O primeiro sorriso
- on 17 de setembro de 2008, às 0:00h
- Nau minha
Imagem: Vladstudio
Gabriel - Beto Guedes (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Dimas Lins
É só de ninar e de desejar que a luz do nosso amor, matéria-prima desta canção, fique a brilhar.
Beto Guedes e Ronaldo Bastos
Já havia recebido outros sorrisos, mas nunca um assim. Os outros foram incondicionados e irrefletidos. Saltos olímpicos dos músculos da face ou efeito de um pensamento ininteligível. Nada que indicasse que eu fosse o alvo da expressão de tanta amabilidade.
Juro de pés juntos, quase emocionado, que esse foi diferente. Ah, se foi! Eu sabia que ela sorria para mim e por minha causa. Pela primeira vez, senti que houve uma reciprocidade entre nós dois. Uma interação capaz de me atingir com uma felicidade indescritível.
Sei que pareço um tolo, pois se trata apenas de um sorriso. Mas, convenhamos, que sorriso! Saibam todos que seus lábios espalharam pelo quarto um turbilhão de pureza e inocência. A sensação é parecida com a primeira vez que a gente experimenta tapioca com coco e queijo. Em momentos assim, a gente percebe que a vida é bem mais leve e gostosa do que aparenta.
Não nego que às vezes me sinto manipulado. Isso admito. Ultimamente, reconheço que me tornei tão-somente um meio de transporte. Basta ela bater o pezinho e lá vou eu a andar pela casa, carregando-a em meus braços pra lá e pra cá. Mas não estou nem aí. Ela me ganha com qualquer sorriso ou mesmo com uma ameaça de choro. Um choro falso, é verdade, mas suficiente para fazer dela uma amazona e de mim, um alazão. Trotamos pela casa até ela se dar por satisfeita ou minhas costas pediram descanso.
Mas volto ao sorriso. Foi logo de manhã. Depois do banho, passei em seu quarto para vê-la. Dormia como um anjo. Perninhas cruzadas, ela não negava as origens, pois lembra o pai em seu sono profundo - minha esposa é testemunha e não me deixa mentir muito. Soltei um beijo no ar e segui para tomar café.
Meu café agora é solitário. Enquanto estou à mesa, minha esposa dorme. Sinal das interrupções do sono em benefício da amamentação. Por isso, e só por isso, concentrava-me no trabalho, pois sabia que teria um dia agitado. Entre um gole e outro, repassava na cabeça os compromissos que encontraria mais à frente.
Tão logo terminei o desjejum, retornei ao seu quarto. Ela agora estava acordada, silenciosa, serena, sem ninguém por perto. Parei em frente ao berço e aguardei a inquietação natural que tem todo bebê ao acordar e se ver sozinha em seu pequeno leito. Ela arregalou os olhos ao me ver chegar e disparou um sorriso em minha direção. A visão de sua boca aberta, ainda sem dentes, me atingiu em cheio. Homem de pouca fé, mudei de posição para ter certeza que seu sorriso não era aleatório e despropositado. Ela me acompanhou com os olhos até que eu sentasse na cama ao lado e tornou a sorrir. Toquei com a ponta do dedo indicador em seu queixinho e o riso correu ainda mais solto, acompanhado da sua voz deliciosa.
Não há maior prazer para um pai! Comparei seu sorriso a poucas coisas em minha vida, como a primeira tapioca com coco e queijo a que me referi inda agorinha.
Saí de casa carregando-a no pensamento e achando o mundo um lugar perfeito para se viver. Também, com um sorriso daquele, quem não acharia?


Camarada,
Você tem a sorte de ser um pai apaixonado e conseguir exprimir exatamente o que sente. Malu tem a sorte de ter este pai. E a gente tem a sorte de ser seu leitor.
Não sei o que você fez da sua antiga idéia de escrever um livro, mas acho que acabo de ler mais um conto de um outro livro… concorda?
Cláudia,
A idéia ainda está de pé. Na verdade, são dois livros. O primeiro e mais fácil de fazer, será uma coletânea dos contos e crônicas do Estradar. A segunda, mais densa e mais complicada, porque exige a retomada de uma pesquisa, é um romance que se passa nos anos de chumbo.
Escrever, eu escreverei. Publicar é que são outros quinhentos.
Dimas
Fiquei emocionado Dimas… me trouxe muitas lembranças… lembranças de um pai babão, como eu, como vc.
Linda crônica… um grande abraço!