Pau que nasce torto
- on 14 de agosto de 2008, às 0:00h
- Tiquinho de nós
Uns (Caetano Veloso)
Dimas Lins
Pau que nasce torto, não precisa morrer torto. Há jeito para tudo na vida. Para a morte também. Ao menos para Norberto, que cria na morte como uma passagem para outro estágio espiritual.
Ele sempre teve um coração de ouro. Quando menino, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, sem que ela pedisse. Fazia por sua natureza generosa. Costumava ser visto nas ruas do bairro fazendo pequenas camaradagens. Era cordial com todos, especialmente com os mais velhos, e defendia os que não tinham meios de se defender. Não guardava mágoa ou rancor e possuía uma imensa capacidade de perdoar. Também não dormia à noite, se concluísse que dera a alguém causa a algum embaraço.
Mais velho, tornou-se comerciante. Dono de um pequeno comércio vizinho à sua casa. Aplicava com justiça os preços no armazém e gozava do respeito de sua clientela. Era um homem honrado.
Norberto também se tornou cristão. Primeiro foi católico, depois espírita. Todo domingo de manhã ia aos sinais de trânsito fazer campanha do quilo. Sua generosidade emprestada a um bom combate. Acreditava nas pessoas e numa mudança - ainda que lenta - do mundo em direção a um lugar melhor e mais humano.
Desde criança, Cosme metia-se em encrenca. Na escola, costumava intimidar os mais novos, tirando vantagem do seu vigor físico. Da intimidação passou à ameaça e, em seguida, à extorsão.
Cosme começou com pequenos furtos. Foi preso pela primeira vez aos doze anos. Aos trezes, fez seu primeiro assalto à mão armada e aos quinze matou um homem. Foi preso novamente aos dezesseis.
Norberto e Cosme se conheceram num reformatório. Norberto fazia visitas regulares aos menores. Pensava que um escorpião, se fosse do seu desejo, seria capaz de mudar a sua própria natureza. A alma poderia ser domesticada, assim como um cão. Cosme ouvia os conselhos de Norberto com atenção e respeito.
Quando Cosme saiu do reformatório, Norberto o acolheu. Tratou-o como filho. Deu-lhe casa, comida e ensinou-lhe um ofício. Cosme agora era um trabalhador assalariado.
Certa vez, já tarde da noite, Norberto retornou ao armazém para pegar algumas anotações. Deu de cara com Cosme se apossando do dinheiro em caixa. Norberto foi ao chão. Levou dois tiros. O primeiro no ombro. O segundo no peito foi fatal.
Pau que nasce torto, morre torto. Um escorpião não é capaz de mudar a sua própria natureza, nem tampouco a alma é um cão para ser domesticada. Também não há jeito para tudo na vida. Quem sabe para a morte, se ela for mesmo uma passagem para outro estágio espiritual, como acreditava Noberto.



Ótimo texto “Dimas” ,
Tenho uma grande admiração pela doutrina Espírita. O “Norberto” enquanto vivo teve uma vida NOBRE, bom caráter e preocupação com o próximo! Certamente em uma ‘vida passada’ o “Cosme” pode ter sido uma vítima do “Norberto”. Agora, a infelicidade é a imensa REGRESSÃO ESPIRITUAL do “Cosme” que usou do pior expediente para poder se livrar do ‘flagrante’, escolhendo assim ‘tirar a vida de seu semelhante’ do que se entregar!
Dimas, um pau torto até que pode se consertar. Mas como saber se isso vai acontecer?
Infelizmente, são os nobertos que dão asas e palco para seres diminutivos… se é que me entende. Ah, tolinhos…