Conversa oca
- on 7 de agosto de 2008, às 0:00h
- Série comemorativa
Ele me deu um beijo na boca (Caetano Veloso)
No próximo dia 19, o Estradar completará um ano de vida. Um ano de publicações de contos e crônicas de uma gente brasileira. É uma satisfação.
Para comemorar o aniversário do Estradar, fiz uma seleção das crônicas que mais me deram prazer em escrever e, durante o mês de agosto, publicarei alguma toda quinta-feira. Para cada texto, farei uma pequena introdução contando algumas curiosidades sobre a crônica. Mas o mês de agosto não sobreviverá apenas de retrospectivas, pois pretendo publicar também textos inéditos.
A primeira crônica desta série comemorativa é Conversa oca, uma das minhas favoritas. A crônica foi publicada em 04 de setembro de 2007, depois de uma conversa com o amigo Artur Perrusi. Perrusi me contava numa mesa de bar que as mulheres não acreditavam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Os homens são capazes de momentos de absoluto vazio, mas elas não crêem nesta verdade incontestável.
Já em casa, relembrando nossa conversa, aparentemente inverossímil, minha esposa me perguntou de que eu estava rindo. Ri ainda mais e acabei encontrando a linha desta crônica. O arremate final veio da inspiração na fantástica música “Ele me deu um beijo na boca” de Caetano Veloso.
Dimas
Dimas Lins
Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.
- Em nada - respondi.
(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)
- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.
- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.
E eu ri à beça.
- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?
- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.
- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.
E ela riu e riu e ria. E continuou:
- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.
Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.
- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!
Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.
- De quê você está rindo?
- De nada - respondi.
- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!
- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.
- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!
Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.
- Você está apaixonado?
- Eu sempre estou apaixonado.
- Por quem?
- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.
-Você está apaixonado por outra pessoa?
- Por que essa pergunta oca agora?!
- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!
- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.
Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.
- Basta de filosofia! - ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.
Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.


Muito bom, Dimas!
muito bom Dimas… de vez em quando me pego pensando em nada… lendo tua crônica fico pensando se nessas horas não somos verdadeiramente livres, uma vez que a obrigação de pensar em alguma coisa nos escraviza e por vezes nos controla.
um grande abraço,
… Valeu “Dimas” … Parabéns e longa vida ao ‘Estradar’ !!!!
E vc sabe qual a coisa mais velha do mundo ???
Resposta: a estrada, pois quando agente nasceu ela já estava lá !!!
abraços meu amigo !!!
Pois é, grande Dimas. “E a crítica que nao toque na poesia…”
Abraçao Cabra
Dimas. Passei para tentar descobrir seu e-mail… Peço que me envie, pois não encontrei… Estou inciando o Littera Tour num blog… Mas ele existe mesmo em forma de arte-e-mail…. Parabéns pelo ESTRADAR… Vamos trocar figurinhas…