Nuvem negra
- on 31 de julho de 2008, às 0:00h
- Tiquinho de nós
Imagem: Luciana Azambuja
Nuvem negra - Gal Costa (Djavan)
Dimas Lins
Já é hora de levantar da cama, apesar de ter atravessado outra noite mal dormida. Desta vez, um cachorro latiu por toda a madrugada. Devia ter ido à janela para jogar alguma coisa em sua direção ou mesmo atirar em sua cabeça. Mas não. Optei pela improvável possibilidade de dormir com o barulho do latido. No escritório, minha noite mal dormida não significará nada para o meu chefe nem para os colegas e terei que dar conta do meu trabalho do mesmo jeito, ainda que eu seja tomado pelo sono durante todo o dia. Ah, mundo cão!
No café da manhã, a comida sem graça de sempre. Meu paladar já não se sente atraído por nada que coloco sobre a mesa e quase não sinto o sabor das coisas. Ainda percebo o cheiro dos alimentos, mas ele é nauseabundo e me dá asco. Minha vontade é atirar a comida pela janela e inundar o quarteirão com repugnância.
Não consigo terminar o café, mas tenho que deixar os pratos na mesa, pois a pia já está tomada por tanta tralha. Há dias não lavo uma colher sequer. Desconfio que o cheiro desagradável venha daí. Penso também em jogar toda aquela louça barata pela janela, mas não há outra nem há dinheiro para comprar outra. Deixo então tudo como está.
Desço até a garagem e o vizinho, mais uma vez, estacionou seu carro fechando um pouco a minha passagem. Sempre tenho dificuldade para tirar meu carro do lugar, porque aquele imbecil não presta atenção no que faz. Ele não se importa com quem está a sua volta. Sua atenção alcança apenas o seu umbigo. Qualquer dia, descerei com uma faca e rasgarei todos os pneus do seu carro. Talvez assim ele passe a prestar mais atenção em mim.
Não bastasse a distração do vizinho, meu carro demora a pegar. Sempre que isso acontece, eu preciso solicitar ajuda ao porteiro. Não gosto de fazer isso, pois odeio o modo como ele me olha. Sem desfaçatez, seu olhar sugere que sou um estorvo, um peso morto, um embaraço para todos no prédio. Penso em mandá-lo à merda, pois ele não passa de funcionariozinho medíocre que depende da minha taxa do condomínio, para que ele possa receber o seu salário em dia. Quem é o estorvo?!
Finalmente, saio do prédio, mas basta dobrar a esquina para encontrar a cidade paralisada em cada sinal e em cada cruzamento. Um carro me ultrapassa pela contramão e, por conta do fluxo contrário, tenta voltar à faixa bem a minha frente. Não permito. Talvez ele se considere especial e acredite que seu compromisso seja mais importante do que o meu. Não é. E se for, não estou nem aí. Se depender de mim, ele continuará na contramão paralisando o trânsito já paralisado.
O motorista imprudente agora sente a pressão, porque todos os carros no sentido contrário buzinam por sua causa. Ele me olha, como se apelasse para a minha generosidade. Não pretendo ajudá-lo. Não vou ajudá-lo. Nesta cidade é cada um por si e eu contra todos.
Chego quase meia hora atrasado, tempo suficiente para ser chamado por meu chefe à sua sala. Ele é um homem gordo, careca na parte central da cabeça e tem um bigode enorme e fora de moda. Sua aparência desagradável me faz lembrar um desajeitado leão marinho. Enquanto ele me repreende duramente, eu me vejo calmamente sacando uma pistola prateada de 9 mm e apontando para sua cabeça. O leão marinho já não esbraveja mais. Ao contrário, parece um cordeirinho e me pede calma. Dane-se a calma! Sem pestanejar, puxo o gatilho e atiro contra a sua testa. Em fração de segundos, a bala perfura seu crânio e se aloja na parede do escritório. Os miolos voam pela sala e um sangue grosso se espalha no chão. Aproximo do corpo sem vida e cochicho em seu ouvido que ele nunca mais levante a voz para mim. Acho que ele aprendeu a lição.
Desfeito o transe, retorno para a minha mesa sob a ameaça de demissão. O leão marinho um dia há de se ver comigo.
Já se passaram quase oito horas de trabalho e um homem muito rude grita ao telefone. Como atendente de telemarketing, sou obrigado a manter a calma, para não perder o emprego. Mais. Tenho que defender os interesses desta porcaria de empresa, por pior que seja a sua política de atendimento aos clientes. O homem grita e, enquanto ouço seus gritos, vem a minha cabeça dezenas de palavrões que gostaria de lhe dizer de volta. Meu contrato de trabalho não prevê desaforos. Além do mais, não tenho outro emprego em vista. Antes de ir embora, ainda ouço o meu chefe lembrar que não será mais tolerante com os meus atrasos. À merda, leão marinho!
No caminho de volta, o trânsito é ainda pior. Um motoqueiro me corta pela direita e, no susto, quase jogo o carro em cima de um pedestre. Ele, o pedestre, me aponta o dedo e bate a mão com força sobre o capô do carro. Tenho vontade de dar ré e passar por cima do miserável até ele pedir desculpas ou morrer. O que vier primeiro. Tenho vontade também de ir atrás do motoqueiro e trancá-lo numa avenida movimentada. Depois da queda, os outros automóveis fariam o resto.
Já em casa, tomo um banho, como se tentasse lavar minha alma, que parece encardida e maltratada. Paro diante do espelho e não me reconheço mais. Vejo refletida a minha cara séria e sem graça, pois não vejo razão para sorrisos. Vou direto ver TV, mas nada presta. Está difícil ser eu.
Cansado e sem ânimo, vou para a cama, mas, o sono não vem, porque embaixo da minha janela, o cachorro late novamente. Alguém precisa detê-lo. Eu preciso detê-lo. Levanto da cama, pego a minha arma e aponto e sua direção, mas não consigo puxar o gatilho. Não há nada de errado com o cão. Volto para a cama decidido a mudar de vida.


“Eu me pergunto: por que os cachorros latem? Jamais encontrei a resposta. Essa questão só me ocorre quando estou de ressaca, ou quando acaba o antidepressivo. Não preciso saber por que os cães latem caso esteja numa situação normal. Aqui caberia indagar: o que é uma situação normal? Em 95% do tempo eu estou de ressaca ou deprimido, às vezes as duas coisas, em diferentes graus de intensidade. Isso quer dizer que quase sempre eu me pergunto a razão de os cães latirem, e que a situação normal, na verdade, é um fato atípico, incomum, raro como uma efeméride.Meu nome, como vocês já devem saber, é Homem-Ressaca. Eu tenho um amigo imaginário, o Cão-Ressaca. É um cão silencioso e bem-comportado. Porém, como eu já disse, as condições normais são extremamente raras. Agora, enquanto me observa com seus olhos imaginários, o Cão-Ressaca começa a latir. Tento perguntar a ele o motivo de tanto barulho, mas – é sem pre útil lembrar – cães imaginários não respondem às nossas perguntas. Eles apenas latem.”
autor desconhecido. achei na internet, parece o seu cão…um pentelho…bjs,
yvette
Uau, puro Buckowski.
Engraçado como a vida pode ser mais surreal que a fantasia. A gente se prende tanto, se limita tanto, conta até 10, mil vezes por dia. Abusa tanto da nossa tolerância que um dia ela cobra a fatura. E a gente faz porcaria.
Bem-aventurados os que mandam os chefes à merda. Felizes os que se despem da etiqueta.
Bom demais, camarada.