Adolescência
- on 22 de setembro de 2008, às 0:00h
- Meus caros amigos
Artur Perrusi
Por algum motivo esquecido, ele procurava alguma informação sobre Santos Dumont no Google. Encontrou o nome “14 Bis”. Foi uma Madeleine de Proust. Lembrou de tudo.
Tinha entre 16 e 17 anos e namorava Geneviève. Ganhara um disco e teve que engolir em seco. Ele era rockeiro e recebera como presente um disco do 14 Bis, aquele conjunto comandado por Flávio Venturini. Sorriu amarelo. Fez um esforço imenso. Tudo por amor.
Colocou pra tocar. Escutou “Todo azul do mar”. Descobria, sem querer, que a paixão era um processo intenso de abiscoitamento. Adorou a música. A letra era abestalhada, mas se derretia todo quando a ouvia. Passou a pensar que a paixão era um mar. Dizia a Geneviève que ela era seu mar. Ela se derretia toda. Ele começava a perceber que as palavras causam prazer e tempestade. Era tudo uma questão de forma. Antes de ser uma ética, a paixão é uma estética. Muito tempo depois, descobriu que o amor é que era uma imensidão, do tamanho do universo. Hoje, sabia que era a coisa mais importante do mundo. Mas, pensou, tudo continuava sendo uma questão de forma.
Ele ria muito quando adolescente. Ria por rir, e nunca ria de si mesmo. Geneviève e sua mãe adoravam seu sorriso. Oferecia o seu melhor e recebia, em troca, fatias de bolo de chocolate. Mas, apesar do chocolate, algo não estava bem naquela relação. Todo dia, ele andava 15 km de bicicleta até sua amada. Descobria, a cada dia, que sua paixão tinha sérios limites - 15 mil metros, para ser mais preciso. Não agüentava mais. A cada pedalada, um naco de sentimento escafedia-se pelo caminho. Chegava esbaforido na casa de Geneviève e já não achava graça alguma nas fatias de bolo de chocolate.
Começou a pensar seriamente em terminar o romance. Não tinha ainda a inteligência suficiente para imaginar uma solução um tanto óbvia: por que não, ao invés de todo dia, três dias de namoro? E ainda mais espaçados? Não, a mentalidade adolescente adora extremos: ou era o martírio cotidiano ou era o fim. De todo modo, pela primeira vez, entrava em contato com o supremo dilema masculino: como acabar uma relação?
Era um cartesiano. Tinha que fazer um plano. A situação era muito complexa: quando chegava de bicicleta, namorava um pouquinho no portão da casa de Geneviève; depois, atravessava a sala, falava com os pais, que assistiam à novela, e ia namorar mais um pouco no quintal. Assim, a logística era a seguinte: não podia acabar o namoro no quintal. Diante da conversa derradeira, Geneviève debulharia, certamente, em pranto. E, convenhamos, não podia passar de volta na sala com a coitada, ainda mais soluçando horrores, porque os pais desconfiariam do trágico final. Como acabar? A solução encontrada foi genial: namoraria no portão, passaria pela sala, sorrindo como de costume, namoraria no quintal, passaria na sala, novamente, rindo muito para ninguém suspeitar, e acabaria o namoro no portão, justamente na hora da despedida. A solução era mecânica e eficiente. De fato, era um cartesiano.
No dia, o plano funcionou, acabou o namoro na hora da despedida, mas não deu sequer um sorriso. Não conseguira. Ainda disse um clichê, que decorara no caminho, durante as pedaladas: “Geneviève, você conseguirá superar tudo. Não se preocupe. Tenho certeza.”.
Tempos depois, Geneviève disse-lhe que sentiu um aperto gigantesco no coração, assim que o viu, pois soube, de alguma maneira, o que ia acontecer. Só não entendera por que a conversa final fora no portão. Ela reteria o choro para não constrangê-lo diante dos pais. Era óbvio que faria isso. Soubera, da pior maneira possível, que ele não lhe tinha confiança.
Ele sabe, agora, o quanto Geneviève sofreu, o quanto ele desconhecera seu sofrimento, o quanto fora insensível. Um dia, quando a encontrou, pediu desculpa, mas sem perdão. Sempre existe a melhor forma de se acabar uma relação, mesmo um namoro.
Tudo é uma questão de forma.
Artur Perrusi escreve regularmente no Blog dos Perrusi.



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