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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Blitz

Edição de imagem: Dimas Lins/ Charge: Moa
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Guitarra Baiana (Moraes Moreira)

O Mendoncinha tinha cisma com blitz, pois sempre o paravam nos momentos mais inoportunos. Preso numa operação de trânsito, já perdeu, por exemplo, um negócio importante devido a um atraso em um compromisso profissional inadiável. Do mesmo modo, azar supremo, deixou escapar uma morena irresistível da academia de ginástica, que só lhe dera bola depois de muita insistência.

Mendoncinha tinha tanto azar, que não adiantava mudar o trajeto, pois a blitz mudava também. Parecia de propósito.

- Documento do carro e habilitação do motorista.

- Pois não, seu guarda!

- O senhor estava dirigindo a mais de 130 Km/h.

- Eu e todos os motoristas nesta rodovia.

- É, mas o radar só pegou o senhor.

- Mmmm.

Com o tempo, o Mendoncinha passou a reagir com ironia, que acabou se tornando sua marca registrada contra as blitz.

- O senhor sabia que trafegava acima da velocidade permitida?

- Sabia, Seu Guarda. Mas dá só uma olhada neste carro: motor 3.6, seis cilindros, 254 cavalos de potência e atinge de 0 a 100 em cinco segundos. Diga a verdade, dá pra andar numa máquina dessas a 80 Km/h?

- Mmmm.

Ou ainda:

-E então? O senhor vai ou não fazer o teste do bafômetro?

- Posso pensar um pouco mais?

- De quanto tempo o senhor precisa?

- Só o suficiente para passar o efeito do álcool.

- Mmmm.

Um dia, o Mendoncinha descompensou e, pela primeira vez na vida, decidiu ignorar uma barreira policial.

Contam os amigos que o Mendoncinha jogou o carro contra o bloqueio, saiu em disparada e, enquanto foi perseguido pelas viaturas, trafegou pela contramão e cruzou alguns sinais vermelhos. Depois, abandonou o carro num local de grande movimentação e fugiu a pé, até encontrar abrigo num prédio público. Finalmente, foi cercado no banheiro masculino e preso ainda sentado na bacia sanitária com as calças arriadas até o joelho.

Levado ao tribunal, alegou em sua defesa uma devastadora diarréia, razão pela qual não pôde obedecer às ordens das autoridades policiais.

Até hoje ninguém sabe dizer se a alegação foi verdadeira ou se teria sido mais uma das tiradas do Mendoncinha. O fato é que ele não dirige mais, por determinação judicial. Teve que trocar o carro pela bicicleta. Mesmo assim, para evitar surpresas, sempre dá meia volta quando encontra uma blitz no caminho. Justifica para os amigos que faz isso com medo que algo dê em merda.

O Mendoncinha é mesmo incorrigível.

4 Comentários para “Blitz”

  1. Gravatar

    Rapaz, nunca tive problemas com blitz. Aliás, tive apenas um, que foi resolvido sem maiores problemas. Problemas com merda, entretanto, tive vários. Contarei um nas estréias do Minha Pança.

  2. Gravatar

    Blitz pra mim não é problema – eu não sei dirigir.

    Diarréia é um problema gravíssimo. Nem saio de casa.

    Já fui a jogos ,e outros eventos, com crises de coluna, gripe….Mas, ao menor sinal de revolução nos países baixos, mantenho-me perto do trono e cancelo tudo.

    Fazer merda em público, sem ligar a mínima, é para político ou cartola.

  3. Gravatar

    O pior da blitz é você sacar, nos primeiros décimos de segundo de encarada no policial, que ele não tá preocupado com segurança porra nenhuma. Tudo o que ele quer é o toco.
    Sei que nem todo policial rodoviário é corrupto, claro. Eu é que dei azar a vida toda de só topar com esse tipo.

  4. Gravatar

    Sensacional a saída de Mendoncinha! Assim como a traíção de Capitu é uma das dúvidas eternas da literatura nacional, a real motivação da ida de Mendoncinha ao banheiro se prolongará sem resposta. No mínimo, afora o riso que o texto em mim produziu, já tenho mais uma ideia contr as blitz.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!