Panela de pressão
- on 27 de outubro de 2008, às 13:45h
- Tiquinho de nós
Pintura: Menina escolhendo feijão, de João Werner

Angélica - Chico Buarque (Miltinho/Chico Buarque)
Não passava das onze horas da manhã quando Dona Maria Quitéria deixou a panela de feijão no fogo aos cuidados de Benedita, a filha mais velha entre cinco irmãos. A mãe deixaria as obrigações da casa para levar uma quartinha ao marido, que cuidava da roça junto ao filho de quinze anos. A água carregada no pequeno recipiente de barro serviria para atenuar os efeitos do sol a pino na cabeça dos dois.
Benedita era uma jovem de dezessete anos incompletos. Não foi lhe dada a oportunidade de aprender a ler e a escrever. A primazia foi concedida ao segundo filho homem - o primeiro era o braço direito do pai na roça - que fora enviado à casa de um parente em Recife para estudar.
Apesar da pouca idade, Benedita cuidava dos irmãos como se fossem seus próprios filhos. A pobreza não foi suficiente para lhe tirar a doçura. Era zelosa e amorosa com os mais novos e, muitas vezes, assumia a culpa pelas pequenas traquinagens dos irmãos, para não vê-los sentir no lombo a mão severa da mãe.
Quando o caçula acordou chorando, Benedita pediu a Francisco para manter os olhos no feijão e foi em seu socorro. O tempo que levou para assisti-lo foi suficiente para que o alimento se perdesse na alta temperatura e no descuido de Francisco. Benedita ainda tentava aproveitar alguma coisa da comida, quando a mãe puxou-lhes pelos cabelos.
Francisco buscava inutilmente deter a ira da mãe contra a irmã. Agarrava-se a sua saia e, aos gritos, o que tornava ainda mais esganiçada a sua voz, implorava a Dona Maria Quitéria que largasse Benedita. Mas a fumaça, que saía da velha panela de barro repousada sobre o fogão à lenha, que infestava o casebre com um cheiro de queimado do feijão, a primeira e última refeição do dia, cegava a mãe e tornavam inúteis as tentativas do menino. O feijão como o último elo entre o mundo real e a cegueira absoluta. O colapso explodindo à beira do fogão à lenha.
As mãos magras e precocemente enrugadas de Dona Maria Quitéria seguravam com força os cabelos encaracolados de Benedita, sacudindo freneticamente sua cabeça no ar. O corpo franzino da mocinha não impunha obstáculo para os movimentos de vai-e-vem. O rodopio de mãe e filha por entre mesa, cadeiras e utensílios domésticos continuou até alcançar o que se supunha ser uma sala de estar, desfechando-se no encontro violento da cabeça de Benedita contra uma das paredes. Fora de si e ainda segurando os seus cabelos, Dona Maria Quitéria impulsionou a cabeça da filha de volta. Francisco pôde ouvir o som oco do impacto. Tum! E ouviu uma vez mais e outra.
Dona Maria Quitéria, agora olhos arregalados, levou as mãos à cabeça e afastou-se. Depois, chorando, deixou-se cair no meio da sala, inclinou o dorso à frente, apoiando a mão esquerda no chão e estendeu o outro braço em direção à filha. As lágrimas em abundância se derramavam sobre a saia florida de chemise.
Os gemidos e soluços fizeram Benedita, ainda recostada ao pé da parede, reunir o restinho de suas forças. Levantou-se e, como se tivesse entornado sozinha uma garrafa de cachaça, caminhou cambaleante em direção à mãe. Francisco fixou os olhos na parede e só então pôde notar o prego ensangüentado onde a pouco estava pendurado o quadro com a retrato da família. Assustou-se ao ver o que a violência de sua mãe provocara. Voltou os olhos para Benedita e a viu agachar-se e trazer suavemente a cabeça da mãe contra o seu colo. O castanho dos cabelos da irmã se misturavam ao vermelho das manchas de sangue. O menino permaneceu em pé, ainda em choque, enquanto ela amparava e reconfortava a mãe.
Benedita sentiu sono e aos poucos escorreu pelo chão até espalhar de vez o seu corpo pela sala. Seus olhos permaneceram abertos, mesmo depois que ela parou de respirar.
Na casa, ainda hoje, há cheiro de coisa queimada. Só que agora as cinzas vêm de corações em chamas.
Nota do autor:
Pequeno conto baseado em meu livro inacabado “O país do adeus”, que narra a história de Francisco, poeta e comunista torturado pelo regime militar nos anos de chumbo.


Animalesca é tanto a reação da mãe quanto a miséria da vida que provoca a reação da mãe.
Inquietante, Dimas. Principalmente para quem lembra, como eu, o outro trecho da história de Francisco já publicado aqui, a história de sua prisão.
Tô doida pra ver esse livro sair do prelo.
Estamos cansados de ver, banalizadas pela mídia, cenas brutais devidamente documentadas e exploradas em fotos, tapes e matérias horripilantes.
Mas, justamente pela banalização, pela freqüência com que esse tipo de material é jogado na nossa cara, acabamos por virar a página ou mudar de canal, mesmerizados e quase indiferentes – se é possível ficar indiferente a esse tipo de coisa.
Com esse conto não dá para olhar e sair de fininho. Ele nos atinge como um soco e espanta o mínimo resquício de indiferença – parafraseando a máxima, vale mais do que mil fotos, embora nada tenha de jornalístico. Literatura de primeira.
Benedita, Quitéria e Francisco – doçura, crueza e inocência, florescendo e fenecendo juntas no solo da mais abjeta miséria. Elementos difíceis de equilibrar num mesmo texto e com tal destreza.
Que venha o livro.