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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Pelo celular (em tempos de grampos)

Ana Cláudia (Crônica publicada originalmente no blog Ninho dA’Ninha)

Uma singela homenagem aos meus grampeadores

- Oi. E aí?

- Então, conseguiu?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos? Mas mais pra mais ou mais pra menos?

- É que deu rolo.

- Não fala em rolo, meu telefone tá grampeado. O que houve?

- É que… Não sei se eu posso falar, teu telefone tá grampeado, e se teu telefone tá grampeado, a essa altura do campeonato o meu também tá.

- Fala por código, mas fala.

- Não podia ser pessoalmente? Onde você está?

- Eu tô aqui, mas tá difícil.

- Pera. Você tá onde, e o que é que tá difícil?

- Eu tô aqui, aqui, no QG, sacou? No QG. Mas tá difícil porque eu não posso sair daqui.

- Então eu vou aí.

- Não! Tá louco? Vem não. A figura tá aqui.

- Figura? Que figura?

- “A” figura. Não posso falar o nome, meu telefone…

- … tá grampeado. Já sei, já sei. É o A?

- Aham.

- Tá sacando que eu tô falando “o A” pra disfarçar, né? Que na verdade esse A a que estou me referindo nem tem A no nome nem é mulher. Entendeu né?

- Como é que é?

- Deixa pra lá. O A é quem eu tô pensando que é?

- Deve ser. É o A de sempre, ele mesmo.

- E por que é que eu não posso ir ao QG quando o A está lá?

- Lá onde?

- Lá. Quer dizer, aí, no QG.

- Ah!

- Tá falando comigo ou com o A?

- Hein?

- Eu escutei. Você falou “A”. É um código novo ou você estava falando com o A?

- Eu falei A? Falei não…

- Falou, eu ouvi.

- Deixa eu ver… Ah não… Eu não falei A, eu falei Ah!

- Aaaahhhh… Sei lá, acho que entendi. Mas deixa pra lá. E o treco? Então, conseguiu ou não conseguiu?

- Consegui, mas não tudo. E sem nota. O cara se recusou a entregar a nota.

- E você comprou mesmo sem nota? Tá louco? Como é que vou prestar contas depois? Eita porra, estamos falando demais. O telefone tá grampeado, esqueceu?

- Puxa, eu quase esqueci desse detalhe. Sacanagem grampearem o telefone da gente né?

- É, sacanagem mesmo. Mas deixa pra lá, da gente eles não vão conseguir nada.

- Tudo bem. Mas como é que eu faço pra me livrar do troço, já que eu não posso ir aí?

- Arranja um carro disfarçado de comum. Sabe, do tipo gol branco? Então. Arranja um desses e leva até a esquina do QG. Chegando lá, você dá um toque e meio no meu telefone.

- Pera. Como é isso de dar um toque e meio?

- É fácil. Você… Deixa pra lá, dá dois toques mesmo. Aí eu vou me encontrar com você duas ruas abaixo daqui. Você desce as duas ruas, entra à esquerda, vira na segunda à direita e deixa o pacote embaixo de uma árvore florida que tem na calçada.

- Beleza, estamos combinados. Já vou.

- Valeu.

(Meia hora depois)

- Ô, cadê você? Estou te esperando há mais de meia hora!

- Estou aqui, no lugar combinado. Você não apareceu!

- Eu fiz tudo como você mandou. Desci, dobrei, dobrei de novo e tô embaixo da árvore.

- Caraca, eu não acredito! Você foi para onde eu mandei você ir? Você tá louco? A essa altura do campeonato tem uns 15 PFs disfarçados a seu lado para nos flagrar enquanto você me passa o troço.

- Mas você marcou!

- Dãããã! Era pra fazer tudo exatamente ao contrário, mané. Não lembra? Meu telefone tá grampeado!

- E como é que eu vou adivinhar?

- Deus, contratei uma anta! Já que estragou tudo mesmo, que os policiais federais estão lhe seguindo, então vem direto para o QG e entrega logo essa porra dessa marmita de uma vez, merda!

4 Comentários para “Pelo celular (em tempos de grampos)”

  1. Gravatar

    Haha!!! Genial, genial, Aninha Claudinha! Eita, não devia ter dito o teu nome, afinal vc está agora envolvida nas campanhas políticas… Eita, eu disse tudo! Foi mal, foi mal…

  2. Gravatar

    Artur,

    Você entregou de bandeja nossa querida amiga. Sei não, mas esse não é a cara da política brasileira?

    Dimas

  3. Gravatar

    Hilário seu texto “Ana Cláudia” ,

    A moda pegou mesmo, o cara que gosta de dá uma escapada com a ‘outra’, a ‘B’, além do grampo, tem a extenção do telefone fixo sempre presente na cozinha para a dona poder monitorar o cara!

    Agora um infeliz desempregado como eu é que tá ferrado mesmo, se eu falar em ir a banco, vai surgir a dúvida de com que dinheiro eu ando andando!? Outro dia me ligou uma moça me convidando pra fazer um trabalho pra um político conhecido em Recife, perguntaram logo se meu celular era grampeado!? isso ainda não sei, mas a verdade é que sempre existe um mal cheiro nas coisas erradas que fazemos, e aí o grampo já não é tão necessário! A própria consciência nos denuncia! Tomara que a ‘marmita’ não tenha estragado !!!!

    Abraços !!!!

  4. Gravatar

    Fantástico. Excelente diálogo. Coisa rara de se ler. Parabéns.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!