava apenas um vão ocupado pelo dentista e suas parafernálias horripilantes. Agora, não havia mais separação entre a visão aterradora daquela cadeira infernal e eu.

Aceitei o convite do homem de touca e máscara cirúrgicas e, cautelosamente, me sentei. Dali a pouco, assessórios metálicos me impediam de fechar a boca, deixando-me completamente vulnerável. Numa distração, deixei que ele amarrasse um dos meus braços à cadeira. Sob a máscara agora, um olhar sinistro. Subitamente, mas sem intenção, o dentista permitiu-se desnudar seu rosto e pude reconhecê-lo. Era ele! O mesmo sádico da minha infância! O monstro que me assombrou durante tanto tempo voltava de meus pesadelos para me causar terror.

Ele acionou a broca e avançou violentamente sobre mim. Com a única mão ainda livre, tentei impedi-lo, mas não foi possível. Senti o metal pontiagudo penetrar impiedosamente em meu dente. Uma dor intensa se apoderou de mim. Desesperado, projetei meus pés contra o seu corpo e consegui afastá-lo. Enquanto ele se recompunha, eu me desatava da cadeira. Tomei em minhas mãos a broca que ele perdera durante o empuxo e, em seguida, me armei com o alicate de extração. Ele armou-se com a seringa de anestesia e ficamos por alguns segundos estudando um ao outro. Lembrei-me dos nossos antepassados. Levas de gente indefesa e suas bocas ensangüentadas. Vingaria seus sofrimentos. Agiria em honra aos homens, mulheres e crianças perseguidos em nome da saúde bucal.

Estava pronto para a batalha final. Ele, um guerreiro acostumado a usar armas medievais; eu, comparado a um simples aldeão, já que nunca empurrara nenhum daqueles instrumentos, lutando em nome da justiça. Sim, era uma luta. De um lado os fracos e oprimidos; de outro, os opressores do mundo moderno. David versus Golias.

Arranquei as tranqueiras da minha boca e tomei a ofensiva. Minha ação inesperada forçou o seu recuo. Investi a broca contra ele e perfurei-lhe um dente. O monstro acusou o golpe e recuou ainda mais. Como um louco, golpeei-o sem cessar e consegui derrubá-lo novamente. No chão, apoiei meus joelhos sobre o seu tórax e o atingi na boca com o alicate. De um lado eu atacava com a broca e, de outro, arrancava-lhe os dentes, um a um.

Quando a vitória parecia consumada, recebi um contragolpe anestesiando meu braço direito. Com um braço adormecido, tomei outro revés. Dessa vez, a seringa atingiu minha jugular e subitamente entonteci. Antes de levar o golpe final, ainda pude ver seus olhos furiosos me encarando e sua boca ensangüentada cuspindo sangue em minha testa. Estava sacramentada a minha derrota.

Mais tarde, senti uma mão gentil tocar-me o ombro. Era a secretária, que vinha me avisar que chegara a minha vez. Estava um pouco tonto, mas suficientemente lúcido para saber que tudo não passava de um sonho. O sono havia me tomado de jeito.

Levantei da cadeira e fui enfrentar meus medos. E antes de entrar na sala, mesmo me sentindo derrotado pelo temor, não vacilei. Apertei a mão do dentista e sorri amavelmente. Precisava superar um trauma de infância. Era preciso segurar a primavera entre os dentes.

2 Comentários para “Primavera entre os dentes”

  1. Gravatar

    Dimas,

    A única vez que fui ‘pontual’ na chegada ao ‘dentista’ foi quando jogando futebol na escola, em uma queda, tive um dente frontal quebrado, aí corri pro consultório, as meninas não poderiam me vê muito tempo com uma ‘janelinha’ na boca, deixando meu sorriso tímido!

    CORAGEM AMIGO !!!!

    Abraços …

  2. Gravatar

    DENTISTA/GINECOLOGISTA

    Odeio ficar na posição de galinha no espeto quando vou ao ginecologista, mas me sinto ainda mais exposta quando estou de boca completamente aberta no dentista.
    O “não se mova, fique quietinha” enquanto um dentista fura o meu dente atrás da dor (eles costumam chamar aquela dor agudíssima de ‘cárie’, mas é só golpe publicitário) equivale ao “por favor, relaxe” enquanto um tubo metálico gelado é enfiado a seco até o útero no exame preventivo.
    Em suma, ginecologista e dentista são muito parecidos. A diferença é que posso optar por não sofrer um parto, mas não tem jeito de eu nunca ter uma cárie.
    E sempre há uma secretina que não sabe que aquela porra que devia sugar o líquido de nossa boca está puxando é a parte interna da buchecha.
    Sou tão irada com dentista que nunca faço dois tratamentos com o mesmo. Sempre acho que o último me sacaneou. Pura ilusão: todos são iguais.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!