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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Terminal

Pintura: Diego Mato Toledo

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Esperando por mim – Legião Urbana (Renato Russo)

É quase noite. Um céu magnífico e avermelhado do crepúsculo descansa sobre o meu telhado. Alguém esqueceu a janela aberta e, de fora da casa, vem um sereno que corta meu corpo como uma serra elétrica. Não reclamo, mas só porque não tenho mais forças para reclamar. Além do mais, é melhor a dor que não sentir nada, que é a mesma coisa que perceber-se morto ainda em vida.

Ao meu lado, uma mulher. Um manto vermelho, meio sujo e muito gasto, cobre boa parte de seus cabelos maltratados. Sua face também está nua. Suas roupas indicam que ela não é daqui. Mulçumana, talvez. Ela me olha fixamente. Seu olhar é cortante, mas as fisgadas internas que sinto não vêm de lá. Seus olhos também são tristes. Mesmo assim ela não chora, nem dá sinais de que vá chorar. Sentimentos sufocados. Guerras e perdas. Foram-se os pais, os filhos e o marido. Foi-se o lar e não há mais para onde ir. Mesmo assim, não vejo em seu rosto vestígios do medo. O que há para se perder, quando tudo já se perdeu? Mas nada disso tem importância, pois esta mulher, que descrevo agora, existe apenas em minha imaginação e nas tintas lançadas sobre uma tela pendurada na parede do meu quarto.

Inclino vagarosamente a cabeça para a minha esquerda e, por um retângulo, vejo uma lua imensa subir aos céus. Da posição em que estou, meu nariz aponta para o alto e me torna um observador privilegiado. Ela parece desproporcional e dá a impressão de que está caindo sobre nós. De tão grande, sinto-a ao alcance da mão e quase, quase mesmo, posso tocá-la. A lua benfazeja me distrai e ocupa meus pensamentos de coisas boas e cheias de delicadeza.

A porta do quarto está aberta. Alguns lances de escada dão para o andar de baixo. Na sala de estar – posso ver da minha cama, sem ao menos tirar os olhos da lua – a esperança é terminal. Ganha força um consenso silencioso que o sofrimento deve ceder a vez ao descanso eterno. Também em segredo, meu pai ainda aguarda por um milagre cada vez mais improvável. Em toda a casa, reina sobre nós o desalento. Os pensamentos, que já não podem mais ser contidos, saltam da boca e expõem agora em palavras os sentimentos mais profundos de aflição, de temor da perda inevitável e da piedade que não preciso. A verdade é que, enquanto respiro, todos falam de mim, como se eu já estivesse morto.

Em meu corpo, trava-se uma batalha perdida. Células anárquicas, incontroláveis e incessantes invadiram os meus tecidos e não podem mais ser detidas. Não há mais esperanças para a esperança. Aprisionado em mim, resta-me esperar que o arrebol dê lugar à noite e que ela venha em paz.

2 Comentários para “Terminal”

  1. Gravatar

    Velho Dimas,

    Gostei muito da “Não há mais esperanças para a esperança”.

    Idem do “arrebol”.

    Tá poesia pura.

    Um abraço,

    Vovô LibaR

  2. Gravatar

    Gostei muito.

    Pode parecer – ou vai ver, é mesmo- meio doentio, mas já imaginei cenas semelhantes um monte de vezes.

    Só não consigo passar para o texto, e a trilha sonora sempre muda – na última tinha Beck cantando “sing it again”, do disco Mutations.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!