Acordar
- on 1 de fevereiro de 2009, às 10:00h
- Meus caros amigos
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Pintura: Mordecai Ardon

Kalina Paiva
Acordei porque tinha que acordar. Já é dia. O sol está mais forte, mais quente e pronto para sua costumeira jornada pelo céu. Envolta nos lençóis, lembrei de quando estávamos juntos.
Meus olhos só vêem a ti. Minha boca anseia pelo teu corpo. Meu nariz sente o teu cheiro de homem. Meu pensamento é teu. Queria encontrar-te assim, no frio desta manhã com pássaros ainda cantando, procurar pela mais secreta das flores, dizer que te amo muito e não mais sair de perto de ti.
Fechei os olhos, ainda na cama, e deixei que minhas mãos procurassem o meu sexo. Em movimentos circulares, horizontais e verticais, senti os meus dedos úmidos, a cada vez que eu me tocava. Era meu cheiro. O teu cheiro, porém, não estava comigo. Delirei, pensando na possibilidade de ser acordada por ti nessa manhã.
Permaneci tateando meu corpo, em sinuosos movimentos, sentindo meu líquido mais espesso e querendo a tua boca. Senti uma, duas, três vezes… Senti raiva porque não estavas comigo. Raiva se misturou ao desejo, temperados com uma tristeza recomposta. Eu te queria dentro de mim, dizendo palavras ao meu ouvido.
Fechei os olhos e vi o teu sorriso. Continuei viajando pelos rosas do meu corpo até sentir mais fortes os espasmos de prazer. Não mais os lençóis me envolviam, mas sim o suor que descia ladeira abaixo pelo meu corpo nu e liberto.
E foi assim que acordei: pensando em nós dois e sentindo uma espécie de prazer que, depois que parei para pensar, soou-me incompleto e impossível. Tu já estavas com os anjos e eu tenho que ficar aqui, esperando a minha hora.


Gosto de textos que evoluem naturalmente, abrindo uma janela, uma porta, para que o leitor, a cada parágrafo, se situe no conto.
Percebi essa característica em Kalina desde o seu primeiro texto. Acho que é um talento natural.
Eu, que escrevo tanto sobre a morte, percebo, tal qual este pequeno conto, que o seu único legado é a saudade.
Dimas Lins
forte. cinzamente e vermelhamente belo.
O BOM DESSE MARAVILHOSO TEXTO DE KALINA É A FORMA LITERALMENTE DESPIDA DE COMO A PERSONAGEM SE FAZ LATENTE, CRESCENTEMENTE LATEJANTE, NO DECORRER DE CADA LINHA ESCRITA, NUM MISTO DE DEVANEIO, DESEJO E DOR CONTIDA.
MOSTRA-SE HUMANA, ABERTA, ANSIOSA, ANGUSTIADA, MAS PRINCIPALMENTE INTENSA, VIVA, MESMO FALANDO DA SAUDADE E DA MORTE; O AMOR, O SEXO E O DESEJO NÃO PERMITEM QUE SEU SENTIMENTO SEJA APENAS DE UMA INCONFORMADA PERDA.
PARABÉNS, KALINA!
gomes_adv@uol.com.br