Extermínio
- on 17 de novembro de 2008, às 0:00h
- Tiquinho de nós
Hey Joe - Jimi Hendrix (Versão: O Rappa)
Era hora. Estava agitado, pois seria o dia de seu batismo. Nunca imaginou que em algum momento de sua vida participasse de uma ação como aquela. Não entrou na polícia para transformar-se num criminoso. Tampouco entrara por sonho de criança ou por amor a farda. Entrou, porque quando não se consegue escolher os caminhos, os caminhos nos escolhem.
Antônio Carlos Oliveira era o soldado Oliveira do 21º Batalhão do Comando de Policiamento da Capital. Sua história em um esquadrão de extermínio, formado por policiais militares, aconteceu por acaso, como resultado de uma das inúmeras ações das quais participou em pouco menos de três anos na corporação. Na captura de um perigoso marginal de apenas 17 anos, feriu mortalmente o irmão e comparsa do bandido e foi jurado de morte.
Agora que o menor estava foragido, o medo voltou a assombrá-lo. Ainda mais quando soube que o jovem bandido estava a sua procura. Vivia o paradoxo de ver e ser a polícia indefesa diante da violência das ruas. Quem protege os policiais quando eles são o alvo?
Procurou proteção na corporação. A alguns amigos confidenciou as suas preocupações. Tinha medo de morrer, embora enfrentasse o perigo com alguma freqüência. É que no caminho para casa nunca há um parceiro que olhe por ele. Nessas horas, é cada um por si e Deus contra todos.
De um dos colegas recebeu o conselho que, para não morrer, era preciso matar. Receberia apoio de um grupo especial dentro da corporação. Um grupo não-oficial que agia de acordo com as suas próprias leis e acima da Lei. Um esquadrão de extermínio. Melhor isso a correr o risco de ser pego de surpresa numa esquina ou encontrado morto num terreno baldio.
Embora soubesse que não tardaria para que a sua dívida fosse cobrada, aceitou a ajuda, pois não encontrou outros meios. Aprendeu a lição que bandidos de farda defendem os policiais quando eles são o alvo.
Naquela noite, mascarados varreram a periferia de Recife em viaturas civis à procura do menor. Acharam-no altas horas da madrugada em um bairro afastado. Os caçadores deram socos e pontapés na caça, que só se entregou quando a coronha de um revólver veio de encontro a sua cabeça. Em seguida, jogaram-no dentro de um dos carros e o levaram para um matagal.
Ao soldado Oliveira coube a execução. Criaria assim um elo indisolúvel com o esquadrão. Enquanto os demais integrantes do grupo gritavam e incitavam-no a matar, o jovem policial deixou-se paralisar diante da indecisão de ficar do lado da lei ou da sobrevivência. Porém, por muito o ponto de retorno já havia sido ultrapassado.
Antes de atirar, o soldado Oliveira sentiu um vento frio, incomum no nordeste, bater em seu rosto ao mesmo tempo em que reparou na beleza das ondas que se faziam na relva. No chão agora, um bandido novo morto pelas mãos de um novo bandido.



Baseado em fatos reais? Sim, não tenho dúvida. Daqui de fora é tão fácil julgar os atos que às vezes a gente chega a esquecer (propositalmente) que a vida não tem nada de simples.
Não há homem que não seja covarde. Assim como não há animal que não tema pela sua sobrevivência.
Gostei, Dimas. Tanto que deixo aqui a sugestão de você reescrever estes mesmos “fatos” sob o ponto de vista do bandido novo morto pelo novo bandido.
Beijos!