Na teia da aranha
- on 22 de abril de 2009, às 0:00h
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De volta ao samba (Chico Buarque)
Esta semana, marquei um encontro com um grande amigo num barzinho em Recife. Nenhuma ocasião especial. Apenas aproveitamos a oportunidade para botar a conversa em dia. Gosto daqueles papos que acrescentam vida à vida da gente. No cardápio, amenidades e sarapatel, o manjar dos deuses do Olimpo, segundo os grandes filósofos gregos. Pouca gente sabe, mas eles também eram profundos conhecedores da gastronomia pernambucana.
Em algum momento da nossa conversa, o assunto girou em torno do Estradar. Ele falou da poeira sobre móveis e do mato crescente que vêm tomando conta desse pequeno espaço na internet. O puxão de orelha tinha uma só motivação: acabar com a crônica escassez de crônicas no blog.
Passado alguns minutos, como é da minha natureza, tentei contra-argumentar. Usei em minha defesa as mesmas desculpas de sempre, como a falta de tempo, o excesso de afazeres em meu trabalho, a nova função de pai e o conseqüente entusiasmo com a minha filha. Nem disso eu mesmo me convenci, pois sabia que, no fundo, havia algo mais. Se não encarasse o problema de frente, a situação certamente ficaria um tanto pior.
A verdade, a verdadeira verdade, a inescapável verdade, é que tem me faltado inspiração. Meu cérebro está oco e coberto de teias de aranhas. Nem uma gota de pensamento, nem um trisco de sopro criador. As gavetas do armário estão vazias de idéias e o criado-mudo fez voto de silêncio. Não encontrei nem mesmo fragmentos de estórias iniciadas tempos atrás que me fizessem recuperar o fio de alguma meada a ponto de levar a trama ao seu final. No que dependesse de mim, a literatura estaria mergulhada para sempre num oceano abissal. Tornei-me um escritor – se é que posso me chamar assim – que não escreve. Lá se vai a minha chance de entrar para a Academia Brasileira de Letras.
Meu amigo, é claro, veio em meu socorro.
- Esse branco total é temporário.
- Você acha mesmo?
- Claro! E caso não seja, você pode tentar outras coisas, como tricô ou dominó.
- Mmmm.
- Por que você não escreve sobre a morte? Tem tanto suicida interessado no assunto.
- Minhas últimas dez crônicas trataram da interrupção definitiva da vida. Temo ter matado meus leitores de tédio.
- Interrupção definitiva da vida? Que coisa mais dramática! Você precisa mesmo é escrever uma comédia!
- Ando rabugento e mau humorado demais pra isso. Além do mais, gosto de uma coisa mais deprê, entende? Confesso que às vezes choro depois de ler o que escrevo.
- Grande coisa! Sua esposa me disse uma vez que você chorou assistindo a Superman. Se eu não lhe conhecesse bem, diria que você foi criado com vó.
- Engraçadinho.
- Deve haver uma explicação para essa falta de inspiração. Teu casamento não anda em crise, não?
- Minha esposa ainda me ama, apesar de mim.
- Já sei! Escreve alguma coisa sobre umas mulheres gostosas num bacanal. Faz isso que eu até juro que volto a frequentar teu blog.
- Você já me viu escrever pornografia, Juvenal?!
- Se é assim, desisto! Agora estou eu sem inspiração para te inspirar.
- Pelo visto, isto pega.
Voltei para casa abatido, mas, depois de um banho, fui direto ao computador. Espanei as teias de aranhas do cérebro e comecei a bater nas teclas devagar. “Esta semana, marquei um encontro com um grande amigo num barzinho em Recife…”.
Deixei esse negócio de inspiração de lado, pois já era mais do que tempo de recomeçar.



Ótima maneira de voltar aos escritos: limpando teias de aranha e falando das angústias que cercam o ato de escrever. Parabéns!
Grande “Dimas”
Eu não preciso dizer que adoro esse espaço … onde realmente te vejo como um grande escritor, um grande contador de histórias, um entusiasmado pela vida, e um atarefado como todos mortais!
Talvez, você tenha realmente ficado sem inspiração, mas jamais irás perder o manejo com as palavras … e às vezes, passeamos por um vazio em nossa mente, as teias aparecem até dentro de nossas calças, aff … Mas, de toda forma parabéns por mais um texto!
Ps. Vou te mandar um poema de minha autoria, para vc avaliar, e caso não tenhas o que publicar, quem sabe minhas ‘pobres palavras’ possam fazer parte desse espaço maravilhoso! e vc escolhe a música para a trilha sonora (rsrsrs)
Abraços meu amigo!
Quando comecei meu blog, eu o fiz para me forçar a escrever. Eu vinha de uma temporada de dedicação à maternidade, com dois filhos, e nenhuma linha escrita que não fosse trabalho (sou jornalista). A princípio, falava de minhas próprias dificuldades de escrever (como vc fez agora). Ou de meus filhos (que ocupavam boa parte de meu tempo). Ou de meu trabalho (que ocupava a outra metade). Com o tempo, a inspiração foi chegando…
Já não era sem tempo.
Modo e tema engenhosos para voltar`ao mundo das “letras”.
Bloqueio criativo, falta de inspiração….São coisas que atormentam apenas quem sabe escrever. Eu nunca sofri com isso….
Benvindo de volta Diminhas. É assim que se deve fazer quando se volta à casa, limpar teias de aranhas e todos os matinhos acumulados. A propósito não limpe todos, alguns matinhos podem ser úteis para aguentar a nossa gloriosa campanha na, não menos gloriosa, Série D.
Tenho dito.
Vou sugerir que algum cientista analise profundamente esses surtos de falta de inspiração e/ou ou falta de tesão para escrever. São surtos temporários, cíclicos (pelo menos os meus), e desconfio mesmo que sejam altamente transmissíveis (a maioria dos blogueiros que eu conheço passa por isso no momento, por exemplo). Vai ver que é uma espécie de “gripe” que chega com o final das águas de março…
Mas é bom estar de volta, Dimas. Bom para os seus leitores, pelo menos.