A incrível linguagem das moscas
- on 18 de março de 2009, às 20:58h
- Meus caros amigos
- 2 Comentários

Kalina Paiva
Embora seja australiana, moro no Brasil, na Baía de Guanabara, após meu navio ter aportado aqui acidentalmente. Fui ficando, ficando… Não vem ao caso explicar agora. Por hora, só posso dizer que meus filhos morreram tragicamente e preferi ficar por aqui mesmo, longe dos ares australianos.
A fim de repelir o imenso breu dessa noite fria, eu havia pintado os meus pêlos de loiro para iluminar esses cômodos sombrios desse apartamento minúsculo onde vivo, porém repleto de tanta solidão a ponto de escapar pelas janelas. Já havia perdido as esperanças de que ele voltaria com seus beijos e corpo de juízo final tão prometidos e estranhamente não esperados. Dá para se ter idéia do que é esperar por algo que se sabe que não virá? Meu corpo permanece insone e sedento. Mas logo, logo, providenciarei uma saída.
Mal acreditei quando vi uma mosca doméstica noturna sobrevoando o alimento que eu degustava pouco a pouco. A solidão é terrível. Enfim, uma companhia. Mas aquele inseto se apropriara do meu pedaço e isso me deixou irritada. Mesmo assim, quedei muda, vendo aquelas asas membranosas, agindo de maneira tão natural. Sua língua afagava o alimento, embalando-o torcicolosamente. Nunca esquecerei aquela imagem: uma mosca lambendo o meu alimento. Aquilo me excitava e muito. Como será a textura da sua língua? Será quente? Será úmida? Será áspera? Meu corpo se oferecia em sacrifício à sua língua até então desconhecida por mim, porém desejada.
Sob o manto da felonia, dela eu me aproximei, observando a sua teatralidade, sua dança envolvente coreografada em vôos curtos e rápidos. Parecia ter medo de que eu a afugentasse para longe. Eu não faria isso com um ser que acompanha o homem desde os tempos imemoriais e que, certamente, teria muito a contribuir comigo.
Assim como eu, o inseto tinha medo de ir lá fora. Parecíamos duas presidiárias com receio paranóico de serem reintegradas à vida social. Nunca alguém me entendera tão bem sem pronunciar uma palavra sequer. Aliás, falamos idiomas diferentes. Num momento, percebi que ela perscrutava o meu olhar e lia nas entrelinhas o manto da minha perfídia, minha angustiante perfídia. Por que ela não fugiu nesse momento? Se bem que eu já estava me acostumando com a sua presença, me sentindo parte de sua vida. Aos poucos, passei a entender a incrível linguagem das moscas.
Tenho que confessar: sempre tive um temperamento agressivo e tomava a iniciativa em tudo na minha vida, principalmente no que diz respeito à sedução, mas, desta vez, eu queria sentir como é ser seduzida. Assim, adotei um comportamento passivo.
Foi então que ela saiu, deu três voltas e pousou sobre mim, afagando a minha tez. Meu corpo estava deitado sobre a poltrona. Eu o inclinava mais para sentir o leve peso dela sobre mim, sonhando com a textura da sua língua. Não consegui me conter e expeli um líquido forte e característico que fê-la paralisar incólume, inebriada pelo cheiro.
Girei o meu corpo de forma que a minha boca mirasse a sua, fechei os olhos e esperei. Ela se aproximou, sentiu o meu cheiro de fêmea, mas eu não suportei o cheiro de prazer que ela também exalava. Isso me arrebatou de tal maneira que abri instantaneamente meus olhos, penetrei profundamente em sua alma e disse:
- Muito prazer, sou Aracne.
Em seguida, devorei-a num só momento naquela madrugada silenciosa e fui dormir tranqüila e saciada. De mosca em mosca, aprendi a ser mais aranha e a entender o mundo como algo que pertence ao tamanho da nossa fome. Exatamente por pensar assim, eu devorei o meu marido antes que meus filhos nascessem. Depois, saboreei os meus filhotes, após embalá-los em minha teia, sentindo um pouco o meu próprio sabor de viúva-negra.


Kalina,
Infelizmente não estou nos melhores dias de minha vida, pouco entendo sobre o que as pessoas tentam me dizer! Seu texto é bacana … A fome certamente faz com que ‘morremos pela boca’… Mas o que me chamou atenção no conto foi a seguinte frase: “A solidão é terrível” … Realmente sinto isso na pele, e o pior, é estar cercado de gente e se sentir tão sozinho, minha fome nem faz me aproximar de minhas presas … Ficar longe das pessoas que amo me sufoca, é como se eu estivesse preso na ‘teia’ e a aranha estivesse me esquecido e eu sem a mínima chance de me salvar, de trazer de volta minha filhotinha, e a mainha dela, não sou viúvo ainda, mas morro a cada dia longe delas!
Abraços !
Kalina, esse texto é muito bom!
Ele me lembrou a forma bela e estranha de escrever de Kafka. É um texto curioso e gostoso de ler.
Você soube passear pelo mistério, pela sensualidade, pela aflição, pelo amor e ao mesmo tempo pela crueldade; um misto de sentimentos que prende a atençao de quem lê, e que nos faz terminar com um soriso que aprova sua criatividade.
Muito bom, poder ler coisas assim, em dias em que se consome tanta mesmice e futilidae.
Um abraço
gomes_adv@uol.com.br