Exílio
- on 22 de dezembro de 2008, às 0:00h
- Tristeza não tem fim
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Arte: Navajo Spirit, de Kathie McCollough

Minha mãezinha (Ângela Rô Rô)
O carro ultrapassou o portão principal quase silenciosamente e parou em frente ao casarão. Até mesmo o ruído do motor parecia compreender que o momento era solene e definitivo. No interior do automóvel, três corpos estáticos tomavam assento no banco de couro. Lá fora, um vento frio de outono conduzia delicadamente as folhas das árvores ao chão.
Passaram-se quase cinco minutos até que o motorista decidisse sair do carro. Antônio, um homem de pouco mais de quarenta anos e rosto circunspecto para a idade, voltou-se para o sol, como se buscasse forças para prosseguir. Mesmo de costas, com um leve empurrão, ele fechou a porta do automóvel, fazendo com que o barulho seco interrompesse o silêncio por um instante. Intimidado, um casal de bem-te-vis abandonou o galho de uma mangueira e ganhou vôo. Na mesma direção, partiu um bando de pardais que pousava sobre os fios da rede elétrica.
Depois de Antônio, desceu sua mulher. Com o rosto um pouco menos afetado, Angélica entrou no casarão para logo retornar ao lado de um enfermeiro. Antônio já havia terminado de descarregar as malas do automóvel, quando sua esposa abriu a porta traseira e estendeu a mão para o último passageiro. Vagarosamente, e com a ajuda do enfermeiro, uma senhora transferiu-se para a cadeira de rodas que Antônio acabara de retirar do porta-malas. Dona Eunice tinha um corpo franzino e curvado e a pele enrugada pelos longos anos de vida. Embora o corpo estivesse debilitado, sua mente conservava uma impressionante lucidez. Em seu coração fraco pululavam sentimentos de profunda tristeza e resignação.
Durante o percurso casa adentro, apenas o enfermeiro falou. Muito amável, mostrava à Dona Eunice as dependências do casarão e contava sobre as atividades recreativas dos residentes. A velha senhora ouvia tudo em silêncio. Também em silêncio caminhava Antônio. Para os dois, o interminável trajeto prolongava cruelmente uma situação embaraçosa e, portanto, dispensável. Não carecia estender a dor além do necessário.
Mesmo assim, o grupo prosseguiu. Da recepção passaram pela sala de jogos, piscina e enfermaria até que, enfim, se encaminharam para o quarto. Dona Eunice permaneceu calada. Antônio dispôs as malas sobre a cama e Angélica acomodou tudo no guarda-roupa. O filho ainda se esforçou para dizer alguma coisa – palavras de encorajamento, talvez – mas o olhar triste e decepcionado de sua mãe tornou-se um obstáculo intransponível. Dona Eunice parecia dizer-lhe com os olhos o que nunca foi capaz de enunciar com as palavras.
Antes de sair, Antônio bem que tentou sorrir, mas não conseguiu. Aproximou-se da mãe e, como Judas, beijou a sua face. Já não é mais necessário o amparo maternal nas noites em claro por causa de seu corpo febril queimando em quase quarenta graus. Sabe-se agora que tanto amor foi em vão. Dona Eunice já não cabe mais nos planos de Antônio.
Ser abandonado é morrer duas vezes.



Serei fiel no relato das reações que tive. Assim que li, falei um palavrão. É muita amargura! Ninguém sabe do abismo que existiu antes dessa situação ocorrer. Fiquei amargurada também. Mais ainda, quando pensei que o abandono acontece não só de filhos com pais, mas de homem e mulher, amigos (se é que amigo de verdade abandona…). Acredito que a frase: “ser abandonado é morrer duas vezes”, leva-nos a uma realidade: por mais que dividamos uma vida com alguém, sempre estamos sozinhos. Mas se essa sensação de solidão chega a esse ponto, motivada pelo isolamento espacial, acabamos matando a ilusão de estarmos acompanhados, quando dividimos um espaço com alguém. No mais, amarguradamente, gostei do texto.
Dimas,
Retornando agora à boa e velha rotina blogueira (espero!), deparo-me com a essência de sua escrita aqui. Kalina falou tudo: palavrão, amargura, dor… desenhos da vida tão bem assinados por Dimas.
O interessante é que o tema – abandono, mãe e filho – vem me incomodando desde ontem, quando comecei a leitura de “Romance com Cocaína”. Nada no mundo me comove mais que o abandono, a miséria de alguém idoso.
Parabéns, Dimas.
Dimas,
Li o texto um monte de vezes desde que foi postado, mas, meio que esperei alguém puxar a fila dos comentários (obrigado, Kalina e Ana Cláudia).
É um instantâneo doloroso sobre um tema que me atrai e, ao mesmo tempo, me incomoda. E muito.
Diria que tornou-se um tema recorrente nas minhas noites de insônia (há outros, muitos outros, mas…). E tome lembrar casos reais que conheço e imaginar se não me acontecerá o mesmo….Sabe-se lá!
O exílio sem a esperança do retorno.