A mulher que trai
- on 9 de setembro de 2008, às 20:45h
- Meus caros amigos
Imagem original: Infiel

Liana é das pessoas mais doces que conheço. É claro, sou suspeito para falar, porque ela é minha cunhada. Mas não é por isso que penso assim. Ela passa mesmo aquela impressão que toda pessoa boa de espírito passa para a gente.
Liana não torce por nenhum time de futebol. Porém, como boa amiga que é, se solidariza comigo, quando o meu time - o glorioso Santa Cruz Futebol Clube, que vive os dias mais inglórios de sua história - perde. Ultimamente ela tem sido mais solidária do que de costume, já que o Santa parece ter esquecido os tempos de vitórias.
Pensando em contribuir para fechar as feridas futebolísticas, Liana me manda este texto delicado. Embora minhas feridas só possam cicatrizar com o ressurgimento do meu clube de coração, o texto de Liana me serve bem de consolo.
A escolha da imagem fica por minha conta. Trago o deboche que costumo usar no Torcedor Coral, meu blog sobre o Santa Cruz, para cá. Quebro um pouco o ritmo do texto, é verdade. Mas alguém já ouviu falar de futebol sem deboche?
Dimas
Maria Liana Macêdo
Nem bem abriu os olhos e à mente lhe veio a lembrança. Às vezes o nome também lhe vinha assim, de repente. Espreguiçou-se. Pediu proteção aos anjos e santos para aquele novo dia e levantou. Foi à cozinha com o pensamento na noite anterior. Estava ainda na sua cabeça a imagem. Na memória olfativa, o cheiro. Era tudo muito forte. Uma espécie de embriaguez. Pegou a jarra de água que fica na parte seca da pia e encheu o copo, como gosta. Teve dúvida se tomava ele todo. Nunca tinha sede a esta hora do dia. Era mesmo um hábito. Água natural para começar bem. Voltou ao quarto amplo e claro. Ela adorava aquele branco das paredes, móveis, lençóis, tudo enfim. Quando morrer quer que o céu seja assim: branco e limpinho. Uma espécie de continuidade das suas manhãs. Abriu o chuveiro, esperou o primeiro e segundo jatos e entrou. Assim é melhor. Quem sabe a ducha fria lhe tire do pensamento o proibido. Banho renova, revigora, mas ainda sente palpitação, certa ansiedade, medo infundado, ou será que ela sabe do quê? O pensamento continua lá, firme. Tenta em vão desvirtuá-lo. Escova os dentes e o aparelho móvel, que não é o celular. É sim uma peça ortodôntica que a faz lembrar (e fará sempre), que um dia teve protrusão e consertou tarde demais. Mas ainda é melhor que o fixo. Também fixo é seu pensamento. Noite passada demorou demais a dormir pensando quando chegaria o dia de assumir a verdade. Por isso havia marcado uma taróloga. Queria ouvir das cartas o que a sua mente perturbada já lhe dizia: dias difíceis virão. O marido, rubro-negro roxo e doente, nem sonha que toda noite ela dorme com um lencinho tricolor junto ao seu coração, agora partido.


Que delicado, Liana! Gostei!
Fantástico seu texto “Liana”,
Não se trata de uma ‘mini corrupção’ essa traição, é paixão pura, e às vezes se torna difícil mesmo de ser revelada! Quando se trata do SANTA CRUZ, tudo é muito mais difícil!
Abraços e parabéns!
Excelente. Rubro-negro merece traição muito maior do que um simples lencinho. Parabéns Liana.